Estudo identifica 261 mil artigos sobre câncer com indícios de fraude
Léo Carvalho
Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 09:32 | Atualizado há 4 meses
Um total de 261 mil textos científicos sobre câncer publicados entre 1999 e 2024 apresentam características semelhantes às de publicações produzidas por fábricas de artigos, segundo estudo divulgado no fim de janeiro no BMJ (British Medical Journal).
O número corresponde a 10% dos trabalhos sobre a doença indexados no PubMed, base que reúne literatura biomédica internacional.
Fábricas de artigos são empresas que oferecem o serviço de produzir manuscritos fraudulentos e submetê-los a periódicos científicos. De acordo com a pesquisa, ao menos 400 mil artigos podem ter sido produzidos por essas empresas nas últimas duas décadas.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália. Um dos autores, Adrian Barnett, professor da Escola de Saúde Pública e Serviço Social da instituição, afirmou que há forte incentivo para a compra de artigos científicos, especialmente na China, onde médicos são pressionados a publicar pesquisas mesmo com jornadas extensas de trabalho.
IA descobriu falsidade
Para identificar possíveis fraudes, os pesquisadores treinaram um modelo de inteligência artificial com base em 4.404 artigos. Metade era composta por textos retratados — publicações invalidadas por erros ou fraudes e associadas a fábricas de artigos — e a outra metade por trabalhos considerados legítimos. O modelo atingiu 91% de acurácia ao sinalizar manuscritos com características comuns a artigos fraudulentos.
Após o treinamento, o sistema foi aplicado a 2,6 milhões de artigos sobre câncer listados no PubMed. O modelo indicou que 261.245 deles apresentavam traços semelhantes aos de textos retratados.
Chineses sob suspeita
A China concentrou a maior proporção de artigos com essas características, considerando a afiliação do primeiro autor, com 36% do total atribuído ao país. Em seguida aparecem Irã, com 20%, e Arábia Saudita, com 16%. O Brasil registrou 4%.
Barnett afirmou que a conclusão causou surpresa e que, ao analisar parte dos manuscritos sinalizados, identificou indícios claros de fraude. Segundo ele, há possibilidade de existirem textos produzidos de forma mais sofisticada que não foram detectados pelo modelo.
O pesquisador também afirmou que há evidências de que esses artigos estão sendo publicados em revistas científicas de alto impacto, contrariando a percepção de que apareceriam apenas em periódicos de baixa qualidade.
Solução para o problema
O estudo aponta que iniciativas como o uso de modelos de inteligência artificial podem contribuir para a identificação de publicações suspeitas. A pesquisa também destaca a necessidade de medidas por parte das editoras científicas.
Segundo Barnett, o aumento no volume de artigos publicados amplia a dificuldade de revisão e controle por parte de editoras e revisores. Ele também afirmou que pesquisadores podem contribuir ao se comprometerem a não contratar serviços de produção de manuscritos.
Outra medida apontada é a revisão das políticas de avaliação acadêmica que incentivam a publicação constante de artigos científicos, fator considerado como um dos elementos que sustentam a demanda por fábricas de artigos. (Folhapress)