Jovens sem vez
Redação DM
Publicado em 4 de novembro de 2015 às 23:21 | Atualizado há 11 anosDesde algum tempo, o Brasil vem acumulando índices negativos em comparação com os demais países. Na educação, na saúde e na segurança somos sempre os lanterninhas, tendo como companheiros de infortúnio Haiti, Somália, Guiné-Bissau. Com o paradoxo de sermos a nona economia do mundo!
Recentemente, a mídia trouxe mais uma avaliação vexatória: nosso amado país é um dos piores para os jovens abaixo de 25 anos. Entre 64 avaliados, estamos em 60º lugar; depois de nós, Uganda, Mali, África do Sul e Costa do Marfim.
Para chegar a tais resultados, o índice Youth economics utilizou-se de dados do Banco Mundial, da Unesco e OCDE, respeitados em todo o mundo. Não se trata, portanto, de intriga da oposição, nem dor de cotovelo de elites rançosas.
Nas avaliações feitas, levam-se em consideração as oportunidades e o nível de educação; o acesso ao emprego; o grau de participação política e a disposição de ânimo dos jovens em relação ao futuro. Nos três primeiros itens, estamos no 60º lugar; no último, ainda persiste o otimismo brasileiro: subimos para a 32ª posição.
Mas tem mais. Além de não receberem boa educação, nem terem oportunidades de emprego e motivação ou ensejo de participação política, os nossos jovens são quase a metade das pessoas assassinadas no Brasil, tendo criminosos e/ou policiais como executores. Em mapa elaborado pelo Ministério da Justiça, nosso país está em 3º lugar – entre 85 outros – no número de homicídios de adolescentes. Diariamente, 10,3 jovens brasileiros são mortos, com o detalhe de que 93% deles são negros.
O que pensar e o que dizer diante de números tão trágicos? Como velha professora que sempre acreditou na educação como via de promoção da dignidade humana, tenho visto e lamentado fatos que bem refletem a tragédia dessa juventude sem rumo e sem horizontes, sobretudo nas periferias das grandes cidades.
Aqui mesmo na chácara houve o caso do Pedrinho (nome trocado), filho de um antigo funcionário, garoto que vi crescer, bonzinho e sorridente. Pela manhã, frequentava a escola pública, onde cursava o quarto ano; à tarde, cuidava dos cachorros, um casal de huskys e sua ninhada.
Pedrinho gostava de tratar dos animais; era consciencioso e esforçado. Tudo ia bem, até que um dos cachorrinhos adoeceu, sendo preciso dar-lhe remédios em horas certas. Fizemos uma lista impressa com os horários, explicamos como deveria fazer – mas ele fazia tudo errado. Novas explicações, novas listas e nada!
Demoramos um pouco para entender que Pedrinho simplesmente não conseguia ler o que estava escrito no papel que lhe demos. Na verdade, não sabia ler nada, não conhecia sequer as vogais! Pedi que me trouxesse seu boletim escolar: ele tinha sido promovido, ano a ano, com boas notas em todas as matérias. E era totalmente analfabeto!
Consegui que uma amiga, que é alfabetizadora emérita se interessasse pelo caso. Pedrinho passou a ter aulas particulares e logo estava lendo e escrevendo razoavelmente bem. Continuou a frequentar a escola, onde me disseram que ele “enganara” as professoras e que era um menino arredio e desinteressado. Ninguém se mostrou disposto a dialogar com ele, dar-lhe atenção, motivá-lo para o estudo.
Certo é que Pedrinho não quis continuar cuidando dos huskys e afastou-se. Algum tempo depois, soube que deixara a escola e andava com outros garotos do bairro próximo, fazendo arruaças e provocando confusões. O tempo passou, e eis que me chega a noticia de que ele, gravemente doente, se internara em um hospital. Um dia depois estava morto, com o diagnóstico de que fora acometido de uma infecção avassaladora e nada pudera ser feito.
Pobre Pedrinho! Morreu antes dos vinte anos, sem nunca ter ido além do seu próprio mundinho circundante, capturado que foi pela inércia de uma sociedade que muito pouco lhe ofereceu: nem educação fundamental de boa qualidade, nem motivação para o estudo, nem formação para o trabalho. Nem mesmo oportunidades sadias de lazer e de esporte.
Outros Pedrinhos tenho encontrado por aqui e cada história é mais triste do que a outra. Como a do Ricardo (nome trocado), tão bonito e inteligente, que detestava a escola “com tanta florzinha e tanto bonequinho” – como ele dizia. Deu para beber. Durante um piquenique, caiu bêbedo dentro de uma represa; dos companheiros igualmente chumbados, ninguém sabia nadar. E ele afogou-se, aos dezoito anos incompletos. Mais um dessa geração perdida que vai morrendo sem ter vivido plenamente.
(Lena Castello Branco, escritora – [email protected])