Brasil

História do Edifício Extensão Rural

Redação DM

Publicado em 4 de dezembro de 2015 às 23:14 | Atualizado há 11 anos

Todos têm suas histórias para contar, algumas permanecem enclausuradas dentro de si mesmo, esta, do Edifício Extensão Rural, faz parte do elenco das que devem ser contadas aos leitores. Ingressei no serviço onde trabalhei 37 anos, como extensionista local, o que era regra geral, mas em apenas três anos, por mérito, cheguei ao topo, diretor do órgão. Ocupei varias funções de destaque, neste tempo, contudo, a metade foi na extensão rural: extensionista local, regional, diretor adjunto, e, por fim, diretor e presidente da Acar-Goiás: dois anos de escritório municipal, um ano no escritório regional e logo a seguir, diretor. Ademais, por mérito, pois todas as funções que ocupei, fora dela, de primeiro e segundo escalão, foi por convocação, de forma diferente dos dias atuais, onde o indivíduo aciona um exército de pistolões, em busca de cargos de relevo, quase sempre por assédio, ou através de eleições nababescas, fraudulentas, causa principal de tanta orgia, na esfera pública, no entanto leitor, o assunto é outro, voltemos a ele.

Quando assumi a direção da Acar-Goiás, ela funcionava no centro da cidade, ocupava dois andares do prédio, contudo, havia apenas oito escritórios instalados, embora, o essencial fosse abarcar todo o estado, que ia do rio Parnaíba a fronteira com o Maranhão. A manutenção financeira era feita pelo governo federal – Abcar, em 60%, e, governo estadual – Acar-Goiás, com 40%, mas este, não vinha pagando sua parte, consoante acordo firmado, urgia romper esse obstáculo, pois, nos outros, onde, os estados pagavam crescia, a todo vapor.

Este foi o primeiro desafio que enfrentamos como dirigente, recém-chegado, de um escritório local. Urgia vencê-lo, porém, como? No escritório onde trabalhei os dois anos, usava muito o postulado de que, água mole em pedra dura tanto bate até que fura, aliado ao associativismo: a união de todos os produtores, no esforço de cada um, atrelada ao slogan, a união faz a força. Atuando, assim, em pouco tempo, consegui sensibilizar pessoas influentes aliadas à causa da extensão rural, que era a de promover o bem-estar, econômico e social, da família rural, todavia, os recursos financeiros, nem estavam empenhados, eram duodécimos, o ano descambava para a metade final, procedimento urgente teria que ser feito, para empenhá-los, nosso primeiro aliado nesta luta renhida foi professor Irineu Nascimento, presidente da Suplam, superintendência encarregada, no tempo, pelo processo, de uma só vez, conseguimos empenhar todos os duodécimos atrasados.

Nem bem começamos a recebê-los, chega, de chofre, a intervenção no estado, Mauro Borges, governo “Potestas”, dotado de poder e autoridade legal, cedia o lugar, a um governo “Potentia”: poderoso mesmo! Mas, sem legalidade. Meira Matos Interventor, Iberê Gilsom, secretário da Fazenda, este, vinha do Tribunal de Contas da União, conhecia a filosofia extensionista, sorte grande, deu todo apoio a causa, aumentando, inclusive, o orçamento da Acar-Goiás, maior ainda, foi o vivo interesse do governo militar na área federal, abriu-se oportunidade, sem igual, de implantação, consolidação do sistema brasileiro de extensão rural, em todo o país. Dessa forma, de vento em popa, passamos à ação, ampliando o número de escritórios, assistência técnica, no estado.

A nova política incentivou o desenvolvimento da agropecuária, em todo centro-oeste, com ela, a mecanização da lavoura, adoção de tecnologias inovadoras, objetivando o aumento da produção e produtividade, a agricultura de subsistência cedia lugar à agricultura de mercado, por meio da conquista do cerrado. Era o começo da nova marcha para o oeste, vários organismos regionais: Espévea, IBC, novos como bra e Inda, acenaram com a possibilidade de acordos, convênios, destinados a apoiar a rede de extensão rural. Não ficamos a espera, fomos até eles, em busca de apoio financeiro, apoio este, necessário ao aumento do número de técnicos, junto aos produtores, rara era, naquele tempo, a presença deles, nos municípios, coube à extensão rural, ocupar o imenso vazio, sua presença no meio rural, inaugurava uma inédita ponte de dupla mão: reuniões, com palestras, motivando a comunidade à adoção de novas tecnologias, mudanças nos costumes, hábitos mais saudáveis, no tocante à saúde, com o propósito de integrá-la, na vida econômica, corrente de progresso do país.

Para consolidar este grande objetivo, verdadeira missão, precisava a Acar-Goiás de estrutura, como boa sede e um centro exemplar de treinamento, preparo, capacitação permanente de seu pessoal. Tamanha obra carecia de recursos financeiros, pois, as verbas do governo federal-Abcar, e, do governo estadual-Acar-Goiás, tinham o fim precípuo de sustentar a estrutura humana, quadro de pessoal, veículos para sua mobilização, adestramento para ação, visando eficácia no trabalho. Imbuído da mesma fé que nos levou a quebrar a estagnação da Acar, no estado, promovendo, a passos largos sua expansão e ação, saímos em busca de recursos, para os dois objetivos fundamentais: sede própria e o centro de treinamento.

Foi uma empreitada impregnada de vontade, aquela vontade mediadora, entre o instinto, paixão que cobiça e o espírito, razão, que conhece, portanto, soberana. Com efeito, valendo-se de perseverança, maestrias conseguimos verba, para a compra de quatro lotes, no setor universitário, onde, erigimos, com suor, lágrima e sacrifícios, o Edifício Extensão Rural, soberbo, pela luta que ensejou. A primeira obra foi um galpão destinado a abrigar a gráfica destinada a imprimir todo material instrutivo usado, largamente, pelos agentes de extensão rural, em seguida, iniciamos a construção da sede. Os recursos eram parcos, fluíam lentamente, tinha que valer-se da pechincha, parcimônia, no processo de compra de material, para edificar a obra magna.

A construção, embora, com área maior, custou quatro vezes menos do que outra, construída para sede da secretaria de estado da agricultura. Iniciada em 1966, foi inaugurada, solenemente, em 1971. Para economizar verbas, verbas oriundas do bolso do contribuinte, mudamos, desde o final de 1966, a sede da Acar-Goiás, de forma inusitada, para o subsolo da construção, pois ali, além de economia, facilitava também o trabalho: dirigente da Acar e supervisor da obra. Os recursos financeiros eram parcos, fluíam aos poucos, não havia condições de empreitar a obra, contratamos o engenheiro Tristão, para fazer o projeto e orientar, como técnico, a construção, cabendo a nós, além de dirigente da Acar, administrá-la, usando, sempre, a pechincha, parcimônia, no processo de compra do material necessário.

A princípio o edifício abrigou tanto a Acar, como serviu de centro de treinamento, preparatório de agrônomos, veterinários, técnicos agrícolas, assistentes sociais, candidatos à extensão rural, isto, antes, era feito, longe, no centro de ensino de extensão da Uremg, Viçosa, Minas Gerais. Em meio à luta, já meditava sobre a construção do centro de treinamento. O vertiginoso aumento da rede de extensão no estado possibilitou a Acar-Goiás, o convênio, FAO-Anda-Abcar, instalando, neste espaço de tempo, mais de 1200 ensaios experimentais, no interior do estado, preparando caminho, base, para a substituição da agricultura de subsistência, arcaica, pouco produtiva, capitaneada pela monocultura do arroz de sequeiro, pela agricultura de mercado, moderna, mecanizada, diversificada, embasada no aumento de produção e produtividade.

Assim, a inauguração do edifício extensão, pelo governador, em fim de mandato, Otavio Lage, ministro da agricultura, Fernando Cerne Lima, João Napoleão presidente, Aloísio Campelo, secretário da Abcar, e, todos dirigentes de extensão rural do país, hasteando as bandeiras, de seus estados, à frente do Edifício, um elenco de outras autoridades de Goiás e de fora, assiná-la, coincidentemente, a transição da agricultura de subsistência, pela agricultura de mercado, como se verá, com o governo empossado, em janeiro daquele ano, Leonino Caiado, em interação, com ministério da agricultura, a incorporação do cerrado, antes intocado, no processo produtivo goiano.

Essa história do Edifício Extensão Rural, coincide, também, com a história do grande salto na agropecuária, logo a seguir, com a secretaria da agricultura implantando, os moinhos de calcário pioneiros, instalação da empresa de pesquisa: Emgopa, parte de outra história, as três, unidas, naquele tempo, numa só bandeira, construindo, plantando as primeiras sementes do, hoje, fabuloso agronegócio.

 

(Josias Luiz Guimarães, veterinário pela UFMG, pós-graduado em filosofia política pela PUC-GO, produtor rural)

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