O Batismo Cultural de Goiânia
Redação DM
Publicado em 30 de outubro de 2015 às 22:12 | Atualizado há 11 anosUm de nossos historiadores mais devotados, Ubirajara Galli – o “Bira”, de nossa intimidade –, deu a lume, em 2007, pela Editora Contato, o livro A História do Batismo Cultural de Goiânia com Apresentação do ex-deputado federal, professor Vilmar Rocha, em que ele registra, com extrema felicidade:
“Escritor e acadêmico Ubirajara Galli navegou com disciplinado devotamento, nas águas do Batismo Cultural de Goiânia – e o resultado é este apreciado trabalho de atualização em forma de livro, dos acontecimentos registrados entre a segunda quinzena de junho e a primeira quinzena de julho de 1942, há 65 anos (este texto é de 05 de julho de 2007). Foram dias de arte, de eventos na área de educação, de uma feira dos Estados que desafiava as condições de realização da época, e de uma especial liturgia para louvar e abençoar a anunciada consolidação de Goiânia, em todos os planos” (pág.11).
“Mas até hoje alguns ainda questionam se o dia realmente histórico de Goiânia é o 24 de outubro ou o 5 de julho. A dimensão simbólica das duas datas escala o mesmo nível, com razões diferentes, mas semelhante grau de relevância política, social, histórica e cultural. O 24 de outubro de 1933 é a data da deflagração do esforço épico que iria materializar uma utopia; O 5 de julho de 1942 é a comprovação de que utopias são, muitas vezes, a antecipação de realidades. No 24 de outubro, a fé e a esperança dos pioneiros se combinaram muito bem para que, menos de nove anos depois, Goiânia abrisse as janelas para o Brasil e para o mundo” (pág.11). E após evocar as palavras proféticas de Pedro Ludovico, o fundador, e de Bernardo Élis, seu fruto mais sazonado, eis como Vilmar conclui sua Apresentação:
“Os pioneiros que vieram dirigir a construção e nela trabalhar, em todos os níveis de hierarquia, devem ter sentido grande emoção quando Goiânia fixou o seu primeiro perfil urbano, nesta data-marco do Batismo Cultural.”
Consta que “o mentor da idéia de apresentar ao Brasil a mais nova capital da Federação via Batismo Cultural, não foi possível identificá-lo nos apontamentos históricos e testemunhos orais dos remanescentes dessa epopéia do Cerrado. No entanto, todas (as) suspeitas caminham em direção daquele que foi o precursor do ‘marketing’ goiano, Joaquim Câmara Filho. Pode ser que a idéia do Batismo tenha surgido de outras cabeças brilhantes, como a de Vasco dos Reis Gonçalves, ou, ainda, a do próprio interventor Pedro Ludovico Teixeira, embora seria improvável que esse último, envolvido com a construção de uma nova cidade, tenha tido tempo para pensar em tal iniciativa. Mas quem formatou tal acontecimento foi Câmara Filho, sem dúvida nenhuma”.
Mais adiante, Ubirajara Galli relata:
“No mês de fevereiro de 1942, o presidente Getúlio Vargas assina um decreto-lei autorizando as solenidades que iriam compor o leque de ações que dariam vida ao chamado ‘Batismo Cultural’. Dec.-lei número 4.092. De 05 de fevereiro de 1942. Autoriza a Reunião, na Cidade de Goiânia, em julho do corrente ano, das Assembléias Gerais, dos Conselhos Nacionais de Geografia e de Estatística. Como parte da pré-comemoração do Batismo Cultural de Goiânia foi realizado, na segunda quinzena de junho de 1942, o VIII Congresso Nacional de Educação. Ainda que ele não constasse do Convite oficial, foi extremamente importante para mostrar Goiânia a profissionais do ensino de todos os cantos da Federação. Estrategicamente, o evento foi encerrado no dia 27 de junho, com a maioria permanecendo em solo goianiense para a Abertura da programação oficial do Batismo, que teria início a 1º de julho” (pág. 20).
Apesar da ausência do presidente Getúlio Vargas, as festividades do Batismo cumpriram extensa programação, qual seja:
Dia 1º de julho de 1942, reunião preparatória, seguida de visita das Delegações, ao Interventor, e, por fim, solene instalação do evento no Cine-Teatro ‘Goiânia’, sob a presidência do Embaixador José Carlos de Macedo Soares, tendo como convidado de honra o Interventor Pedro Ludovico Teixeira
Dia 2 de julho: após circuito, pela cidade nascente, abertura da Exposição Pecuária, à tarde: e, à noite, Primeira Conferência do Curso de Informação de Estatística, intitulada ‘A Estatística e a Sociedade’.
Dia 3 de julho: visita ao Mercado, ao Leprosário, e a outras localidades.
Dia 4 de julho: recepção às altas autoridades, e, à noite, grande baile, no Automóvel Clube oferecido pelo Chefe do Governo aos ilustres Visitantes.
Dia 5 de julho: I – às 5 horas, Alvorada, pela Banda da Polícia Militar, Tiro de Guerra, e várias Escolas; II – às 8h, Chegada do Desfile à Praça Cívica, com hasteamento da Bandeira Nacional, no Palácio do Governo: III – Missa Campal, na Praça Cívica, celebrada por S.E. o Cardeal Leme; Sermão por Dom Aquino Correia, Membro da Academia Brasileira de Letras; IV – Soleníssima Sessão de Inauguração da nova Capital, no Cine-Teatro ‘Goiânia’; V – Discurso do Interventor Pedro Ludovico Teixeira, fazendo entrega oficial das Chaves da nova Capital do Estado, ao Prefeito da Cidade; VI – Discurso do S.Exa. o Embaixador José Carlos Macedo Soares, presidente do IBGE; VII – Evolução de todos os aparelhos do Aero Clube do Estado, VIII Salva de 21 tiros; IV – Às 22h, Grande Banquete oferecido pelo Chefe do Governo, no Salão de Festas do Palácio das Esmeraldas às altas autoridades presentes à inauguração da Nova Capital.
Nos dias 6 a 11 de julho, prosseguiam as festividades, com o lançamento da Pedra Fundamental da Catedral Metropolitana, sob a presidência do Cardeal Leme (dia 6), e reunião na Escola Técnica Federal; Dia 7, manhã livre, com despedida das autoridades que regressavam a seus respectivos Estados: dia 8, inauguração do novo edifício do Departamento de Estatística; dia 9, lançamento da Pedra Fundamental da Prefeitura Municipal, seguido de almoço íntimo no Automóvel Clube; e, às 20h, Conferência do grande filósofo Padre Leonel Franca, S.J..
Dia 10 – às 15h, Coquetel, no Automóvel Clube, oferecido pelo Diretório de Geografia e Junta Regional de Estatística; e, às 20h, Sessão Solene de Encerramento das Assembleias e das Exposições.
As festividades do Batismo Cultural se encerraram na manhã de 11 de julho, com agenda livre, e despedida dos convidados.
Um marco imperecível do início da história de nossa bela capital.
(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])