Funcionalismo: um mar de águas paradas
Redação DM
Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 22:39 | Atualizado há 11 anosSer funcionário público não é tão fácil quanto se imagina, por vezes, trata-se de um título desgastante e sem qualquer horizonte mágico para o seu trabalhador sucateado. Sim! Existe uma pseudo-segurança de estabilidade e salário certo ou fatiado no final do mês, mas será isso mesmo a maravilha dita e a graça quase divina das vantagens dos atributos do funcionalismo geral?
Não! Não é. O colaborador pertencente a qualquer uma das esferas federativas é sobrecarregado diariamente por um sistema defeituoso, insidioso e rastejante. Não há planos de carreira concretos, porém há muitas promessas fantasmas, gratificações cortadas, abonos vetados, e quase não existir o reconhecimento e diferenciamento entre desempenho pleno frente ao velho empurrar com a barriga.
Os regentes (presidente, governadores e prefeitos por via de regra) levam os cargos públicos no banho-maria, o que acaba deixando seus servidores de fato cozidos e estagnados. Uma vez que se passa no sonhado concurso público não há muita chance de se crescer naquele ambiente, livrando-se pouquíssimos casos como os militares, mas que também sofrem com retaliação salarial quando as finanças gestoras apertam. Além de este êxodo utópico conter pessoas que não estão preparadas para determinado cargo ou função e que entulham as instituições em nome desta fortaleza empregatícia.
O salário depende de reajustes das instâncias regulatórias que andam sempre atrasadas, levando anos para um aumento de miséria, e geralmente, quando isso ocorre o reajuste já chega defasado. Em associação retrógrada, o sistema público não avalia seu profissional por mérito, não há diferença entre aquele que em virtude de desempenhar um trabalho bem feito permanece horas a mais em serviço mesmo sem hora extra, que leva coisas para casa em nome de sua honestidade moral como trabalhador ou compromisso para com a coletividade que será atingida diretamente pelo seu desempenho: escolas, hospitais e órgãos de utilidade geral e essencial, enquanto em contrapartida os ociosos que fazem as coisas nas coxas, que entram atrasados, saem mais cedo e vivem de atestados recebem a mesma remuneração daquele que se sacrifica. Como se não bastasse o ser das coxas crê que o ser dedicado é estúpido em ter uma conduta séria e pautada no compromisso.
O sistema é injusto e pouco efetivo em dar crédito àqueles que realmente merecem fator este que desmotiva muito os que querem tentar fazer a diferença, trabalhar com seriedade, quase sempre estes veem de suas mesas e escritórios um mar de águas paradas, não há remos, botes salva-vidas, nada. Só se vê afogados vencidos pelo marasmo da torneira seca e governamental. Um indigesto axioma de premissa com cunho de prova cabal da inércia, mesmo quando refutado o dever de se apresentar evidência da inutilidade morosa que é abraçada por grande parte. Este parece ser um sistema funcionalmente-disfuncional (antítese mesmo) aquém de qualquer cura, porque ele é vantajosamente conveniente para uma significativa parcela dos reguladores das esferas federativas e para os seus funcionários letárgicos.
Quando se trata das áreas administrativas a situação piora ainda mais, o campo de atuação é limitado e se sabe de antemão que se irá cumprir somente aquela função para todo o sempre corporativo ou enquanto este suportar. Não há aqui o porquê querer crescer, galgar novos patamares, se jamais mudará de função por maior que seja o esforço demandado. Nasce neste ponto o comodismo que trava tudo, o quê não é de todo culpa deste servidor. Trabalhar sem expectativas de melhoria é sufocante, esforçar-se é desnecessário, cansativo e taxativo. Contudo, que estas palavras não sejam uma defesa nem uma desculpa para os vícios e pequenas corrupções do dia a dia público, isso compete ao campo moral-individual de cada um e seus desvios. Por isso, não é raro aqueles que abandonam o serviço publico e partem para o trabalho autônomo onde se sentem realizados de fato.
Em detrimento às amarras públicas gerais, as remunerações, gratificações e méritos só correm bem no funcionalismo político onde tudo funciona em prol dos muitos pseudotrabalhadores dali, uma terra encantada aonde a cigarra-rainha come imoralmente do trabalho incessante das formigas. Quem dera se a organização salarial, de benefícios e meritocracia da política se estendesse a todo o funcionalismo. Cabe esperar e acreditar numa gestão pública onde cada funcionário tenha exatamente aquilo que merece nem mais nem menos.
(Thiago Lucarini, escritor e poeta)