O todo e a parte
Redação DM
Publicado em 20 de maio de 2016 às 03:00 | Atualizado há 10 anosNo plano nacional o governo ilegítimo e obscurantista de Temer tenta sair do porto, mas qual… Nada! Além da velha e muito manjada cantilena neoliberal de redução de investimentos públicos se mostra integralmente incapaz de anunciar um, apenas um, projeto de real e efetiva importância para os brasileiros. É evasivo, enfadonhamente abstrato e nada diz sobre o país golpeado e que, pela via indireta, acaba de assumir.
No mundo regional, o decadente governo de Perillo segue como é do seu feitio, na maquiagem das contas públicas onde, por cinco anos arrocha a população pela via do corte e extinção de investimentos sociais e públicos e onde sequer garante a manutenção rasa e elementar da já velha e ultrapassada infraestrutura de bens e serviços públicos de Goiás. Uma tragédia administrativa floreada pelos estratagemas de uma mídia local venal, abusada e anti-social. Somos estado sem estado; gestão sem gestão e; simulacro, faz-de-conta, de organização pública.
No nível da municipalidade o drama ressoa fundo entre agudos e graves. Os amplos sinais da terra arrasada saltam aos olhos. O morticínio da saúde municipal segue sem justificativa ou argumento público; o sistema de transporte, serviço e estrategia essencial para um dinamismo populacional cadenciado e harmônico inexiste pela incompetência administrativa municipal e sua respectiva indiferença a tudo o que respeita ao mundo do trabalho e dos pobres. Os bairros se soltam da cidade. Parece que flutuam, que se desprendem do todo pela ação do crime organizado, da pobreza e do desamparo público.
A paisagem de Itumbiara é um estranho mosaico que combina opulência, degradação ambiental e desterros sociais onde ao povo flutuante dos bairros cabe o silêncio, o anonimato e a servidão. Não poderia ser diferente, afinal, quem manda ser negro, mestiço, nordestino ou de baixa instrução? Quem manda ser mulher, gay, cigano ou trabalhador?
As elites locais, sempre revoltadinhas e performáticas com governos de esquerda, respondem à altura, com muita indiferença, descaso e bastante assepsia e higienização social onde o muro alto com cercas elétricas, vigilância vinte e quatro horas e o condomínio fechado são os reflexos mais evidentes desse pulsante e vivo ódio de classe. Em outros termos, “eles lá e a gente aqui”.
Resposta simples e óbvia para o mesmo segmento que se apropriou das terras da cidade, que praticou e ainda pratica, a grilagem e a vassalagem das terras púbicas, a expulsão do pequeno agricultor, que promove o latifúndio em fina sintonia com a incorporação evidentemente ilegal, das áreas da comunidade, da pequena propriedade e de muita degradação ambiental.
O resultado já era esperado: o inchaço da periferia mal acondicionada, mal arranjada e muito mal situada onde velhos e novos campesinos se tumultuam em uma sociabilidade de medos, horrores e esperanças.
Ante ao irreversível feito por essa mesma elite, ela, cínica e perversa, faz o que sempre fez: isola-se em prédios bem guarnecidos, em condomínios bem resguardados onde a “gente de bem” tem alguma paz, afinal, lutou muito para o galardão de vida que possui; destruiu muito Cerrado; humilhou e submeteu muita gente simples e do campo; corrompeu muito para chegar nesse brioso status social.
Aos pequenos sobrantes e deixados à própria sorte nas alquebradas da cidade cabe a rebeldia difusa expressa no pequeno delito do roubo do botijão ou do comércio de entorpecentes, como sempre, ampla e histericamente noticiado pela mídia burguesa e sem-vergonha da província. Um dia, um belo dia, esperamos que as maiorias desterradas convertam essa rebeldia espraiada em revolução inteligente, coletiva e muito politizada.
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)