Brasil

Flávio Maluf e o modelo de economia circular que transforma resíduos industriais em energia

DM Redação

Publicado em 10 de março de 2026 às 11:36 | Atualizado há 3 meses

Paletes quebradas. Bobinas descartadas. Retalhos de madeira. Materiais que normalmente terminariam em aterros sanitários alimentam caldeiras e geram vapor nas fábricas de uma das maiores produtoras de materiais de construção do Brasil.

Sob a gestão de Flávio Maluf, presidente desde 1997, a companhia desenvolveu um sistema de coleta de resíduos de madeira que se tornou referência em economia circular na América Latina. A operação recolhe materiais de mais de 300 empresas parceiras num raio de 70 quilômetros da unidade de Salto, no interior de São Paulo.

O mercado brasileiro de conversão de resíduos em energia deve crescer a uma taxa superior a 5% ao ano até 2029, segundo projeções do setor. Flávio Maluf antecipou essa tendência há décadas.

Pioneirismo na Reciclagem Industrial

A empresa adotou políticas ambientais muito antes da sustentabilidade se tornar pauta obrigatória em conselhos de administração. Foi a primeira na América do Sul a incorporar uma central de reciclagem no complexo fabril, utilizando sobras de madeira para gerar energia térmica.

“Resíduos que seriam enviados aos aterros são transformados em biomassa e utilizados em nosso sistema de produção”, explicou Flávio Maluf. “Essa tecnologia é mais econômica e tem menor impacto ambiental, pois não depende da queima de óleo ou de gás natural.”

A central de reciclagem processa paletes, carretéis, passarelas e resíduos de madeira que podem conter pregos, papelão ou plástico. O material triturado abastece as caldeiras que fornecem vapor para os processos produtivos. Hoje, a instalação figura entre as maiores operações de reciclagem de madeira em escala industrial na América Latina.

A Filosofia por Trás do Sistema

Flávio Maluf atribui o desenvolvimento do programa a uma mentalidade de questionamento contínuo sobre a eficiência operacional.

“A partir da experiência que adquirimos ao longo dos anos, sempre nos perguntamos: ‘Como podemos trabalhar melhor com a madeira?’ Como podemos minimizar o desperdício? Como podemos tornar a cadeia produtiva mais eficiente?’ Dessas perguntas, surgiram soluções e programas, e até novos negócios, que amanhã podem ser responsáveis pelo crescimento da empresa,” afirmou.

Essa abordagem gerou benefícios que vão além da geração de energia. Os parceiros que fornecem resíduos recebem destinação adequada para materiais que, de outra forma, representariam custo e passivo ambiental. A companhia reduz sua dependência de combustíveis fósseis. Os aterros deixam de receber toneladas de madeira.

Complemento Solar para a Matriz Energética

A conversão de resíduos em energia representa apenas uma parte da equação. Flávio Maluf direcionou R$ 300 milhões para a Usina Solar Castilho, a maior do estado de São Paulo, com capacidade de geração de 269 MWp. A parceria com a Comerc Energia viabilizou o projeto.

“Hoje, 50% do consumo de eletricidade em nossas fábricas vem desse tipo de energia. É uma grande conquista, totalmente alinhada à nossa filosofia”, declarou Flávio Maluf.

A combinação de biomassa proveniente de resíduos e energia solar fotovoltaica reduz a pegada de carbono das operações fabris, ao mesmo tempo que diminui a exposição às oscilações no custo da energia elétrica convencional.

Base Florestal como Fundamento do Ciclo

O modelo de economia circular baseia-se em uma operação florestal em grande escala. São 50 milhões de árvores distribuídas por 45 mil hectares de terra própria, com consumo anual de 1,8 milhão de metros cúbicos e plantio de aproximadamente 6 mil hectares por ano.

“Nascemos de uma base florestal. Plantamos eucalipto desde os anos 1950 e o utilizamos para produzir chapas finas e painéis à base de eucalipto,” explicou Flavio Maluf. “Nosso investimento é constante e monitoramos o crescimento anual das florestas por meio de inventários.”

Programas de melhoramento genético e viveiros de mudas clonais elevaram a produtividade das florestas. O Incremento Médio Anual (IMA) alcançado está entre os mais altos do país, e a capacidade de produção de mudas chega a 13 milhões de unidades por ano.

Certificações que Validam o Modelo

O programa de economia circular ganhou reconhecimento formal por meio de certificações internacionais. A companhia obteve o selo do Forest Stewardship Council (FSC) em 1996, antes de os padrões de sustentabilidade se tornarem requisito comum no setor de materiais de construção.

“Em 2001, fomos a primeira empresa do mundo a obter a certificação de produto sustentável da Home Depot, uma gigante americana do setor. Até hoje somos fornecedores relevantes nesse segmento para eles”, afirmou Flávio Maluf.

A certificação ISO 14001 complementa o selo FSC, atestando conformidade com padrões internacionais de gestão ambiental. Em 2023, a Forbes Brasil posicionou a empresa em 81º lugar na lista Agro100, que reconhece empresas do setor agrícola e florestal com desempenho destacado.

Produtos que Fecham o Ciclo

A lógica circular se estende aos produtos finais. A linha Acqua New de rodapés, lançada em 2024, combina partículas de madeira provenientes de florestas certificadas com resina plástica para criar componentes impermeáveis, duráveis e recicláveis. Flávio Maluf descreveu a linha como tendo “viés ecológico de fonte renovável, 100% reciclável e com emissão zero de gases de efeito estufa.”

Outra inovação, a linha Square de pisos laminados, conquistou o prêmio principal na Expo Revestir 2024 na categoria de pisos laminados. O produto utiliza substrato HPP produzido com partículas alongadas de eucalipto, matéria-prima proveniente das florestas próprias da companhia.

A trajetória de Flávio Maluf demonstra como princípios de economia circular, quando aplicados de forma integrada ao longo de décadas, podem transformar resíduos industriais em vantagem competitiva e reduzir o impacto ambiental de operações manufatureiras de grande escala.

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