Brasil

Entre feminicídios e desigualdade na saúde, o que as brasileiras têm a comemorar?

Léo Carvalho

Publicado em 5 de março de 2026 às 16:07 | Atualizado há 5 meses

Dados recentes mostram que feminicídios seguem em alta no Brasil e que milhões de mulheres ainda enfrentam dificuldades para acessar proteção e serviços básicos de saúde | Foto: Reprodução
Dados recentes mostram que feminicídios seguem em alta no Brasil e que milhões de mulheres ainda enfrentam dificuldades para acessar proteção e serviços básicos de saúde | Foto: Reprodução

O Dia Internacional da Mulher, celebrado no próximo domingo, dia 8 de março, historicamente simboliza a luta por igualdade de direitos, dignidade e proteção social. No Brasil, porém, os dados mais recentes sobre violência de gênero e acesso à saúde revelam um cenário que coloca em dúvida o real significado da data para milhões de mulheres.

Entre feminicídios em crescimento e barreiras econômicas para prevenção de doenças graves, especialistas apontam que o país ainda enfrenta dificuldades estruturais para garantir segurança, autonomia e acesso pleno a direitos básicos para as mulheres.

Violência que persiste e mata

Os números mais recentes indicam que a violência letal contra mulheres continua sendo um problema estrutural no Brasil. Em 2025, o país registrou 1.568 vítimas de feminicídio, uma taxa de 1,43 morte para cada 100 mil mulheres, crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.

Desde que o crime de feminicídio foi tipificado na legislação brasileira, em 2015, pelo menos 13.703 mulheres foram assassinadas por razões de gênero.

O que chama ainda mais atenção é a desigualdade territorial da violência. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados nesta quarta-feira (4) mostram que metade dos feminicídios registrados em 2024 ocorreu em cidades com até 100 mil habitantes, onde vivem cerca de 41% das mulheres brasileiras.

O levantamento aponta ainda fragilidades na rede de proteção às mulheres no país. Aproximadamente 50% dos feminicídios registrados no Brasil ocorrem em municípios que não possuem delegacia especializada de atendimento à mulher. A ausência desse tipo de estrutura é apontada por especialistas como um fator que dificulta a denúncia e o acompanhamento de casos de violência doméstica.

Falta de amparo

Em muitos desses municípios, a delegacia comum acaba sendo a única porta de entrada para vítimas que buscam ajuda, o que nem sempre garante atendimento especializado ou a adoção rápida de medidas de proteção. Para pesquisadores da área, ampliar a presença de delegacias da mulher e de outros serviços de apoio é um dos principais desafios das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero no país.

O problema se agrava pela ausência de estrutura estatal. Apenas 5% desses municípios possuem delegacias especializadas de atendimento à mulher e somente 3% contam com casas de abrigo, serviços essenciais para proteger vítimas em situação de risco.

Essa ausência de rede de proteção faz com que muitas mulheres enfrentem sozinhas a violência doméstica.

Especialistas apontam que, em cidades pequenas, fatores sociais também dificultam denúncias. A proximidade entre moradores e a exposição pública podem desencorajar vítimas a procurar ajuda. Em muitos casos, o agressor convive socialmente com autoridades locais, o que aumenta o medo de represálias.

Além disso, a violência doméstica frequentemente segue um padrão previsível de escalada: ameaças, agressões físicas e psicológicas, perseguição e, em casos extremos, o feminicídio. Para pesquisadores da área, muitos desses crimes poderiam ser evitados com políticas de prevenção e uma rede de proteção mais eficiente.

A desigualdade também aparece na saúde

Se na segurança pública as mulheres enfrentam falhas de proteção, na saúde também existem barreiras importantes. Um exemplo é o acesso à vacina contra o HPV, vírus responsável por diversos tipos de câncer, especialmente o câncer de colo do útero, que é a doença que mais mata mulheres com até 35 anos no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer.

A vacina passou a ser oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2014, inicialmente apenas para crianças e adolescentes. Com o tempo, a faixa etária foi ampliada até os 14 anos e para alguns grupos específicos.

O problema é que uma geração inteira de mulheres ficou fora da campanha inicial de vacinação.

Para essas mulheres, a alternativa é recorrer à rede privada, onde a vacina nonavalente — mais completa e que protege contra nove tipos do vírus — custa entre R$ 800 e R$ 1.000 por dose. Como são necessárias três aplicações, o valor total pode chegar até R$ 3 mil. Para muitas brasileiras, esse valor representa praticamente um ou dois meses de salários.

Médicos afirmam que o preço se tornou um dos principais obstáculos para a vacinação de mulheres adultas. Ainda assim, a imunização pode reduzir significativamente o risco de câncer e oferecer proteção por pelo menos 15 anos.

Especialistas também alertam que o vírus está associado a outros tipos de câncer, como os de pênis, canal anal e orofaringe, o que reforça a importância da vacinação também para homens.

Avanços legais que ainda não chegam à realidade

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência contra a mulher, incluindo a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. No entanto, especialistas afirmam que existe um grande descompasso entre a existência dessas leis e sua aplicação prática.

Em muitos municípios, faltam delegacias especializadas, equipes multidisciplinares, casas abrigo e integração entre os órgãos de justiça e assistência social.

Essa ausência de políticas públicas efetivas contribui para que a violência doméstica continue sendo tratada como um problema privado, quando na realidade se trata de uma questão estrutural de direitos humanos.

O que ainda precisa mudar

Os dados revelam que, apesar dos avanços legais e de políticas públicas, a realidade das mulheres brasileiras ainda é marcada por desigualdades profundas.

A violência de gênero permanece em níveis elevados, enquanto o acesso a serviços essenciais — como proteção institucional e prevenção de doenças — ainda depende de fatores como renda, local de residência e estrutura do Estado.

Diante desse cenário, o Dia Internacional da Mulher deixa de ser apenas uma data comemorativa e se torna também um momento de reflexão. Mais do que celebração, a data evidencia que a luta por igualdade, segurança e dignidade continua sendo uma pauta urgente no Brasil.


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