Opinião: Quem fala demais dá bom dia a cavalo. Segóvia falou demais e foi defenestrado
Redação DM
Publicado em 5 de março de 2018 às 22:26 | Atualizado há 8 anosLogo que foi trocado o Diretor-Geral da Polícia Federal, saindo Daiello e entrando Segóvia, escrevi o artigo “O que pode mudar na Lava Jato com a troca de Daiello por Segóvia”.
Ainda ecoava nas dependências do Congresso o arquivamento da segunda denúncia contra Michel Temer na Câmara dos Deputados, a peso de ouro, e muitas emendas orçamentarias pra lá de suspeitas, beneficiando redutos eleitorais dos insaciáveis deputados, o presidente Temer, após nomear, por sua própria conta e risco, Raquel Dodge, voltou a fazer o mesmo, ao mudar o comando da Polícia Federal, nomeando um delegado de sua preferência pessoal, Fernando Segóvia.
Dizia eu que me parecia totalmente suspeita a nomeação, àquela altura do campeonato, quando Daiello gozava da confiança do ministro da Justiça, Torquato Jardim, o próprio Temer, suspeitíssimo de práticas corruptas, acusado formalmente pelo recebimento de propina e cometimento de crimes contra a própria administração da Justiça, tenha substituído o comando da Polícia Federal, pondo em risco, por hipótese, a própria continuidade da Operação Lava Jato.
A imprensa divulgou, escancaradamente, em versões perfeitamente factíveis, que a indicação do novo titular da Polícia Federal seria indicação dos ministros Padilha e Moreira Franco, do presidente do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes, além do macróbio José Sarney (possíveis futuros colegas de cela de Michel Temer, tão logo percam o execrável foro privilegiado, e se houver Justiça no Brasil), a nomeação do delegado em questão soou como verdadeira ducha de água fria na “Operação Lava Jato”, que hoje se inseriu no léxico político como o mais perfeito sinônimo de Justiça no ideário do brasileiro comum, que jamais houvera visto antes.
Nada, particularmente, contra o delegado Fernando Segóvia, pois as informações de que se dispunha naquele momento primeiro, era de que era detentor de extensa folha de serviços bem prestados à instituição.
O nome de Segóvia, dizia eu, ainda era cercado de dúvidas, sendo que a principal delas era se ele daria o devido apoio à continuidade da Operação Lava Jato, por ser uma indicação de pessoas comprometidas, todas envolvidas até o gogó naquela operação. Dentro de uma lógica perfeitamente admissível, se a indicação de Segóvia partiu de elementos “lavajatistas” comprometidos até o gargalo, e, diante do notório exemplo dos Tribunais Superiores, que costumam pagar indicações com decisões, seria de se esperar o mesmo comportamento no andar de baixo.
O ministro Torquato Jardim, que tem mostrado uma coerência ímpar (e a intervenção na segurança do Rio de Janeiro é a prova disso) acreditava que Eliseu Padilha influenciara na decisão do presidente Michel Temer por Segóvia. A troca no comando da corporação responsável por operações contra a corrupção no país ocorreu dois meses após o ex-diretor-geral Leandro Daiello ter aceitado continuar no cargo até o final da gestão Temer, convencido pelo ministro da Justiça.
Ora, se o próprio ministro da Justiça, com quem convivi vários anos e o conheço como pessoa séria, convencera Daiello a permanecer no cargo, é intuitivo que Torquato teve sua credibilidade respingada pelas declarações sobre o crime organizado no Rio de Janeiro, que envolvem o comprometimento de altas patentes da polícia e do Governo daquele Estado. Mas sua credibilidade só se abalou perante a camarilha do Planalto, pois perante o povo ele se fortaleceu. Não é demais lembrar que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (que é também investigado), é genro de Moreira Franco, e o domínio eleitoral de ambos é exatamente o Rio de Janeiro. Mas – como eu disse naquele artigo – o ministro da Justiça simplesmente serviu de porta-voz das ruas. Estava certíssimo nas suas declarações.
Se o delegado Segóvia partisse para o lado de amenizar as coisas para essa quadrilha que domina o Brasil, e determinasse uma “operação padrão” na Polícia Federal, estaria sepultando a brilhante carreira para a qual seu currículo apontava.
Mas a imprensa já tinha noticiado, sem economia de palavras e circunstâncias, vários encontros suspeitos entre Temer e Segóvia, o que indiretamente desprestigiava o sério ministro Torquato, a quem se subordinava Segóvia.
Em janeiro de 2018, Segóvia estivera pelo menos duas vezes com Temer, sendo o primeiro na semana em que o presidente ia entregar as 50 respostas à Polícia Federal, justamente no inquérito que estava no centro da polêmica que envolvia Segóvia.
Oficialmente, ambos – o Planalto e Segóvia – informaram que o assunto do encontro, fora da agenda oficial, era discutir um projeto envolvendo polícia fardada. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, que cuidava da segurança pública, e chefe de Segóvia, não fora convidado, como não o foi para a reunião que selou a escolha daquele delegado para dirigir a PF. Nem para a do dia 22 de janeiro, também, segundo o Planalto, para novamente discutir a polícia fardada.
Depois, surgiu como uma bomba a informação de que o delegado Segóvia concedera entrevista à renomada agência de notícias Reuters, quando afirmara que “a tendência era de arquivamento pela PF da investigação envolvendo o presidente Michel Temer sobre o Decreto dos Portos”. Em suma, estava “livrando a cara do presidente”, numa previsível blindagem.
A reação foi imediata, inclusive no seio da corporação, com ácidas manifestação de delegados, que criticavam as declarações do chefe, levando a Reuters a emitir uma corrigenda na nota, quando reeditou a matéria da entrevista. O texto original, publicado na noite de sexta-feira, 9, dizia que Segóvia tinha afirmado que a tendência era de arquivamento pela PF da investigação envolvendo o presidente Michel Temer sobre o decreto dos portos. O episódio causou uma crise interna na Polícia Federal e constrangimento ao delegado Cleyber Lopes, responsável pela apuração, ameaçado na entrevista pelo seu chefe, E, segundo o noticiou a jornalista Renata Loprette, da TV Globo e âncora do “Jornal das 10” no dia 11/02/2018, Cleyber Lopes é desafeto histórico de Fernando Segóvia. Sintomaticamente, desde que Fernando Segovia assumiu a Polícia Federal, em novembro, o presidente Michel Temer discute com auxiliares, ministros e o advogado Antônio Claudio Mariz como trocar o delegado Cleyber Malta Lopes, que conduz o inquérito em que Temer é investigado por supostamente beneficiar uma empresa do setor portos. E parece que a classe estava ao lado de Cleyber. Nos últimos dias, Malta Lopes requereu mais sessenta dias para concluir o inquérito
Na alteração do conteúdo, a Reuters trocou o verbo “afirmar” por “indicar”, ao qualificar as declarações de Segóvia. No início do texto reeditado, a agência faz a seguinte ressalva aos leitores: “Esclarece que Segóvia disse que até o momento não há indício de crime no caso, indicando, em vez de afirmando, que a tendência é que a PF arquive o caso”.
Michel Temer, velha raposa da política, nunca disse se o diretor-geral da PF tinha condições de seguir no cargo. Em visita oficial a Roraima, ele abandonou a entrevista que concedia à imprensa, quando perguntado pela Folha sobre o assunto Os jornalistas presentes insistiram na pergunta, mas Temer apenas sorriu e acenou, sem responder.
O ministro da Justiça, Torquato Jardim, também presente na visita oficial, não apareceu nem no pronunciamento à imprensa, e tem-se negado desde o final de semana a comentar a desastrosa entrevista concedida à Reuters, na qual indicou que o inquérito contra o presidente seria arquivado.
Com a entrevista, delegados da Polícia Federal pressionaram a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) a se posicionar pela demissão do diretor-geral, que em 12 de fevereiro afirmou que não estava nos seus planos pedir demissão.
Em 10 de fevereiro, o ministro Luís Roberto Barroso, relator do inquérito dos portos no Supremo, já cobrava explicações do diretor-geral da Polícia Federal, por ter se manifestado sobre o “mérito” do inquérito, ainda não concluído, ameaçando de sanções o delegado responsável, que deve ter autonomia para desenvolver o seu trabalho com isenção e livre de pressões. Disse, ainda, o ministro que o inquérito tem diversas diligências pendentes, razão pela qual não devem ser objeto de comentários públicos. E que o inquérito não recebeu o relatório final do delegado encarregado, nem parecer da Procuradoria-Geral da República e muito menos qualquer pronunciamento do relator, no caso o ministro Barroso. Na semana passada, dia 19 de fevereiro, Barroso deve ter passado um pito no delegado, recomendando a moderar suas conversas, que pegaram mal, pois expôs um lado proibido da Polícia Federal e ainda excitou a fúria dos próprios colegas. Em seguida, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em 26 de fevereiro último, segundo a revista IstoÉ, pediu ao STF “ordem judicial” para que Segóvia “se abstenha de declarações a respeito de inquéritos em andamento, sob pena de afastamento do cargo”. Com isto, ao comprometer-se perante Barroso a ficar calado, bem como ser ameaçado de afastamento, enfraqueceu-se logo na chegada. E, de resto, foi uma tremenda derrota para os aliados de Temer, e uma grande vitória para o ministro Torquato Jardim.
Quem fala demais dá bom dia a cavalo. Após comandar a corporação por seis anos e dez meses, Daiello saiu, no dia 10 de novembro passado, sem sofrer críticas, dois dias depois de o governo federal ter anunciado om nome de seu substituto, sem cometer qualquer indiscrição. No Ministério Público e na própria Polícia Federal, muitos se perguntavam como Segóvia iria explicar tamanho conhecimento sobre um inquérito em curso e presidido por outra pessoa, por sinal desafeto seu. Isto, fora seus suspeitos e frequentes encontros “fora de agenda” com Temer. A Associação Nacional dos Procuradores da República fez coro com sua congênere da Polícia Federal, e disse que não caber a um diretor-geral da Polícia Federal dar resultados de investigações antes dos policiais responsáveis por elas.
Para inteirar as medidas, no disse-me-disse dos corredores do Planalto discute-se uma medida provisória que daria “autonomia” à PF, com um mandato de três anos para o diretor-geral.
Essas costumeiras audiências “fora de agenda”, no Planalto ou no Jaburu, costumam render dor de cabeça. Tal qual o encontro com Joelson Batista, quando Segóvia, presumivelmente, prometeu aliviar Temer no inquérito, o presidente deve ter dito:
– Tem que manter isso, viu?
Só que a língua de Segóvia se encarregou de derrubá-lo, com pouco mais de três meses de exercício, pois o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi rápido no gatilho: antes mesmo de nomear seus auxiliares diretos, demitiu Segóvia, nomeando Rogério Galloro para seu lugar, que já tinha sido cogitado para o lugar de Daiello, com a vantagem de ser o novo diretor-geral da PF muito bem aceito pela própria instituição. Naturalmente, e como gato escaldado tem medo de água fria, Galloro vai tratar de trancar a língua debaixo de sete chaves, como a prudência recomenda.
Quanto a Segóvia, que no discurso de passagem do cargo, imitou Júlio César, ao passar pelo rio Rubicão após conquistar a Gália, disse “Vim, vi e venci”, recebeu, pelo fracasso de sua curta gestão, uma severa punição: foi nomeado adido policial na embaixada brasileira em Roma, com mais de 50 mil por mês.
Só no Brasil!
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI e da Associação Brasileira de Advogados Criminalistas – Abracrim, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])