Leopoldo de Bulhões, Henrique Meirelles e o Ministério da Fazenda
Redação DM
Publicado em 24 de maio de 2016 às 02:47 | Atualizado há 10 anos
Desde o Brasil Império, a origem dos ocupantes do Ministério da Fazenda é o eixo Rio-São Paulo-Minas, com algumas exceções a essa regra.
Aproveito, então, a nomeação do goiano de Luziânia (muitos pensam equivocadamente ser de Anápolis), Henrique Meirelles, para comparar a sua trajetória com a de seu conterrâneo, que ocupou a mesma pasta no início do século passado, nos tempos da chamada Primeira República. Falo do goiano da Cidade de Goiás, Leopoldo de Bulhões.
Leopoldo de Bulhões se graduou na escola de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Foi ele um dos “ases” da República Velha. Teve uma promissora carreira política. Deputado Federal por Goiás, aos 24 anos, tornou-se, anos mais tarde, o mais jovem senador da República. Tinha, na época, 37 anos. Seu brilho intelectual logo se evidenciou na comissão de orçamento da Câmara Federal. Na Constituinte de 1890-1891, discutiu de igual para igual com aquele que é tido, por muitos, como sendo uma das maiores inteligências do Brasil de todos os tempos: o baiano Rui Barbosa.
O conterrâneo da notável poetisa Cora Coralina recusou sucessivos convites de dois Presidentes da República de então — Floriano Peixoto e Prudente de Morais — para ocupar o cargo de Ministro da Fazenda. Acabou, todavia, não resistindo ao convite de outro Presidente da República, de Rodrigues Alves, este seu amigo desde os tempos da comissão de orçamento.
Na condição de Ministro da Fazenda daquele governo, Leopoldo de Bulhões se tornou um dos mais notáveis ocupantes dessa pasta de todos os tempos. Quem nos revela o sucesso desse goiano é o professor Luiz Felipe D’Ávila, no interessante livro que produziu — leia-se: “Caráter e Liderança”.
Em sua instigante pesquisa, relata esse pesquisador os feitos desse ilustre goiano: “Escolheu [o presidente Rodrigues Alves] como Ministro da Fazenda Leopoldo de Bulhões, um dos homens mais extraordinários que ocuparam esse cargo. Bulhões teve a visão de transformar a Casa da Moeda numa espécie de Banco Central, que regulava a atividade bancária dispondo de capital abundante para o desconto de papel e outros bancos, para adiantar aos outros bancos e, finalmente, ampará-los nos momentos de crise”.
Acrescento: Bulhões teve coragem política de enfrentar o contínuo assédio dos cafeicultores que mobilizavam os deputados e senadores para desvalorizarem o câmbio e adotar políticas protecionistas na compra de estoques de café. Além disso, adotou ele um rígido controle de gastos públicos e intensificou a fiscalização de impostos. Resultado: conseguiu algo inédito – amortizar o pagamento de dívidas públicas.
De Leopoldo de Bulhões a Henrique Meirelles mais de século se passou. O goiano de Luziânia provou sua reconhecida competência por onde passou: na presidência do Banco de Boston e do Banco Central do Brasil. As semelhanças entre um e outro são muitas: obstinação pelo resultado, sólida formação acadêmica e capacidade de liderança. Esperemos que Henrique Meireles tenha o mesmo sucesso no Ministério da Fazenda. Se esse sucesso for da mesma grandeza do obtido por Leopoldo de Bulhões, estará de bom tamanho.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de A Construção de Goiás)