Goiás nas areias coloridas de Goiandira
Redação DM
Publicado em 4 de junho de 2016 às 02:49 | Atualizado há 10 anosUm artista tende a manter ligação profunda com suas origens, a tal ponto que mesmo quando delas se distancia, elas retornam no imaginário revelado em suas criações. No caso de Goiandira do Couto, esse apego pela terra onde viveu foi literal, pois ela a transformou não apenas em temática, mas também em matéria-prima de sua obra.
Foram as areias coloridas e brilhantes da Serra Dourada que lhe conferiram uma técnica única, com a qual desenvolveu composições originais, nas quais o cenário da antiga Vila Boa ganhou inédita dimensão inédita.
Goiandira do Couto e a cidade de Goiás passaram a ter vínculo telúrico tão forte que pensar em uma remete imediatamente à outra. Embora tenha nascido em Catalão, aos seis anos de idade Goiandira se mudou com a família para a antiga capital. O gosto pela pintura e pela escrita despertou cedo, por influência do pai, Luís de Oliveira Couto, poeta, advogado e historiador, e da mãe, Maria Ayres do Couto, pintora.
O incentivo familiar seria base para a construção de uma história de vida dedicada ao ensino e às artes. Goiandira, que começou a pintar ainda menina e recebeu prêmio aos 16 anos, contava que fez em 1933 o primeiro quadro, uma pintura a óleo como outras da primeira fase de sua carreira, que mereceu registro na imprensa, notícia guardada com zelo. “Eu era estudante, não tinha exposições”, comenta em documentário de 1997, com roteiro e direção de Tânia Mendonça, que faz parte do acervo do Museu da Imagem e do Som.
Nesse mesmo documentário, Goiandira, então aos 82 anos, afirmava ter espírito de 18 e estar sempre atualizada. Contava das viagens pelo Brasil, por países vizinhos da América do Sul, pela Europa e pelo Japão. Cabelos bem penteados, batom, o cuidado com a aparência mantido – apesar de limitações já impostas pela idade, que impediam o “saltinho” de que tanto gostava.
“Nunca andei de sapato baixo.” Feminina sim, talentosa também para confeitar magníficos bolos de festa e doces artísticos, além dos tradicionais alfenins. Uma veia criativa de muitas vertentes, entre elas a poesia. Sempre foi fiel à sua grande paixão: a arte. “Casei com meus pincéis”, dizia, depois de explicar que a família proibiu o namoro da filha mais velha com um poeta, por ciúmes, acreditava. “Amei e fui amada”, resumia ela, que não teve filhos.
Ensinou muito, como professora e uma das fundadoras da Escola de Belas Artes, a diferentes gerações. Gostava de receber estudantes em sua casa, misto de ateliê e galeria, para falar de seu trabalho e da história de Goiás, com isso contribuindo significativamente para divulgar o rico patrimônio vilaboense para o Brasil e o mundo. “A beleza dessas areias da nossa Serra Dourada.” Areias que ela começou a coletar, incansável, desde que diz ter ouvido uma voz determinar: “Faça uma casa com areia.” Corajosa, arriscou-se a inovar aos 52 anos, investindo na criação de uma técnica só sua.
No início, eram poucos os tons de areia recolhida durante passeios com amigas à Serra. Depois, foram se multiplicando, dezenas deles, até chegar a cerca de 600, vindos de barrancos onde ela cavava para retirar material ou de pedras arenosas, que dissolviam nas mãos. Encontrou raridades que, como as demais, eram guardadas em vidros, limpinhas, depois de peneiradas.
Em sua casa, uma mesa enorme ficou pequena para comportar pires de diversos tamanhos, cada um contendo areia de uma cor, dispostas conforme os tons, vermelho, amarelo, verde, os mais claros, os mais escuros, cuja ordem ela decorou para dela se valer no momento de eleger a cor a ser aplicada em um novo quadro. Atendia encomendas fazendo os quadros nas horas possíveis, porque tinha a atenção dividida com a família grande, alegrada por sobrinhos-netos que a chamavam de ‘vó’.
A técnica podia ser de fácil explicação – o desenho na tela preenchido com cola sobre a qual iam sendo meticulosamente derramadas porções de areia colorida. Porém, a delicadeza e a maestria dos gestos, a habilidade sutil das mãos, o olhar treinado para saber das nuances perfeitas ao retratar casarios, montanhas, céu, árvores e flores, em um jogo de luz e sombra muito particular, isso não havia como repassar. “É do artista”, resumia.
Essas mãos de artista legaram imagens amorosas das casas, igrejas, do Palácio Conde dos Arcos, da Cruz do Anhanguera, do Chafariz, da Casa de Cora, dos quintais e becos, como o Beco 13 de Maio, o da Rua da Partilha, o do Cotovelo. As rosas e as folhagens, um mundo mágico e autoral que atraiu e conquistou a admiração de ilustres visitantes, como Pablo Neruda, Paulo Autran, Fernanda Montenegro.
Goiandira fez por merecer atenção e reconhecimento. Nascida em 12 de setembro de 1915, morreu pouco antes de completar 96 anos, no dia 22 de agosto de 2011. Sua lembrança fica para sempre entre nós, como memória artística e poética da cidade de Goiás que tanto a amou e projetou internacionalmente, reforçando nossa identidade goiana.
Fica também nas homenagens, como a canção, alegre como ela, que tanto gostava de carnaval, de Marcelo Barra e Gilberto Mendonça Teles: “Exibe o ritmo sereno/ da tela simples da artista/ Essa pintura que a vista/ Só pode ver em Goiás.”
(Marconi Perillo é governador de Goiás)