Brasil

Muitos dias depois dos protestos e a resposta que se calou

Redação DM

Publicado em 29 de março de 2016 às 03:05 | Atualizado há 10 anos

O forte crescimento dos protestos embalados por uma série de notícias negativas estacionados na administração Dilma Rousseff nas últimas semanas, deixam nossa governanta ainda mais fragilizada diante do processo de impeachment. A contratação do ex-presidente da República Luiz Inácio da Silva como ministro com super-poderes, soou mal aos congressistas oposicionistas e diretamente à sociedade, pelo fato de possivelmente estar envolvido na Operação Lava Jato.  Os protestos foram marcados principalmente pelas críticas à Lula, Dilma e PT – mas políticos de oposição que compareceram às manifestações também foram hostilizados, caso do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e dos senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Marta Suplicy (PMDB-SP). Mas a grande estrela, sem dúvida, foi o juiz Sergio Moro, alçado a herói nacional.
Não estava presente nesses protestos, todavia, participei fortemente nas urnas, votando, usando o meu direito legítimo de manifestar na mudança de uma nação. Votei nos dois turnos das eleições do ano de 2014 e votei contra o atual governo. Essas manifestações, às quais eu defendo veementemente, mostraram com muita clareza que o governo é fustigado pela lei, atravessa uma situação econômica dramática, à qual foi arrastado por uma política equivocada de desperdício de dinheiro público, assim como pela corrupção organizada que acaba atingindo os mais pobres.
Se o pedido insistentemente repetido nas ruas do Brasil foi “Fora Dilma”, não é porque a ex-guerrilheira seja para eles mais ou menos simpática, ou a vejam mais ou menos de esquerda ou de direita. A querem fora da presidência porque a consideram responsável pela crise econômica que ameaça conquistas passadas, por sua pouca habilidade política, e porque carregam a dúvida de que possa ser moralmente responsável pelo escândalo da Petrobras. Não podemos aceitar essa super-proteção bancada pela maioria de sua base governista ou qualquer que seja a autoridade; é uma afronta aos nossos anseios de cidadão, pois, “a corrupção é o câncer da democracia”.
Bom, e agora o que a sociedade pode esperar desse governo desastroso?  O que exatamente desejamos é uma imediata elaboração do recado rouco das ruas, por parte das lideranças políticas, porque cabe a elas dar solução ao nó institucional que coloca em xeque o mandato de Dilma Rousseff. É certo que ainda que a presidente rumine no seu íntimo a ideia da renúncia, será inevitável que o processo de julgamento político retome seu curso de imediato, tudo através da resposta do STF ao rito parlamentar e instalação subsequente da Comissão Especial pela Câmara. Caso isto não aconteça, mesmo que por meio de indicativos de reparação formal, o povo será chamado novamente às ruas e os acontecimentos voltarão ao ritmo das jornadas de junho do ano passado, até que se dê o que tem que se dar, ou seja, a mudança de governo.
Confesso que temo por essa decisão! Parece inteligível, todavia, o problema é bem mais sistêmico. Os sistemas político/social/econômico brasileiro, possibilitam que a cada dia tenhamos mais chances de “descobrir” outra corrupção em “grande escala”, enquanto a esperança e o patrimônio  brasileiros são destruídos.
Temos que saber que com a saída da presidenta, quem assume imediatamente é o vice-presidente Michel Temer; na impossibilidade de ambos, são chamados a exercer o cargo, pela ordem o presidente da Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha), do Senado Federal (Renan Calheiros). E aí, todos esses também supostamente envolvidos em escândalos. A problemática é mais complexa do que imaginamos.
Diante desse cenário, faço a seguinte indagação: o que queremos politicamente para o nosso país?  O que a ética representa para eles? Os políticos que elegemos nos representará ou defenderá os objetivos do seu partido? Por que a maioria dos partidos políticos, pensa somente nas suas gestões e consome todo o dinheiro dos cofres públicos? Por que os partidos políticos querem se perpetuar no poder e se contradizem ao mencionar a democracia como fundamento de seus ideais? É sofrível não ter em quem confiar. Quando tivermos as respostas o País poderá mudar e será uma nação promissora. Mudar é possível, mas para isso ocorrer é preciso banir a cultura “de” levar vantagens individuais “para” benefícios à sociedade. Não se pode mudar a personalidade de pessoas que declinam para a corrupção como se isso fosse um fato normal no País, basta ter a oportunidade.
Finalmente, é preciso mudar a base ideológica na educação das nossas crianças a partir do ensino fundamental, mostrando-lhes o que é cidadania e democracia de fato com seriedade, sem demagogias. As crianças, quando chegam à vida adulta, seguem os princípios que estudaram e cultuam os valores que aprenderam na família e na escola. Mas, se estas instituições: famílias e escolas forem frágeis, talvez esteja aí a resposta para a realidade que temos, afinal somos a imagem dos nossos ensinamentos e dos exemplos que temos.

(Cleide de Oliveira, professora do ensino básico, contadora, pós-graduanda em Gestão Pública e atualmente dona de casa)


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