Brasil

Ontem os Estados Unidos, hoje a China?

Redação DM

Publicado em 25 de agosto de 2015 às 22:46 | Atualizado há 11 anos

Não é uma crise em estado de concretitude apavorante. O que está a acontecer na China, porém, já produziu efeitos assustadores. A Bolsa de Nova Iorque teve anteontem prejuízo superior a 3%, o que tem uma dimensão inusitada e não deixa de ser muito preocupante. No Brasil a Bovespa chegou a acusar perdas de 6,5% vindo, porém ao patamar de 3,02%, o que é menos mal mas mesmo assim um grande mal. A União Europeia se alarmou – ela que ainda está mal das pernas. Os chineses já denunciam pavor.

Quando da hecatombe financeira de 2008 escrevi:

“Depois da grande depressão de 1929 – maior crise vivida pela economia mundial até hoje – a crise atual que se projeta com os abalos das instituições financeiras europeias e asiáticas e tem como núcleo central a irresponsabilidade da política republicana dos Estados Unidos desde o governo Ronald Reagan, evidentemente exacerbada por essa personificação de fracasso sob todos os ângulos que é George W. Bush, é o mais grave acontecimento que o mundo economicamente globalizado não esperava que ocorresse.

A economia norte-americana ruiu, não de forma definitiva, é claro, pois os Estados Unidos são uma potência hegemônica de tão poderosos recursos estruturais que não demorará a se recompor. (Este articulista assinala, todavia, que a recuperação ianque somente agora, quase sete anos depois se recuperou apenas em 40%).”

Continuando: “Mas seu quadro atual é desolador. Basta dizer que entrou em recessão. A falência do Banco Lehman revelou a bagunça da ausência de regulamentação das operações dos bancos e demais instituições de crédito norte-americanas e estrangeiras que atuam naquele País. O setor imobiliário sofreu total estrangulamento, com milhões de vítimas hoje em desespero. Quando a maior seguradora da América Latina apresentou o espectro da falência e outras instituições financeiras revelavam o mesmo e inexorável destino, o governo Bush não teve outra saída senão a do intervencionismo estatal – um plano de salvação das empresas quebradas pelo qual se lhes dão nada menos que 850 bilhões de dólares para lhes salvar as vidas. E tentar recuperar lhes a saúde, o que é muito improvável senão impossível.”

(Veja o leitor o formidável paradoxo. A pátria do capitalismo, do liberalismo econômico baseado fundamentalmente no Laissez Faire, Laissez Passer, ou seja, de o Estado não intervir nas atividades econômicas individuais, lança mão da mais ostensiva e mais gigantesca intervenção do governo que se conhece na história do mundo).

Acrescento naquele escrito do dia 14 de outubro de 2008, que a crise se alastrou, isto é, revelou-se de tal forma que a União Europeia resolveu salvar os bancos de todas as nações que a constituem. O pânico do povo em face da quebradeira bancária projetou-se no desespero dos governantes europeus. A Inglaterra chegou a nacionalizar a sua maior instituição financeira. A Suíça e a Suécia, também no pavor do despencamento vertiginoso das bolsas de valores no mundo inteiro adotaram medidas idênticas. O tamanho da crise é tal que um país pequenininho, de apenas 300 mil habitantes, a Islândia, tornou-se universalmente conhecida por sua ruína.

Foi nesse contexto mundial que o nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o que ocorria nos Estados Unidos era um tsunami, mas que no Brasil não passaria de uma marolinha. Para confirmar este prognóstico adotou medidas constantes de tais isenções de impostos para a indústria automobilística, o setor da construção civil e outros setores, que acabamos por não ter uma marola. Mas as isenções de impostos, em dimensão muito grande, acarretaram muitos dos efeitos do que vive hoje a economia brasileira.

(Nota: A série sobre a trajetória de Lula, iniciada na semana passada, é interrompida em face da crise chinesa. Este tema talvez tenha de ter novos enfoques).

 

(Eurico Barbosa é escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às terças & sextas-feiras)

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