Indagações de um professor sobre o vão do Paranã
Redação DM
Publicado em 10 de novembro de 2015 às 01:26 | Atualizado há 11 anosA propósito do artigo publicado neste veículo de opinião pública, no último dia três, sobre mudanças culturais no vale do Paranã, este escriba recebeu, via email, preciosa manifestação do professor Jadir de Morais Pessoa, da Universidade Federal de Goiás e membro da Comissão Goiana de Folclore, fazendo interessantes comentários e indagações que justificam trazer ao conhecimento de nossos leitores, nesta oportunidade, para alguns esclarecimentos.
Diz o professor Jadir Pessoa: “Tenho lido e guardado os recortes de seus artigos no DM sobre a cultura popular no vão do Paranã. Têm a riqueza do registro e da análise densa das relações maiores determinantes das transformações. Nós da Comissão Goiana de Folclore temos que cumprimentá-lo e, de certo modo, até agradecer-lhe pelas reflexões.”
Sobre mudanças culturais e folclore surgente
Presume o professor Jadir que esse tema das “mudanças culturais” no vão do Paranã teria sido doloroso para o enfoque de um autor que é filho da própria região, mas que, a seu ver, “a inteligente prospecção sobre o folclore surgente é que certamente combinará os modos de pensar e de sentir da região com essas mudanças trazidas pelos meios de comunicação de massa”.
Resposta – Antes de tudo gostaria de esclarecer ao público ledor que essa série de artigos sobre o vale do Paranã resultou de um resumo dos temas básicos desenvolvidos no meu livro “Intersecção Goiás-Bahia”, a ser lançado em 2ª edição. Quando falo de mudanças culturais e folclore surgente, é no sentido de mostrar exatamente a dinâmica do folclore como forma de expressão da cultura popular, que estará sempre refletindo o modo de agir, pensar e sentir do povo, apesar das mudanças provocadas pelos meios de comunicação de massa.
Na verdade, algumas regiões tão antigas como a do vale do Paranã, vêm sofrendo forte ruptura em suas tradições, eis que o progresso chegou ali sem a necessária evolução cultural. Dada a onda progressista que chegou a esses lugares, alguns núcleos históricos talvez nem sejam mais reconhecidos pelos próprios nativos que daí se ausentaram por algum tempo. Mas a inteligência coletiva saberá fazer novos arranjos dentro desse processo de mudanças, na forma do folclore surgente que consistirá de novas formas de representação simbólica dos valores regionais.
Será que nesta vasta região não sobrou nada?
Comenta o professor Jadir que a percepção dessa mistura (cultural) que agora acontece, como na dança do xote, “dois pra frente, dois pra trás”, é sempre perspicaz e desapaixonada. E ressalta: “Cultura não é algo que se põe no freezer para a posteridade recordar e lamentar. Ela é transformação – ou não é cultura.” Daí sua pergunta – “por absoluta curiosidade de folclorista” – sobre o que teria restado nesta rica região (do vale do Paranã), ou “se tudo foi afogado nas águas geladas do progresso”?
Resposta – Aqui se impõem algumas reflexões. Primeiro, sobre cultura, que em sentido sociológico, é tudo aquilo que o homem faz e que fica como memória coletiva. Só o ser humano faz cultura porque tem memória. Atualmente, poderíamos falar do choque de três tipos de cultura: acadêmica, popular e cultura de massa. Esta última, em função de uma indústria cultural, que tanto destrói a cultura acadêmica (dos valores intelectuais) quanto destrói a cultura popular (da inteligência coletiva), que se manifesta no folclore como forma de agir, pensar e sentir do senso comum.
É bom lembrar que o Congresso Internacional de Folclore realizado no Brasil em 1954 recomendou considerar como fatos folclóricos, aqueles que refletem às “maneiras de pensar, sentir e agir do povo, preservadas pela tradição popular, e que não sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam à renovação e conservação do patrimônio científico humano ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica” (a que acrescentaríamos, também, midiática, ligada à cultura de massa).
Outras considerações – Não se confunde folclore com tradição ou tradicionalismo, como engessamento dos fatos culturais. A tradição pertence ao folclore, mas o folclore tem sua dinâmica, não vive apenas da tradição. Não se confunde também fato folclórico – como manifestação espontânea, com projeção do fato folclórico – como objeto de promoções turísticas. Engessar um fato folclórico seria como industrializá-lo, como é comum acontecer até por iniciativa de órgãos oficiais. Os fatos folclóricos podem ser antigos ou novos, tradicionais ou surgentes, desde que guardem certas características tais como, anonimato, aceitação coletiva, oralidade, tradicionalidade e funcionalidade. Como aqui não há espaço para desenvolver essas observações, remeto o leitor ao livro em referência, em que desenvolvo um capítulo sobre o que é “cultura folk”. Os artigos que venho publicando, caro professor Jadir, não esgotam o assunto, são apenas uma forma de chamar atenção para o livro como campo de estudo sistemático.
O que há ainda escondido nesta mística região?
Observa ainda o professor Jadir Pessoa que “os novos encantamentos vindos da televisão e das novas religiões (?), tudo ficou muito bem colocado” (vale dizer, nos artigos até agora publicados). “Mas, objetivamente, o que sobrou (digamos, dessa mística região), foi o velório em casa, com as incelências, fruto, certamente, da intersecção com cultura baiana, já muito bem tratada por você em livro.” (O professor refere-se à 1ª edição do meu livro Intersecção Goiás-Bahia, de 1971). E pondera: “Espero que tenha me expressado bem. Não é crítica, é o velho gosto de quero mais – é pura curiosidade de quem fica a imaginar que ainda há muita coisa bonita escondida nas dobras dos imensos paredões dessa mística região.”
Resposta – Verdade, professor Jadir Pessoa. Nenhum livro esgota qualquer assunto, principalmente envolvendo um universo de fatores e valores que se estendem desde seus arquétipos até suas constantes atualizações. Sua observação, oportuna, é bem vinda e serviria também como crítica construtiva, instigando o autor a ir mais longe, como fez, a propósito, a folclorista baiana Hildegardes Vianna, em artigo publicado no jornal A Tarde, de Salvador-BA, em 28-02-1972, quando da 1ª edição de Intersecção Goiás-Bahia: “Advinha-se nas entrelinhas que Emílio sabe mais, muito mais, além do que escreveu.”
Nos próprios artigos de agora, acabo acrescentando coisas que já não estão na 2ª edição do livro, assim como não exponho todo o conteúdo do livro nos presentes artigos: é uma forma que achei de “vender meu peixe”. Daí a importância de utilizar o jornal como veículo de comunicação e de interatividade com o leitor. Obrigado professor Jadir, pela sua oportuna intervenção. O senhor já tem um exemplar reservado à sua disposição.
Justificativa deste novo trabalho
Quando realizei em 1971 o primeiro levantamento cultural deste espaço fronteiriço de Goiás com a Bahia, não havia ainda pesquisas nem interesse voltado para o conhecimento desta microrregião que ficava isolada num canto de Goiás ao abandono dos governos estadual e federal.
Colhi dados e informações que abriram caminho para futuras investigações e, sobretudo, para firmar um conceito sobre o vale do Paraná como uma das regiões homogêneas de Goiás, passível de um mapeamento cultorológico.
Fui agora compelido a reescrever e ampliar este trabalho, em razão da atualidade dos fatos que alteraram o perfil da região e da própria definição temática do estudo, agora centrado, como disse, na cultura popular.
Tive que fazer subtrações e acréscimos. Subtraí dados estatísticos julgados desnecessários, bem como a antologia de vultos que se destacaram na região (objeto de outro estudo específico). Acrescentei o perfil histórico dos municípios que compõem o universo regional, caracterizado pela mesma realidade socioeconômica e cultural.
A matéria atinente ao folclore – apesar de sofrer mutações em razão da sua dinâmica – continua basicamente a mesma, mas agora tratada sob um enfoque sociológico, no sentido de espelhar uma visão de mundo da população regional que ao longo do tempo assimilou a maneira de agir, pensar e sentir do povo baiano, conseqüência da intersecção dos territórios de Goiás e Bahia.
O passado histórico serve de parâmetro para compreensão da realidade atual, e através do folclore surgente, como expressão da cultura popular, constata-se o que mudou e o que não mudou na região.
Apesar das mudanças, tudo parece ainda igual como em qualquer processamento histórico que decorre de fatores sociais e econômicos. Tudo diferente como em qualquer formação cultural constituída de um quadro de valores específicos. Eis o que constitui a originalidade dessa microrregião de Goiás que ainda mantém sua identidade cultural dentro do mundo globalizado.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])