Brasil

Lembranças dos tempos de escola – Parte XXII

Redação DM

Publicado em 5 de novembro de 2015 às 21:52 | Atualizado há 11 anos

Em cima do caminhão, que corria muito, sentíamos muito frio, ou melhor, por eu não ter uma grande noção de velocidade achava que corria muito, hoje sei que aquela velocidade não ultrapassava a sessenta quilômetros por hora. Olhamos penetrantes para o horizonte, esperamos ver o nascer do sol para nos aquecer com seus raios luminosos, mas não o vimos. O que vimos foram barrados de nuvens se agrupando para tornar um invólucro em volta do céu, andorinhas dançando à nossa volta, mariposas invadindo o nosso espaço – ou quem sabe nós invadindo o espaço delas – e tanajuras por todas as partes, anunciando mais chuvas.

Ao chegar ao povoado, pedimos para que o motorista do caminhão o parasse, pois avistamos Eleno e Gil, ao longe, acenando para nós. Após Tom encostar o caminhão, em frente à casa de Gil, e o parar, Edu já gritava desesperado ordenando para que eles subissem no veículo. Eles subiram e imediatamente seguimos rumo à fazenda, juntos, cantando variadas melodias em diversificados ritmos… Se é que podemos considerar aquelas vozes como rítmicas! Pois naquele grupo alguém poderia ter habilidade para qualquer outra coisa menos para a música, exceto Vando que até sabia tocar instrumentos musicais. Aquele era outro que eu esperava vê-lo nos palcos da fama.

Maick, apesar de ser sempre extrovertido, naquele caminhão a timidez o confundia, mas bastou a minha colega Mari nos flagrar degustando um pacote de biscoito de chocolate recheado com doce de leite, para ele recuperar a sua verdadeira identidade, pois foi obrigado a distribuir biscoitos para todos os presentes e, a partir daquele momento, Maick foi apresentado para quem ainda não o conhecia. Virou uma espécie de mascote, a atração que chamou a atenção da turma, era o menor e mais novo dentre nós.

No caminho contemplávamos inúmeras belezas, como o gado espalhado numa imensidão de pasto; vacas presas, mugindo, nos currais esperando os vaqueiros tirar o seu leite; bois e bezerros do lado de fora sendo guiados pelos capatazes; cães pastoreando, ao som do canto dos galos, cacarejos das galinhas e piados dos pintinhos, anunciando o período da aurora. Socós e garças em revoadas e sentados à beira das lagoas esperando peixes para pescar; o barulho dos galhos das árvores, sendo balançados pelos ventos em açoite; trovoadas anunciando um forte temporal. Tudo contribuía para mostrar um período de chuvas contínuas.

A estrada, além de encascalhada e esburacada, quase sempre, com trechos sinuosos, oferecia um pouco de perigo, mesmo para um motorista responsável e experiente como Tom. A vegetação, às vezes, composta por unha-de-gato, às margens da estrada obrigava-nos a agachar, rapidamente, na carroceria do caminhão para não sermos feridos, devidos aos seus espinhos aguçados. Sabíamos que qualquer descuido seria fatal.

Certa hora estávamos em pé, dançando e cantando, alguns de frentes e outros de costas para a estrada. Jota era um daqueles que estava de costa, de repente, eu que ia de frente, depois de uma curva muito fechada avistei uma árvore espinhosa com seus galhos invadindo a estrada. Gritei, apavorado para que todos agachassem para se protegerem dos espinhos. Todos agacharam, ligeiramente, exceto Jota que ia num dos cantos da carroceria ao lado da árvore. Um espinho passou à queima-roupa e o arranhou, sorte que em seu braço ficou apenas a marca esfolada do espinho e não o sangrou. Passado o susto, quando já tínhamos nos esquecidos daquela chicotada, Tom parou o caminhão para nos avisar que, talvez, não seria possível chegar lá, pois, aparentemente, havia chovido à noite e a estrada dali em diante começara a ficar cada vez mais úmida e escorregadia, capaz de provocar um acidente ou atolar o caminhão no qual íamos. Recebida a notícia continuamos a nossa viagem, agora desmotivados.

Depois de percorridos alguns quilômetros a mais notamos que começara a escurecer, invés de clarear, vimos as nuvens chorando e suas lágrimas em forma de cristais banhando os nossos corpos com roupa e tudo, pois o caminhão era sem cobertura exceto a cabine, mas esta só comportava três pessoas já incluso o condutor. Novamente, Tom parou o caminhão e sem sair da cabine nos perguntou se queríamos voltar, se queríamos desistir do passeio e remarcá-lo para outro dia. Ao ouvir aquelas perguntas que pareciam mais sugestões todos olharam para mim, de uma só vez, como quem repassasse a pergunta, como quem queria que eu respondesse por todos, como se eu fosse a voz da verdade ou a bola da vez. Eu entendi a mensagem e de início fiquei sem saber o que fazer, o que responder, pois se falasse para nos levar de volta à cidade, os decepcionariam, se ordenasse para dar continuidade ao passeio, poderia pô-los em risco, uma vez que eu não conhecia a estrada ainda.

Pensei, pensei, olhei para todos e os vi como quem dissessem para continuarmos, até mesmo Maick, parecia querer ir. Então acenei para Tom continuar a viagem. Ao sentirem os movimentos do carro todos vibraram de alegria e eu fiquei torcendo para chegarmos à fazenda em paz. Mais adiante, fomos informados que tínhamos que deixar a estrada de cascalho, entrar à esquerda e percorrer alguns quilômetros, numa estrada de areia e barro. Surgiu aí a possibilidade de o caminhão não aguentar e termos que continuar a pé. Chegado nesse local, Tom, com sua experiência, nos informou que apesar de ter chovido muito, naquela região, poderíamos continuar a viagem de caminhão até a fazenda.

Chegado à fazenda tivemos que combinar com Tom para se caso voltasse a chover naquelas redondezas ele nos esperar na estrada de cascalho para não corrermos o risco de o caminhão ficar atolado no trecho de areia. Feito o pacto e acertado o horário de estarmos lá, Tom voltou depressa em direção à estrada de cascalho, temendo mais chuvas e um indesejado atolamento, e continuou sua viagem, pois aproveitando a oportunidade teria que se dirigir para outro povoado, a fim de resolver problemas relacionados à prefeitura.

 

(Gilson Vasco, escritor)

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