Brasil

O bicho-papão das OSs

Redação DM

Publicado em 21 de janeiro de 2016 às 22:26 | Atualizado há 10 anos

Só tenho elogios ao governo estadual goiano por estar inovando na gestão pública da Educação. Ou ao menos tentando. As Organizações Sociais (OSs) são nada mais nada menos que a gestão compartilhada ilustrando o velho dito popular, já há muito provado e comprovado, de que duas cabeças pensam melhor que uma. No caso, a cabeça do bem público e a do protagonismo civil.

Como se verá com o passar das marolas que o novo traz, o ponto a se discutir com a sociedade não é se as OSs são ou não a melhor opção de gestão, mesmo porque, na Educação, não existem antecedentes que sirvam para comparação. O que é preciso debater é a falta de propostas e exemplos na gestão da Educação. E neste ponto as OSs entram positivamente no cenário como uma clara tentativa de fugir da apatia e da carência de novas ideias em um setor vital para a sociedade.

De fato, para iniciar mudanças em um modelo complexo e historicamente desgastado que é o da educação pública brasileira, as OSs são visivelmente a melhor promessa que se tem em mãos, de modo factível e imediato, graças à coragem política do atual governador e à sua ojeriza em ficar impassível.

Mas então, qual o por quê desta celeuma que tem por base, de um lado, o fato original da introdução das OSs na gestão pública estadual da educação e, de outro, a invasão e ocupação de algumas escolas públicas?

Antes de mais nada é preciso saber que, por mais convincentes que sejam, os argumentos de nada servem quando vistos pela lente da ideologia. É preciso saber separar os interesses da disputa ideológica dos interesses de melhorar a gestão, colocando no foco as propostas que convergem para a melhoria da qualidade de ensino, que é o que ser quer. Deixando para o lixo da história os embates meramente ideológicos.

Na certa, um dos porquês desta situação ostensiva entre o estado e a sociedade é que quem hoje propõe o sistema OSs sendo a ponta de lança do governo, a ilustríssima secretária da educação, Raquel Teixeira, ela própria disseminou a princípio desconfianças com relação ao mesmo modelo que agora, em nome do governo, finalmente ela diz querer implantar.

Não falo novidade alguma. É público e notório a relutância da secretária educacional em seguir desde o início a orientação do governador Marconi Perillo e implantar sob sua gestão este sistema de compartilhamento inovador que se estabelece entre as OSs e o poder público.

A secretária Raquel chegou a registrar em público que não queria saber de OSs e que, então à revelia do governador, estudava um outro modelo. Foi até aos Estados Unidos buscar as Charters Schools, que são fruto de uma configuração histórica específica daquele país. Fácil saber que não daria em nada.

De fato, o exemplo a ser seguido estava bem mais perto. Bastaria à secretária olhar para o sucesso  da implantação das OSs no sistema de saúde pública aqui mesmo em Goiás, que o governador Marconi implantou há cerca de uma década atrás. Sistema cujos resultados foram reconhecidos pela imprensa nacional e cujas melhoras são comprovadas diariamente por quem dele faz uso.

A relutância da secretária em adotar o sistema OS, seja por insegurança, desconhecimento ou por mera questão de fazer uso de sua autoridade, fez com que a implantação anunciada se arrastasse por todo o ano de 2015. E agora, aos 45 do segundo tempo de se iniciar o ano letivo do 2º ano do governo, justamente agora quando a secretária resolveu de fato vestir e suar a camisa das OSs, enfim convencida, surge a onda de ocupação das escolas por seus alunos, cujo precedente veio da capital paulista por motivos totalmente outros que a questão das OSs.

O movimento de ocupação das escolas em Goiás é um movimento colado de São Paulo sem contudo haver correspondência aos fatos. Lá, a ocupação se deu por outros motivos que mais diziam da alteração de hábitos do que de métodos. Aqui, os manifestantes adotaram o lema contra a implantação das OSs por mera falta de ter alvos definidos que justificassem suas muitas insatisfações, que são veramente reais e frutos de carências históricas.

O que importa a estes estudantes é ir contra, porque realmente é preciso, diga-se, e ao se espelharem no exemplo de São Paulo acharam justamente a secretária Raquel vindo com seu atraso de um ano. E houve o encaixe. Surgiu aí o bicho-papão, um monstro vazio porque quer lutar contra as mudanças que os usuários e beneficiários do sistema educacional, os alunos, professores e sociedade, esperam por tanto tempo.

A tristeza é ver que justamente quando o governo resolve mudar um sistema que tem esbarrado na ineficiência, sofrendo crítica e autocrítica de todos os lados, eis que a mudança sofre a resistência daqueles que mais precisam dela, os próprios alunos, cuja minoria se tornou barulhenta e ocupante, exercendo um protagonismo às avessas.

Se a relutância da secretária de educação, com sua atitude temporã, fez nascer o momento propício para brotar no Estado as manifestações que resistem a quarentena, agora é a vez de um trabalho duplo: dominar e desmontar o bicho, e mostrar a todos que com suas sobras pode-se desenhar um novo horizonte para a educação no Brasil, começando por Goiás.

 

(Px Silveira, presidente do Instituto ArteCidadania)

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