Brasil

O ponto de equilíbrio entre a verdade e a hipocrisia

Redação DM

Publicado em 17 de dezembro de 2016 às 02:22 | Atualizado há 10 anos

Qualquer que seja o porto em que viajo ao mundo, sempre retorno à Vila Nova. Volto quando minhas asas se derretem ao sol de Ícaro, que sonhou em voar alto. Uma força imponderável me leva às ruas do bairro mais incrível de Goiânia. Não importa aonde vou nem de onde venho, ali é a catarse da minha alma. As consequências das viagens do homem, boas ou ruins, não julgam as circunstâncias. Feliz do homem ou da mulher que consegue chegar a um ponto de equilíbrio entre a verdade e a hipocrisia.

Vivi muito tempo perdido entre as escolhas de coisas que hoje não me servem de nada. Há coisas para lembrar e coisas que devo esquecer. Mesmo as sacanagens do falso amigo. Deixo ir o que não me faz bem. Mas prendi para sempre em meu peito a simplicidade das minhas raízes fincadas em Porto dos Barreiros.

Antes de seguir adiante ouso um pensamento de Albert Camus: “Escolho somente homens que procuram esgotar-se, ou dos quais eu tenha, por eles, consciência de que se esgotam. Não pretendo ir mais longe. De momento só quero falar de um mundo onde os pensamentos são privados de futuro, tal como as vidas. Tudo o que faz o homem trabalhar e agitar-se utiliza a esperança. O único pensamento que não é enganador é, portanto, um pensamento estéril. No mundo absurdo, o valor de uma noção ou de uma vida mede-se pela sua infecundidade”.

O escritor deseja, embora não consiga se esconder de si mesmo, chegar à alma das pessoas sem recear o ridículo. Por isso os personagens de Dostoiévski são modernos. A existência é feita de mentiras ou ela se eterniza no caricato. Ou no tormento. Muitos levam a sua carga como se estivessem amarrados a uma vida sem sentido. Neste ponto a luta do humano é maior do que o seu destino.

A condenação de Sísifo em subir sem descanso uma enorme pedra ao topo da montanha e ela caía de novo é um castigo aterrador e um símbolo que diz muito da vida inútil e sem esperança cujo final é desconhecido. Em que mundo inferior a minha pedra vai cair? Não sei. Mas a minha missão é buscá-la e tentar subir o calvário com o rochedo no ombro. Volto a Camus: “Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra!”. Vejo um morador de rua na manhã fria desta sexta-feira com um cobertorzinho andando para lá e para cá debaixo da marquise de um prédio onde se lê num cartaz com letras desenhadas: “Aluga-se”. O homem estende a mão como se pedisse alguma coisa, a mulher corre. O homem corre atrás, outro grita: “É um estuprador”. Uma turma corre atrás do morador de rua e o agride com socos e tapas. Depois de alguns sopapos a turba de insanos o deixa quando um mais sensato diz que não é um estuprador, é apenas um morador de rua. E o homem com o cobertor rasgado diz: “Está tudo bem”. Um rosto que vive tão perto do desprezo já é, ele próprio, o retrato do desprezo. Mas a luta para chegarmos à felicidade alegra o nosso coração. Assim, a gente se conforma: “Está tudo bem”.

Estamos acorrentados ao viver.

A pedra de Sísifo continua a rolar entre a hipocrisia e o medo.

 

(Doracino Naves, jornalista;apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

 

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