Lembranças dos tempos de escola – Parte XLVII
Redação DM
Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 00:03 | Atualizado há 11 anosDepois de saciados, desistimos da pescaria, guardamos nossos equipamentos e, à beira da fogueira, aquecidos pela selvageria das línguas do fogo, começamos a conversar sobre muitas coisas, falamos do futuro, pretensões, amizades, filmes, programas de televisão, desenhos animados, garotas e até a possibilidade de aparecer algum animal feroz para beber daquelas águas ou quem sabe nos devorar. Após longo tempo de conversa, resolvemos diminuir a fogueira a fim de tentar dormir um pouco.
Ali à beira do tanque, ouvíamos os roncos dos motores dos automóveis que raramente passavam nas estradas não muito próximas dali; gritos de boiadeiros que guiavam suas boiadas; as serenatas de aves noturnas; fomos visitados pelos termiteiros; víamos as fanfarrices dos animais aquáticos em vultos; os uivos dos cães. Acredito que Roney, Cláudio e Maick conseguiram dormir um pouco, mas eu estava de olhos abertos e acho que minhas pálpebras nem se movimentavam. Não que eu estivesse sem sono, estava morrendo de medo do desconhecido. Fiquei ali com os pensamentos tostando a minha cabeça até que de repente uma coruja, num vôo rasante sentou no meu ombro direito. Poderia ter tomado um gigantesco susto e gritado apavorado pela ajuda dos outros. E se aquilo fosse um morcego que viera alimentar-se do líquido do meu corpo?! Mas pela primeira vez, consegui manter a calma. E olha que eu era escandaloso. Toquei a ponta do meu dedo na ponta do bico dela, a qual nem se mexeu, parecia dormir. Em seguida ela bateu as asas, saiu de perto de mim, atravessou toda a extensão do tanque e sumiu na escuridão profunda, num grande grito de lamento ecoando nos meus ouvidos. Naquela hora, os outros se despertaram e levantaram. Inicialmente pensei que eles tivessem visto a cena, mas logo percebi que não viram nada daquilo. Ficou na ponta da minha língua contar a eles da coruja, mas não contei, sabia que eles não acreditariam em mim, foi a única coisa que guardei só comigo de que nunca tinha falado ou escrito, até este momento.
Embora, a noite estivesse escura e a lanterna não nos permitisse enxergar um palmo diante dos nossos olhos, partimos rumo à cidade. De volta, ia levando Roney na garupa do meu veículo e o bom era que como se fosse mágica a corrente da bicicleta não mais caía, os nossos problemas eram os cães que nos perseguiam, quando passávamos em frente às residências rurais. Não fosse uma vareta que Roney conseguira, para açoitá-los, eles teriam nos decepados vivos. Enquanto eu pedalava, Roney nos defendia dos dentes aguçados das feras caninas que tentavam nos atacarem.
Quando sentia que havia um buraco na estrada – e era o que mais tinha – eu conferia com Roney se aquilo era realmente um buraco e ele me respondia que era passagem e, sem diminuir a velocidade, passávamos por dentro das pequenas crateras. Ao passar recebíamos um grande baque que fazia com que Roney voasse e logo caísse no mesmo lugar, no fundo era muito divertido. Como eu era quem vinha trazendo Roney, Cláudio e Maick vinham cada um numa bicicleta, porém, na mesma algazarra. Assistindo ao estágio final da corrosão da noite, banhando com os ventos daquela estação, guiados por uma estrela em atraso e deslumbrados com os primeiros raios enrubescidos que riscavam o horizonte prenunciando o romper da aurora, chegamos ao perímetro urbano antes de o sol clarear intensamente o domingo.
Quando o dia raiou por completo e os montes citadinos revelaram o sol bojudo fiquei sabendo que Érick e Edu haviam viajado com seus pais. Logo, Roney foi para a fazenda da sua família e somente à noite, reencontrei Maick. Ainda fiquei uns dias naquela cidade deserta a ponto de ter tempo para me banhar por diversas vezes nas águas do riacho Tijucuçu e ainda ir a diversos lugares com Maick, até que chegou uma noite em que ele ficou sabendo da minha partida, a qual seria no dia seguinte. Foi uma surpresa para ele. Não acreditou e conferiu com mamãe se aquela notícia era verdadeira. Notei um ar de tristeza em Maick, porém, simulei normalidade. O cara realmente era meu amigo.
(Gilson Vasco é escritor)