Brasil

O emagrecimento do Estado de Goiás e a queima de sua última gordura: a privatização da Celg

Redação DM

Publicado em 23 de fevereiro de 2016 às 02:56 | Atualizado há 10 anos

A história das privatizações de estatais e da extinção de órgãos públicos em Goiás é resultado do patrimonialismo que se intensificou por aqui, a partir da década de 1980. Desse período em diante, o Estado passou a ter donos e clientes. Com a volta das eleições diretas, voltamos a ter o “o voto de favor em troca do emprego de favor” de que tanto nos fala,  em seus escritos, o ex-ministro Celso Lafer.

Quando falo de clientes não me refiro apenas à extraordinária elevação dos empregos públicos via comissionamento, esse é o lado menos predador e invisível aos nossos olhos, mas visível na calada dos gabinetes, léguas distantes do interesse público.

Mais invisível ainda foram os empréstimos a juros “mamão com açúcar” concedidos aos apaniguados de políticos – e, lógico: obras superfaturadas destinadas aos empreiteiros, estes eternos financiadores de campanhas políticas. A lógica era a mais perversa possível: doações para campanhas políticas em troca de sobreinvestimentos ociosos para a sociedade, mas que fizeram fortunas do dia para noite. Resultado: o estado, paulatinamente, foi perdendo o sentido de direção, assim, levando inúmeras instituições goianas literalmente à falência.

Esse também foi o caso do Banco de Desenvolvimento (BD), originariamente criado para fomentar projetos empreendedores indutores do progresso. O BD perdeu o sentido de existir a partir do momento que a racionalidade técnica foi sendo substituída pelo clientelismo político. O que também ocorreu com o Banco do Estado de Goiás (BEG) e a Caixa Econômica (Caixego).

No caso da privatização da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada, que este escriba acompanhou de perto, a verdade foi uma só: o patrimônio público foi entregue única e exclusivamente para fazer caixa para o populismo continuar a fazer o que sempre fez: obras improdutivas. Que o diga a desastrada reforma da Avenida Anhanguera, o Ginásio de Esportes ao lado do Serra Dourada, as inúmeras iluminações públicas gratuitas em campos de futebol e o asfalto ligando o nada à coisa nenhuma colocado por este Goiás afora.

Com a moralização do país, vivenciamos, hoje, o fim desse ciclo de perdas de ativos com a luta política pela privatização da Celg. Foram longos 35 anos de desastradas gestões patrimonialistas que levaram à falência inúmeras instituições públicas, outrora genuínas representantes do desenvolvimento. Eis aí a face visível do sucateamento. O estado emagreceu e esse emagrecimento coloca como refém a ativa classe empresarial, pilar maior do crescimento econômico goiano.

Nesse sentido, a economia vai por um lado; e o processo político vai por outro. Antes de 1980, o crescimento econômico de Goiás se dava com os governos; hoje, ele se manifesta apesar dos governos.

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético e autor, entre outras obras, do livro A Construção de Goiás.)


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