Governo desastrado
Redação DM
Publicado em 1 de junho de 2016 às 03:39 | Atualizado há 10 anos
O comportamento de Michel Temer em relação ao governo do qual, sem nenhum mérito e sem nenhuma base popular – pois nunca desfrutou de mínima popularidade – se tornou Vice-Presidente, foi de inegável felonia. O impedimento da presidente, em boa parte, era, como afinal ficou demonstrado, um trabalho de sapa em causa própria. Menos de dois meses antes da votação do chamado impeachment escrevi o artigo intitulado Quem tem um aliado como Temer não precisa de ter inimigo. Os fatos são históricos testemunhos das verdades que afirmei.
Apropriado o poder sem a legitimidade do processo eleitoral, o ocasional presidente e as forças partidárias que tramaram a sua ascensão, constituídas em grande parte por políticos representativos da pior corrupção – Eduardo Cunha, Paulo Salim Maluf, Renan Calheiros, Romero Jucá, Fernando Collor de Melo, Aécio Neves, Waldir Maranhão, Cássio Cunha Junior, em suma, mais de duas centenas de indivíduos atolados até o pescoço em processos judiciais, sobretudo criminais, logo no primeiro dia de “governo”, mostraram a sua cara.
Michel Temer nomeou para uma das pastas ministeriais mais importantes uma das figuras simbolizadoras da corrupção – Romero Jucá, o rei das falcatruas em Rondônia e por onde passa. Nomear um político assim conhecido, estigmatizado há muitos anos, é crime de responsabilidade. Pois Temer, sem um pingo de pudor, o nomeou. O escândalo foi tal que teve de demiti-lo no mesmo dia. E quem no Brasil não sabia da folha criminal de Jucá? (Por capricho da história o presidente do PMDB porta-voz da decisão desse partido de sair do governo que integrava desde o antecessor de Dilma Rousseff). Portanto, quem falava em nome do partido que no passado contou com um Tancredo Neves, um Ulysses Guimarães, um Waldir Pires, um Mário Covas (dissidente por causa de Orestes Quércia), um Almino Afonso, um Wilson Martins, tantos outros grandes nomes da História política brasileira, era não apenas um investigado da Lava Jato, mas um envolvido em vários delitos anteriores a essa operação. Em 2004, por exemplo, o governo Lula deu-lhe o status de Ministro com a finalidade de blindá-lo em face da Justiça Comum. Não adiantou a tentativa de blindagem. Romero Jucá foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal pelo procurador (que se aposentou poucos dias depois) Cláudio Fonteles. Faz doze anos que o processo está engavetado na Suprema Corte. Doze anos! E aqui cabe outro registro muito importante: na mesma situação de Jucá está o sr. Henrique Meireles. O autor da denúncia foi o mesmo procurador. Ou seja, Cláudio Fonteles. E o destino do processo é o mesmo: a gaveta de um dos ministros do Supremo. E a sorte do denunciado também é a mesma: Henrique Meireles faz parte do Ministério nomeado por Michel Temer. É, nada mais, nada menos que o Ministro da Fazenda. Logo ele, Henrique Meireles, que Lula pretendeu fazê-lo governador de Goiás pelo PMDB, aqui realizando o presidente da República um dos mais ridículos comícios na Praça Cívica. O povo esperava que Lula fizesse a apologia do candidato Iris Rezende, mas o Presidente falou unicamente em Henrique Meirelles… Quando denunciado por Cláudio Fonteles, o então presidente do Banco do Brasil fez declarações inconvincentes, absurdas até, sobretudo na televisão. E a ação do Ministério Público contra ele está, como já dito, engavetada até hoje. E ele virou ministro da Fazenda do desastrado governo Temer, sem que ninguém, nem os políticos nem a imprensa, toque nesse assunto. O grande De Gaulle tinha razão: “O Brasil não é um País sério”, afirmação feita quando da ridícula e famosa “guerra da lagosta”.
Outro dos primeiros atos de Michel Temer foi extinguir o Ministério da Cultura, agregando-o como departamento do Ministério da Educação. A reação da intelectualidade, sobretudo dos grandes nomes da nossa música popular em um show de Caetano Veloso, foi tamanha que o presidente interino imediatamente revogou o ato. O Ministério da Cultura, apesar da pequenez de visão de Temer, contínua.
E nós continuaremos as nossas análises do que se insere bem na famosa denominação de Stanislaw Ponte-Preta: o Festival de Besteiras Que Assola o País. Nesse festival aconteceu anteontem mais uma demissão de ministro no desastrado governo Temer. Nomeado para o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle (vejam que ironia!) já foi defenestrado o sr. Fabiano Silveira. No seu rosário de erros, Temer nomeara um inimigo da Lava Jato, como foi provado por uma gravação.
Ninguém tenha dúvida: o Febeapá dos que, para o fim de se alçar ao poder não importavam os meios, ainda vai mostrar muito pano de roupa suja. Deles, obviamente.
(Eurico Barbosa, escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal terças & sextas-feiras)