Brasil

Cresce violência contra mulheres no Brasil com quase 3 mil atendimentos por dia

Léo Carvalho

Publicado em 24 de novembro de 2025 às 15:48 | Atualizado há 6 meses

Relatórios da OMS e do DataSenado mostram que milhões de brasileiras ainda vivem em situação de risco, com pouca procura por ajuda formal e alta incidência de abusos psicológicos | Foto: Divulgação
Relatórios da OMS e do DataSenado mostram que milhões de brasileiras ainda vivem em situação de risco, com pouca procura por ajuda formal e alta incidência de abusos psicológicos | Foto: Divulgação

Um relatório histórico divulgado na última quarta-feira (19) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou a violência contra as mulheres como uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo. Uma em cada três mulheres, o equivalente a cerca de 840 milhões, já sofreu violência sexual por parte de um parceiro íntimo ao longo da vida, número que praticamente não mudou desde o ano 2000. Somente em 2024, 316 milhões de mulheres com 15 anos ou mais foram vítimas de violência física ou sexual cometida por um homem próximo.

Conforme a OMS, o progresso na redução da violência praticada por parceiro íntimo tem sido dolorosamente lento, com queda anual de apenas 0,2% nas últimas duas décadas. Outra pesquisa, divulgada recentemente pelo Instituto DataSenado, que ouviu cerca de 22 mil brasileiras em 2025, revela que aproximadamente 71% dos casos de violência são testemunhados por terceiros, sejam crianças ou adultos.

Reprodução da violência

Ainda de acordo com o instituto, parte das pessoas que presenciam esses atos são os próprios filhos das vítimas e 40% das testemunhas adultas que veem as agressões não denunciam nem tomam qualquer atitude para ajudar. O levantamento também mostra que, até 2021, a maior parte dos casos de violência contra mulheres era de natureza física. Porém, atualmente, 88% dos relatos feitos por mulheres agredidas correspondem a situações de violência psicológica.

O DataSenado aponta que cerca de 70% das mulheres procuram ajuda primeiro na própria família. Por outro lado, apenas três em cada dez recorrem às delegacias comuns ou especializadas. A busca por atendimento formal só ocorre quando a violência chega a um patamar considerado insuportável. Há também, segundo a OMS e o DataSenado, casos de subnotificação que não chegam às autoridades ou aos centros de apoio à mulher.

Relato de uma goiana

Entre as subnotificações está a de uma moradora da Região Noroeste de Goiânia, no Bairro Estrela Dalva, que preferiu não se identificar, relatou à reportagem do Jornal Diário da Manhã que por muito tempo tentou manter a rotina como se estivesse tudo bem, apesar de viver situações que a deixavam cada vez mais isolada e com medo.

Durante a conversa, a mulher contou que levou anos para compreender que os abusos que sofria no casamento não eram um conflito comum, mas violência, e que pedir ajuda parecia arriscado demais. “Eu tinha medo de falar, medo de ninguém acreditar. Achava que a culpa era minha. Só quando percebi que estava perdendo a minha própria vida em silêncio é que encontrei coragem para buscar ajuda. Foram anos de abusos, pressão psicológica”, afirma.

Entre janeiro e outubro de 2025, o Ligue 180 registrou 877 mil atendimentos, média de quase 3 mil por dia | Foto: IA

20 anos de Ligue 180

Outro dado alarmante vem da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, que completa 20 anos no próximo dia 25 de novembro de 2025 e já contabiliza, ao longo de duas décadas, mais de 16 milhões de atendimentos. Somente entre janeiro e outubro de 2025, a central registrou mais de 877 mil atendimentos, uma média de 2.895 por dia. Na comparação com o mesmo período de 2024, o número de ligações representa aumento de 33%.

O Ligue 180, principal canal do Governo Federal para denúncias de violência de gênero e acolhimento de vítimas, funciona gratuitamente 24 horas por dia, em português, inglês, espanhol e Libras. O serviço é uma das poucas portas de entrada acessíveis para mulheres em situação de risco, especialmente para aquelas que enfrentam barreiras sociais e econômicas.

Violência contra mulheres negras

Essas barreiras também aparecem com nitidez em outra pesquisa do DataSenado, realizada em 2024, sobre a violência doméstica contra mulheres negras. Entre as 13.977 entrevistadas, 66% das que sofreram agressões não têm renda ou possuem renda insuficiente. Além disso, 85% convivem com o agressor, o que mostra como a dependência financeira mantém essas mulheres expostas ao abuso.

Os números demonstram desigualdades estruturais. Em 2022, mulheres negras representaram 55% das vítimas de violência registradas no SUS e 67% das mulheres assassinadas no país. O cenário evidencia o peso do racismo estrutural na reprodução da violência.

O estudo também revela dificuldades no acesso à proteção. Apenas 30% das mulheres negras que sofreram violência grave buscaram atendimento de saúde. A maioria não solicitou medidas protetivas, mesmo entre aquelas com ensino superior completo, indicando que o problema vai além da escolaridade e envolve falta de renda, medo e limitações no acesso a serviços públicos essenciais.


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