Brasil

Recorde de feminicídios expõe avanço da violência contra as mulheres

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 23 de julho de 2026 às 09:22 | Atualizado há 56 minutos

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam a escalada da violência de gênero que antecede os casos de feminicídio no país | Foto: Bruno Santos/Folhapress
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam a escalada da violência de gênero que antecede os casos de feminicídio no país | Foto: Bruno Santos/Folhapress

Para cada feminicídio registrado no Brasil em 2025, foram contabilizados 502 casos de ameaça, 182 agressões físicas e 79 crimes de perseguição contra mulheres, conforme dados divulgados nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A proporção ajuda a dimensionar a escalada de violências que pode anteceder o assassinato por razões de gênero, destacam os especialistas. Todos os dias, o país registra, em média, quatro feminicídios e mais de 2 mil ameaças contra mulheres.

No ano passado, 1.571 foram vítimas de feminicídio, o maior número da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A taxa nacional foi de 1,4 vítima de feminicídio para cada grupo de 100 mil mulheres.

Nos crimes que aparecem nos degraus anteriores dessa escalada, as taxas foram bem mais altas: 720,9 registros de ameaça, 261,7 de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, 113,3 de perseguição e 55,6 de violência psicológica para cada 100 mil mulheres.

Escalada da violência

Para Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esses registros devem ser entendidos como sinais progressivos de um risco que pode culminar na violência letal.

“Geralmente, o agressor tenta controlar a autonomia da mulher e vai reagindo com mais violência quanto mais perde esse controle”, afirma.

A identificação dos crimes que antecedem a morte, diz ela, pode abrir oportunidades para interromper esse ciclo.

A perseguição (stalking) apresentou aumento de 30,1% em 2025. Ao longo do ano, foram registrados 123.871 casos no Brasil, o equivalente a uma média de 339 ocorrências por dia. Já os registros de violência psicológica cresceram 16,9% e somaram 60.830 casos.

O ponto de partida, diz a coordenadora, costuma ser a violência psicológica. “Estou falando de insultos, manifestações de ciúme, vigilância da rotina, o isolamento da rede de apoio da mulher e mesmo a desqualificação constante dessa mulher”, explica.

Na sequência, segundo a especialista, podem surgir ameaças de morte ou de agressão contra filhos e familiares, destruição de objetos e agressões físicas, como empurrões e tapas. Esses comportamentos funcionariam como formas de ampliar gradualmente o domínio do agressor.

Medidas protetivas descumpridas

Outro sinal de alerta aparece nos registros de descumprimento de medidas protetivas de urgência, que aumentaram 16,7% no período. Para cada feminicídio registrado no ano, foram contabilizadas 84 violações dessas medidas.

O dado chama atenção porque o descumprimento de uma ordem judicial ocorre em uma situação de violência que já foi identificada pelas autoridades e na qual alguma forma de proteção já havia sido determinada.

O Anuário aponta ainda que, entre os estados que informaram os dados, uma em cada nove mulheres assassinadas em feminicídios já tinha uma medida protetiva de urgência ativa no momento da morte.

Tentativas de feminicídio aumentam

A escalada também aparece nas tentativas de feminicídio. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a esse tipo de crime, um aumento de 5,9% em relação ao ano anterior.

A definição de tentativa prevista no Código Penal considera que o crime não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do autor.

São Paulo registra maior número da série histórica

Em São Paulo, os registros de feminicídio cresceram 8,1% em 2025, atingindo o maior número da série histórica para esse tipo de crime iniciada em 2018. Foram 266 casos de mulheres assassinadas em razão do gênero, contra 246 em, segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública).

Entre os casos de violência que chamaram atenção no ano passado está o de Tainara Souza Santos, 31, atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro em 29 de novembro.

Ela morreu em 24 de dezembro, no Hospital das Clínicas, após quase um mês internada. Douglas Alves da Silva foi preso sob suspeita de ser o autor do crime. O réu segue preso no interior de São Paulo.

Homicídios de mulheres caem, mas feminicídios seguem em alta

Os feminicídios passaram a corresponder a 44,4% — 1.571 de um total de 3.539 — dos assassinatos de mulheres no país, também a maior proporção da série histórica.

A evolução dos casos ocorre em um cenário em que a violência letal contra mulheres apresenta movimentos diferentes. Enquanto os feminicídios avançaram, os homicídios de mulheres tiveram queda de 5,5% entre 2024 e 2025.

Em 2025, foram registrados 1.968 homicídios de mulheres que não foram classificados como feminicídio.

Conforme Brandão, a ampliação dos registros de feminicídio pode refletir, em parte, uma melhora na capacidade de identificar e enquadrar essa violência. Mas a continuidade do crescimento ao longo dos anos indica que o fenômeno não pode ser explicado apenas pela melhoria da notificação.

“Se a gente estivesse lidando apenas com uma melhoria do registro, a gente esperaria uma estabilização após alguns anos, mas infelizmente o que a gente tem observado é o crescimento contínuo ao longo do tempo”, afirma.

Segundo o Anuário, os dois movimentos não são contraditórios: o que os dados mostram é um recuo seletivo da violência letal contra mulheres, com a redução das mortes não registradas como motivadas por razões de gênero.

Essa diferença ajuda a evidenciar que as mortes classificadas como feminicídio seguem uma dinâmica própria, geralmente relacionada à violência de gênero e aos vínculos entre vítima e agressor, conforme os especialistas.

Em 79,8% dos feminicídios registrados em 2025, o autor era parceiro ou ex-parceiro da vítima. O ambiente doméstico também aparece como um dos principais cenários desse tipo de crime: 62,5% dos casos ocorreram dentro de casa. (Bárbara Sá/FOLHAPRESS)


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