Brasil

Manjedouras

Redação DM

Publicado em 24 de dezembro de 2016 às 02:08 | Atualizado há 10 anos

Ficou tão popularizada a figura do Papai Noel que não só as crianças fazem seus pedidos, esperando que o bom velhinho desça, à meia noite, pela chaminé, trazendo o seu ansiado presente. Também os adultos entraram nesta mesma sintonia e não é mais estranho ver, entre as centenas e às vezes milhares de cartas dirigidas ao Papai Noel e entregues nos Correios, algumas assinadas por idosos, por pessoas adultas menos favorecidas, cada qual apresentando seu sonho.

E se a moda se alastrar muito, ninguém se espante com os mais estranhos pedidos, assinados por adultos, por gente vivida e sofrida, por gente desesperada…

Tenho observado as pessoas nas ruas, nas repartições, nos parques, nos bancos das praças e não é difícil encontrar muitos com o olhar perdido nas fímbrias mais distantes do horizonte, como que a desenhar desejos, a repintar o mundo, a refazer as coisas e as pessoas…

Gente que tendo vivido um bom tempo não consegue se recordar de tempos mais difíceis do que os atuais. E não apenas num aspecto, mas em vários. Gente que está vendo, pela televisão, ao vivo, e não acredita no que vê: a barbarização das pessoas, movidas por interesses inconfessáveis ou absolutamente inaceitáveis e tirando as vidas de outros seres, muitas vezes sem nenhum relacionamento com a sua causa ou seus objetivos, em nome de uma bandeira ou de um objetivo que se diz geral mas é grupal, que se diz religioso, mas é absolutamente ateu, que se diz político, no sentido da busca pelo bem comum, mas que é completamente apolítico, no sentido de que apartado dos mais comezinhos princípios morais  e dos bons costumes.

Nas cidades, mesmo com a crise econômica, há profusão de luzes e cores. Enfeites natalinos. Mas os que mais se aproximam da realidade da data são as estrelas. No mais o que se tem é uma multiplicação de pinheiros, de trenós, de renas, de Papai Noel e não há loja que se respeite que não tenha pelo menos um destes para o encanto das crianças. Tirar foto com o bom velhinho é algo que deixa as mães encantadas e, por isto, incentivam os filhos a se assentarem  no colo do velhinho de barbas brancas e haja flash, haja foto!

Mas vejo que, no fundo, as pessoas estão pensando mesmo é na festa, no jantar da noite de natal, no encontro dos familiares, na troca de presentes e lembranças. A coisa tomou uma proporção tão grande que é muito comum, quando desejamos a amigos e amigas um feliz Natal eles perguntarem, assim do nada: Você já escolheu o meu presente de Natal?

Sei que muitas instituições e muitas pessoas sérias e convictas estão clamando por harmonia, orando pela restauração da paz no mundo, pelo socorro divino a países e pessoas, em várias partes do globo, que chegaram ao nível da mísera sobrevivência, como filhos do desespero, do abandono e do sofrimento.

Guerras injustificáveis, mortes absurdas e inadmissíveis, desvios de conduta inaceitáveis de quem detém o poder.

Estes movimentos são absolutamente legítimos, louváveis e necessários. É preciso orar, é preciso clamar, é preciso rogar aos Céus pelos desvalidos. E me consolo muito em saber de tais  coisas, tais movimentos em prol do bem da humanidade.

Mas confesso, aqui comigo mesmo, que sinto estar faltando alguma coisa ou alguma coisa estar sendo feita erradamente.

Pedimos tanto a Deus que nos abençoe, que proteja nossa família, nossos amigos e conhecidos. Pedimos tantos bens materiais, tantos sonhos de consumo, mas ainda mantemos a mesma atitude: passado o momento natalino o velho homem retorna, com o mesmo ou com maior vigor.

Tenho a impressão que o Natal tem sido um remédio de efeito muito curto, muito rápido, que logo passa, e só volta de novo no fim do próximo ano…

Estou chegando à conclusão que o nosso íntimo está refletindo o que vemos externamente na cidade, nas ruas, nas lojas onde vemos todo tipo de presentes, todo tipo de formas de agradar nossos desejos tão materiais…

Cheguei à conclusão de que estamos pedindo para cada um de nós o presente errado.

O de que necessitamos no momento não é de carros, de casas, de empregos, mas de manjedouras.

Estas não se veem nem mais nos presépios, cada vez mais raros e apenas mantidos em alguns lares que ainda não o substituíram pela árvore de Natal.

Precisamos de manjedouras.

Elas nos mostram exatamente o significado do Natal de Jesus, o esquecido Menino de Belém, afogado na força dos festejos em que o seu Nome é mencionado somente aqui e acolá, de vez em quando.

É preciso reinstalar na paisagem deste festejo a figura da manjedoura, único local onde se pode colocar o Deus Menino, pois na cidade, não havia lugar, não havia vaga, uma sequer, para abrigar o casal…

E está acontecendo de novo a mesma carência. A seguir deste modo, em pouco tempo,  nenhuma criança saberá, na verdade, o que se comemora no Natal, pois as imagens mais representativas do grande evento estão simplesmente desaparecendo das ruas, das lojas, dos lares.

É preciso clamarmos por manjedouras para a ornamentação externa do Natal de Jesus.

Mas, o que é mais importante, é  que precisamos entronizar manjedouras com o Menino Jesus e sua mensagem em nossos corações, muitas vezes repletos de futilidades.

Aí, seremos mais felizes.

Aí, seremos mais cristãos.

 

(Getulio Targino Lima, advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro da Associação Nacional dos Escritores e da Academia Goiana de Letras. E-mail: [email protected])

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