Incursão imaginária na Itália
Redação DM
Publicado em 26 de janeiro de 2017 às 01:41 | Atualizado há 9 anosPara quem ainda gosta de livros, nada mais salutar do que viajar imaginariamente em algumas páginas ilustradas que despertam e reavivam nossa memória visual. É o caso de folhear e revisitar “Dez imagens da Itália”, texto de Esio Vergani, da coleção Tempo e Cultura, org. por Arturo Milanesi (Editora La Scuola, Brescia-Italia, 1975, p. 260/262).
As impressões de quantos sobrevoem a Itália revisitando seus lugares mais famosos, correspondem à apreciação de uma cartolina de lembranças de incomparável beleza, mas vista apenas em seus aspectos exteriores e exóticos. Imaginemos dez imagens selecionadas da Itália comentadas segundo a ótica de dez interlocutores.
O primeiro dirá:
– Um golfo sereno. Uma cidade branca. Uma montanha isolada à beira do mar. Uma barca de remos lentos e uma voz de tenor cantando “Vide o mare quanto è bello…”. Um homem e uma mulher dançando tarantella. Um nome na boca de todos – Nápoles.
O segundo dirá:
– Itália? Três colunas de mármore sob um céu sereno. Entre as colunas, uma mulher com o busto por sobre a camisa. Um lenço sobre a testa e uma mão estendida a oferecer um ramalhete de flores. Um nome vem de imediato aos lábios – Foro Romano.
O terceiro dirá:
– Itália. Uma lagoa pálida. Um palácio sobre o mar. Uma praça coberta de sol com duas colunas. Sobre uma coluna, um leão rugente com uma pata apoiada no Evangelho. Um conjunto de cúpulas douradas. Uma gôndola acariciando molemente as águas. Alguém enamorado suspira – Veneza.
O quarto dirá:
– Uma grande cidade plantada numa planura verde e regada com águas de prata. Em meio ao aglomerado de tetos, uma selva improvisada de agulhas cinzentas e brancas. E na ponta da agulha mais alta, uma pequena Madonna de ouro, com um doce gesto de benedição. Eis um nome sonoro – Milão.
O quinto dirá:
– Picos nevados de montanhas. Rebrilhar de geleiras. Cruzamento de cascatas. Cheiro de resinas dos bosques. Homens calçados com ferraduras e uma corda enrolada a tiracolo. Um nome breve e esquiante – Alpes.
O sexto dirá:
– Uma colunata esférica. Uma praça incompleta. Dois penachos brancos e uma fonte pública. Uma cúpula que parece maior que o céu. Um palácio com um milhão de janelas fechadas. – Praça de São Pedro em Roma.
O sétimo dirá:
– Uma torre elegante com um pequeno cacho ornamentado de amélias. Uma torre mais alta e oblíqua ao lado de outra menor, que parece pedir proteção à sua irmã mais alta. São as torres da Garisenda e dos Arinelli – em Bolonha.
O oitavo dirá:
– Um perfume primaveril de lírios. Uma torre que se eleva de um palácio belo como um castelo. Embaixo, a estátua do David de Michelangelo. Uma ponte sobre um rio com três arcos. Velhas edificações, além da Ponte Vecchio e o Palácio da Senhoria – estamos em Florença.
O nono dirá:
– O mar. Um grande mar azul e uma cidade que o contempla orgulhosa, do píncaro de uma coluna. Um porto imenso e uma torre quadrada ostentando um farol, construída numa altura imensurável sobre uma enorme rocha – Gênova.
O décimo dirá:
– Uma rua silenciosa, em subida, entre velhas casas e jardins. Uma pequena igreja de pedra, fachada baixa e larga torre. Embaixo, um golfo e ao fundo, a vila Miramar. A igreja tem o justo nome de um santo italiano, São Justo – de Trieste.
A outra Itália
Mas a Itália não se resume apenas nessas imagens que ilustram cartões de visitas, que se enviam aos amigos. É também a Itália dos abalos sísmicos, dos agentes vulcônicos cujas chamas de fogo engolem cidades (como o do Vesúvio que destruiu Pompéia, ainda no Império romano, 79 anos antes de Cristo).
É também a Itália dos maremotos e terremotos, como nos atuais abalos sísmicos que vêm ameaçando cidades nas regiões centrais do Lácio e da Úmbria, onde se situam as respectivas capitais de Roma e Perugia, esta que remota ao tempo dos etruscos que antecederam os romanos. É também a Itália milenar de um povo forte e resistente que tem sobrevivido a todas as intempéries da natureza.
Desde a antiguidade clássica duas forças se contrapõem na mitologia italiana: de um lado, as forças da natureza, que ainda hoje desafiam a ciência, de outro lado, a força das idéias, que foram vencendo as forças da natureza e sobre esta construindo as bases da civilização latina, que é o mais forte legado da inteligência italiana desde os tempos do Império romano, que jamais será superado por outros impérios, inclusive o dos invasores trumpianos do novo Império country.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])