Lembranças dos tempos de escola – parte XLIII
Redação DM
Publicado em 21 de maio de 2016 às 02:54 | Atualizado há 10 anos
Um dia Maick e eu estávamos andando pelas ruas da cidade com o intuito de ficar com umas garotas. Naquela estação, era comum depois das primeiras chuvas a cidade ser invadida por uma espécie de gafanhotos grandes. De cor verde e com serrilhas nas pernas. Eu tinha muito medo deles, ao contrário de Maick que os capturavam pelas pernas e os arremessavam contra alguém, para amedrontá-lo. Ele capturou um desses gafanhotos e tentou atirá-lo contra mim. De início, eu fingir não temê-lo, pois eu estava muito próximo e não tinha como correr, depois o disfarce não colou e, ao descobrir que eu temia aquele inseto, Maick veio com um deles em minha direção…
Sair em disparada e Maick saiu tentando me alcançar, quando percebeu que não iria me acompanhar, gritou avisando que já o tinha lançado fora. Então, eu parei de correr, ele se juntou a mim e íamos para nossas casas. Ao entrarmos numa rua estreita e deserta, ouvi o barulho provocado por um daqueles insetos, olhei horrorizado para todos os lados, não avistei nenhum, mas sabia que ali por perto havia alguma praga, fixei o olhar para Maick, ele ria, mas suas mãos estavam vazias. Foi somente quando olhei nele de cima em baixo e vice-versa, que pude notar um volume em movimento num dos bolsos dos seus trajes. Era um gafanhoto aprisionado e escondido. Quando Maick percebeu que eu havia descoberto a farsa, a sua intenção, tirou-o do bolso e tentou jogá-lo em mim. Eu sair em disparada e o sem vergonha foi ao meu encalço, com o inseto preso nas pontas dos dedos, como um viciado segura o cigarro. Quanto mais eu corria, ele parecia correr mais ainda e só não me alcançou porque quando notei que Maick estava se aproximando muito, abandonei os meus chinelos em plena rua, aumentei a velocidade e ofegante fui deixando agência bancária, posto telefônico, hospital, delegacia de polícia, correios e restaurante para trás…
Maick cansou primeiro, abandonou o gafanhoto, parou de correr, se desmanchou em risos, sentou-se esperando que eu voltasse. Mesmo assim, não confiei nele, desci por outras ruas, às escondidas, fui à rua de antes, recuperei os chinelos e, sem saber o paradeiro de Maick, voltei para casa temendo que ele estivesse escondido em alguma esquina para tentar o episódio de antes mais uma vez. Só voltei a vê-lo no outro dia à noite, mas nem conversamos muito, pois ele começou a contar o fato para Érick, Edu e Roney e não queria parar de rir. Gargalhadas mesmo foi quando ficou sabendo, através de mim, que eu tive que abandonar os chinelos, quase que ele fazia suas necessidades fisiológicas nas roupas ali perto de nós. O cara tinha pinta de forte e experiente, mas às vezes era muito fraco, de tal forma que não conseguia nem abrir um zíper no escuro, mesmo sem ter problema de visão ou alguém por perto para atrapalhar (tenho certeza que muitos amigos ainda sabem porquê estou dizendo isso).
Dias depois acabei perdendo o medo para com aqueles insetos, graças ao Érick que arremessou um contra meu peito, num dia em que eu estava conversando com duas meninas e uma freira, à porta da igreja. Eu olhei para o gafanhoto que estava com as suas garras grudadas em minha camiseta e vi aqueles dois olhos arregalados olhando para mim. Eles eram meio esquisitos e pareciam usar óculos. Naquele instante, percebi à minha volta Edu, Maick, Roney e outros me observando. Notei que nenhuma das garotas temia o inseto e, ainda trêmulo, optei por me encorajar, porque eu não poderia passar por covarde, diante delas. Consegui me controlar, acalmar, não fazer escândalo, e, lutar contra o inseto, ou melhor, contra o meu medo. Sorte que ao tocá-lo, ele cedeu aí descobrir que o bichinho era inofensivo e temente ao ser humano que o destrói.
Praticávamos alguns atos de molecagem mesmo, mas durante o período de convivência ali naquela inesquecível terra natal aprendíamos a cada dia sermos solidários com o próximo. Roubos, desrespeito, omissão, calúnia e qualquer que fossem a ilegalidade, todas essas coisas maléficas, no sentido de prejudicar alguém estava fora da nossa índole. Nunca passou por nenhuma de nossas cabeças atentarem contra alguém. Pelo contrário, apesar de sermos um pouquinho terrível no sentido de executar brincadeiras, tidas como de mau gosto, nossos planos eram sérios. Participávamos ativamente dos projetos da igreja, como corrente de orações, missas, festas religiosas, procissões, campanhas de habitação, distribuição de cestas-básicas e muitos outros eventos.
Roney, juntamente com seu irmão Marcelo, Edu, Érick e eu formamos um grupo chamado Greem, com o propósito de angariar fundos para melhorar as condições da nossa rua como, por exemplo, colocar lixeiras, manter as calçadas e quintais limpos etc.. Cobrávamos junto à prefeitura maior cuidado no que diz respeito à limpeza pública e coisa do tipo.
Quando a igreja procurava ajudar uma família, até mesmo na construção ou melhoramento de uma residência, nosso Greem marcava presença também. Ajudar o próximo e contribuir com a sociedade estava no nosso sangue. Cresci ouvindo meus pais e amigos falarem que a família de Roney vinha de uma tradição, na qual colaborar com os outros é ajudar a si mesmo e essa solidariedade eu via na prática.
Eu conhecia muito pouco a família de Edu, mas pelas atitudes dele e dos irmãos percebia o caráter gentil.
Muitos parentes de Érick moravam lado a lado conosco, o que tornava bem mais fácil para conhecê-los e julgar suas atitudes. Para se ter uma ideia, a mãe dele era como se fosse uma segunda mãe para Roney, Edu e Eu. As famílias de Érick e Edu se aproximaram ainda mais depois que José, irmão de Érick e Sandra, irmã de Edu se casaram.
Com o mesmo tradicionalismo vivia a família de Maick. Aquela família era tão numerosa que a cada dia surgia um novo primo. Às vezes eu pensava que era brincadeira de Maick ao dizer que o individuo recém conhecido por mim era seu primo, só acreditava de verdade quando passava algum tempo. Até Déia era sua prima.
(Gilson Vasco, escritor)