Não se destroem símbolos
Redação DM
Publicado em 21 de março de 2016 às 01:17 | Atualizado há 10 anos
Conheci Lula pessoalmente em 1981 no segundo Encontro da Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais (Anampos), no Instituto Paulo VI, Taboão da Serra, SP. A Anampos era uma articulação que reunia dirigentes sindicais combativos, lideranças de movimentos populares urbanos, rurais e de pastorais, campo e cidade, num esforço de diálogo entre setores populares que, em tempos de ditadura, faziam trabalho de base, vinham do sindicalismo combativo e das lutas urbanas, da educação popular freireana, e precisavam refletir sobre o futuro e organizar-se nacionalmente. A partir dos Encontros da Anampos, surgiu a CUT, em 1983, e mais adiante a Central de Movimentos Populares (CMP).
Na verdade, conheci Lula antes. As greves dos metalúrgicos do ABC, a partir de 1978, ecoaram em todo país, em plena ditadura. Organizamos apoio ao Fundo de Greve dos metalúrgicos na Lomba do Pinheiro, onde eu morava como frade franciscano, juntando alimentos e tudo mais que se precisasse para os metalúrgicos do distante ABC. Sentíamo-nos irmãos e companheiros de quem estava lutando não só por melhores salários e condições de trabalho, mas também por democracia. As grandes greves dos bancários no Rio Grande, sob a liderança de Olívio Dutra, e da construção civil em 1979 em Porto Alegre, da qual participei direta e intensamente (A Lomba do Pinheiro era formada majoritariamente por pedreiros, serventes e mestres de obra), tinham a inspiração e a coragem dos metalúrgicos do ABC.
Depois, nossas vidas e histórias cruzaram-se por décadas: direção do Partido dos Trabalhadores, coordenei sua campanha a presidente no Rio Grande do Sul em 1989, deputados constituintes, eu estadual ele, federal, movimentos sociais. Até chegar nos seus dois governos, onde fui da assessoria do seu gabinete: implementação do Fome Zero e das políticas sociais – ‘Matar a fome de pão, saciar a sede de beleza’, como dizia Frei Betto -, de onde resultou a Rede de Educação Cidadã (Recid), hoje presente em todo Brasil.
Lula é símbolo. Assim como foram e continuam sendo Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek – JK, João Goulart – Jango, atacados em seu tempo como corruptos, comunistas ou lesa-pátria. Getúlio, o criador da CLT e da Petrobrás, suicidou-se. JK, o desenvolvimentista, quase não conseguiu tomar posse. Jango, que propôs as Reformas de Base, foi apeado do por um golpe militar. Seguiu-se uma ditadura que durou 21 anos, no meio da qual surge Lula.
Juremir Machado da Silva (Uma Carta de Jango, Correio do Povo, 11.03.16, p. 2) fala da carta que Jango enviou a um amigo em 25 de junho de 1964: “Diante da pesada campanha da imprensa, especialmente das revistas O Cruzeiro e Time-Life, atacando-o por corrupção, jamais provada, e de ter enriquecido na política, Jango defendia-se em longa e argumentada carta, usando termos fortes, como ‘já transtornado’ e ‘brutalidade das injúrias e calúnias, chegando a afirmar que suportara quatro anos, mas estava no limite. O que se provou contra Jango? Nada. (…) Mais uma defesa de ladrões de esquerda? Também em 1954 e em 1964 as informações eram dadas como acachapantes, incontestáveis, definitivas e técnicas.”
Nada de novo sob o sol, portanto, e na história, quando se fala hoje de Lula.
Lula é aclamado, em qualquer pesquisa que se faça e nas ruas, como o melhor presidente da história do Brasil. É liderança reconhecida no mundo todo pelo combate à fome e à miséria, diminuição inédita da desigualdade social brasileira, construção de políticas sociais que beneficiaram os mais pobres e os trabalhadores.
O ódio não constrói solidariedade. O ódio não constrói projetos e utopia. A política pode construir solidariedade. A política pode construir projetos e utopia. Foi o que Lula fez a vida inteira e dispõe-se a fazer, mais uma vez, nesta quadra difícil da história brasileira.
Não se destroem símbolos. Eles são a identidade de um povo e de uma nação. Podem sofrer o ódio de classe, pode-se tentar interrompê-los na história. Mas eles ressurgem das cinzas. Porque embaixo das cinzas há brasas vivas e fogo ardente. Símbolos permanecem na memória do povo. Porque, no seu espaço e seu tempo, lutaram por soberania, por justiça social, por dignidade, especialmente dos mais sofridos, dos deserdados da terra, dos esquecidos da história. Getúlio, Juscelino, Jango e Lula são símbolos. Estão e não sairão da história do Brasil.
(Selvino Heck, Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã, Secretaria Nacional de Articulação Social, Secretaria de Governo da Presidência da República)