O caminho perigoso da beleza
Redação DM
Publicado em 16 de dezembro de 2015 às 22:59 | Atualizado há 11 anosEra bela mulher; de uma beleza como há poucas no mundo; inteligente e muito comunicativa. Mas vocês sabem que a beleza física é provação difícil de ser vencida, em razão das facilidades e tentações que ela oferece, e são poucas as criaturas que, belas, rompem os caminhos da existência sem se deixarem dominar pelas circunstâncias e fatuidades, pelas ciladas e resvaladouros da perdição.
A beleza dessa jovem fascinava tanto, que logo se viu cercada de facilidades e tentações; em pouco tempo, atendendo ao aceno da fortuna fácil, deixou se levar pelas ondas de todos os prazeres, e acabou por instalar uma organização discreta, frequentada pelos magnatas e vultos destacados da sociedade elegante, que arrastavam para ali moçoilas lindas e ingênuas, que experimentavam a desilusão no desabrochar da existência sob a cobertura do dinheiro, do poder e das promessas mentirosas.
Sempre que uma jovem bela, de qualquer condição social, desde que despertasse amor nos corações fogosos desses insaciáveis abutres humanos, era vista por eles nas ruas, nas escolas, nos teatros ou em qualquer parte, logo era por esses cabritões denunciada à proprietária do escuso estabelecimento, que autorizava outras jovenzinhas a espreitá-la até conquistarem-lhe a amizade e atraí-la à sua presença, quando então a seduzia com simulada bondade e ricos presentes, encaminhando-a após para confortável apartamento, onde a esperava o cavalheiro apaixonado e grã-fino, de conversa mansa e modos lascivos, e que não conseguia disfarçar o seu cabritismo asqueroso e ridículo.
Esses senhores eram os ricaços e “gente bem” da alta sociedade, homens jovens e idosos, mas, todos, mantenedores da sórdida organização de dona Rúbia, pois este era o nome da fulgurante mulher que desencaminhava jovenzinhas na vida, sempre que fosse regiamente remunerada; esses romeus eram de todas as idades; quando mais idosos, pintavam os cabelos, jovializavam a fala e as maneiras, ficavam travessos e teatrais, procurando, sempre, enganar as pequenas; mas alguns deles assumiam atitudes paternais, depois das carícias aviltantes e ficavam conselheirais, simulando dó e piedade quando se sentiam impossibilitados para o “bote”; depois diziam à dona da casa que “a mocinha não aceitara o seu amor”, ou que a sua inocência lhe “inspirara profunda compaixão”, mas isso só quando não podiam sair da casa, vaidosos da sua masculinidade, no entanto, essa bagatela de dignidade desapareceria quando se retiravam, deixando corrompidas as suas presas, aos cuidados de dona Rúbia que as confortava “maternalmente”, convidando-as a morar com ela, uma vez que havia “se descuidado” a tal ponto.
A estas alturas, o depósito bancário, cobrindo todas as despesas e ainda o lucro da transação, era efetuado, em nome da astuta senhora, cujo espírito se complicava cada vez mais com a Justiça-Além e com as suas simplórias “pupilas”, que passavam a integrar o grupo delicado das seletas habitantes daquela oculta organização, atendendo à vasta e requintada clientela da bela mulher, sem que os seus pais descobrissem tão cedo, mesmo porque, quando surgiam casos de gravidez, dona Rúbia conduzia as gestantes para um pavimento subterrâneo, através de uma porta secreta e, lá, com as próprias mãos, procedia a criminosos abortos, eliminando vidas incontáveis de criancinhas que, às vezes, agitando braços e perninhas, não tinham, sequer, uma voz que as defendessem. “Esses pestinhas” – dizia a desnaturada mulher – “só servem para atrapalhar tudo”; e rindo, falava às companheiras: “Já imaginaram como estaria superlotada esta casa, e como estariam atormentadas as nossas vidas, se deixássemos essas coisinhas viver?”
Durante longos anos tudo correu normal. Mas vocês sabem o tempo tudo muda e nada deixa sempre, oculto, nem impune. A rica e bela senhora foi envelhecendo, vendo desaparecer, aos poucos, todos os seus encantos; em breve, as enfermidades invadiram seu corpo e sua vasta propriedade foi se esfacelando; gastou tudo o que tinha com tratamentos caros e inúteis, porque as doenças que têm raízes no espírito da criatura não se curam com os recursos mais especializados que a fortuna pode oferecer. Alguns anos mais tarde, dona Rúbia era pobre velha relegada à solidão e ao desprezo geral, inspirando asco aos desconhecidos que por ela passavam e ódio àqueles que a conheceram outrora, quando sua beleza estuante e descuidada a elevara aos cumes da fortuna fácil e pecaminosa. Almas iludidas assim, amigos, ainda fascinam muita gente nos dias atuais, e merecem, antes de tudo, nosso amor mais puro, nossas preces mais sinceras e nossas mensagens de advertência, de reerguimento e de retidão, pois o que lhes falta é um farol aceso nos seus caminhos, a lhes clarear o raciocínio, o coração e os passos.
Rompendo-se os laços que retinham seu espírito ao corpo de carne, foi ela sofrer nos abismos interiores consequências de seus desatinos e de seus delitos que, no decurso de sua existência, não foram poucos, principalmente se a eles somassem as dívidas de passadas vidas, que não foram necessariamente regatadas nesta última, através da boa aplicação dos seus dons, da sua inteligência, das suas horas, dos seus dias e, principalmente, da sua beleza, que bem serviria para revelar aos outros que os encantos físicos, adornados pela beleza da alma, são capazes de atrair a simpatia de muita gente para o exercício das qualidades enobrecedoras do espírito; e assim se valeria de seus belos dotes para encaminhar muitas almas à retidão e à bondade, demonstrando, inclusive, que a beleza não pode ser objeto de desrespeito, de perdição e de extravagâncias, mas instrumento de elevação espiritual para quem a ostenta e para aqueles que a apreciam, porque a beleza na terra falando e vivendo as belezas dos céus pode convencer muito mais.
Rúbia, porém, não teve a força de vencer as tentações, e deixou de cumprir na terra os compromissos que assumira na Espiritualidade, antes de se internar num corpo físico e vir ter aos círculos dos homens, e por quase meio século padeceu provações superlativas, ao descer os patamares sem fim dos abismos interiores.
Ninguém pode descrever com precisão a intensidade do seu desespero, dos seus suplícios e das suas dores. Via-se rebaixada à condição horrível dos animais: sentia-se em meio a um bando de pequenos suínos, como se fosse um deles, e todos refocilavam na lama, ora grunhindo, ora procurando as tetas da mãe; sentia horrores de tudo aquilo! Mas o que fazer? E porque se sentia naquelas condições? Ignorava que os atos e sentimentos refletem o que realmente somos, e nos revelam interiormente, depois que nos despimos do corpo físico, a que condições nos elevam os sentimentos e atos nobres, e a que condições deploráveis nos rebaixam os atos e sentimentos inferiores, porque, desencarnados, podemos ver, sentir e apalpar as emanações do próprio “eu”, uma vez que essas emanações constituem a nossa vibração, o nosso clima moral e pessoal; e se a sua existência fora a explosão de atos iníquos, desregrados e animalizados, sua mente reproduzia para si mesma as imagens monstruosas que se identificavam perfeitamente com os seus sentimentos e atos; quando ia gritar de dor e desespero, aterrada pelo ambiente imundo que forjara para si mesma, não gritava, grunhia, e grunhia mais alto que os pequenos suínos que a cercavam, a ponto de espantá-los, não pela sua presença ali, com a qual já haviam se acostumado, mas pela bulha estridente e horrível que provocava. Assim permaneceu por tempo que não pôde calcular, até que se lembrou de orar. Deus é sempre a última lembrança e o último recurso a que nos recorremos, na maioria das vezes, quando nada mais nos resta buscar, quando se escassearam todas as alternativas e quando a última flama de esperança se apagou, tenuemente, na intimidade das nossas forças espirituais, no recesso escuro da nossa renitente descrença; e a prece é uma luz que devassa as densas trevas que nos envolvem e tange o coração amoroso do Eterno Pai que, piedoso, nos alonga os braços de Amor, amparando-nos carinhosamente.
Dominada agora pelo remorso, foi amparada por generosos trabalhadores espirituais que a conduziram a locais de tratamento e regeneração, nos Planos Mais Altos do Mundo Além, recebendo, aos poucos, os recursos terapêuticos que o seu estado requeria, readquirindo, finalmente, a consciência de sua atual condição, retemperada agora para novos embates redentores, pois inspirada pela fé racional que a impulsionava para o acerto, pretendia não mais falir nas suas trajetórias porvindouras; conduzida à presença dos excelsos colaboradores do Cristo, na grande obra de impulsionar o progresso moral e espiritual da humanidade, recebeu deles a bênção imerecida de nova oportunidade, que não deixava de ser uma pálida amostra do imenso Amor de Jesus por todas as criaturas:
– Minha filha, falou, sem afetação e com natural e intraduzível doçura na voz, um dos Egrégios Espíritos do Bem – Uma vez que pedes tanto uma oportunidade para reparar os teus erros, foste atendida pelo amor sempiterno do Grande Amigo, e volverás à terra em nova reencarnação; seu coração pulsou mais forte, surpreendido pela alegria que a assaltou, ao escutar aquelas palavras; retomando a palavra, o Celeste Irmão esclareceu:
– Só que não mais envergarás um corpo dotado de beleza e fascínio, porquanto faliste nesta prova e guardas ainda nas vascas do espírito fortes tendências para os mesmos erros. Voltarás ao círculo das provações humanas conduzindo um corpo frágil e doente de menina, e serás deixada pelos braços da orfandade às portas de uma casa de amparo à infância enjeitada, e lá permanecerás durante tua quadra adolescente.
– E depois? Indagou o espírito de Rúbia, dominado por incontida emoção.
– Depois, minha filha…
E sorriu, afagando os seus cabelos, completando:
– Só Deus o sabe.
(Iron Junqueira, escritor)