Brasil

Os que defendem o impeachment de Dilma Rousseff são todos Eduardo Cunha

Redação DM

Publicado em 11 de novembro de 2015 às 21:29 | Atualizado há 11 anos

Durante as últimas manifestações de rua houve um festival de idiotice pública, dentre as quais, pessoas que pediam a intervenção militar, o fechamento do Congresso Nacional, o fim do Supremo Tribunal Federal e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, mulheres nuas, destruição das obras de Paulo Freire, etc. Todavia, talvez a que mais tenha se sobressaído foi a mensagem de solidariedade ao atual presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha, com os dizeres “somos todos Cunha”. Parecia que se tratava apenas de mais um imbecil que não fazia a menor idéia do que estava dizendo. O tempo, entretanto, incumbiu-me de demonstrar que o protesto possuía sim significado lógico e coerente, pois tratou-se da revelação não apenas daquela gente que tomou as ruas, mas da grande maioria da sociedade brasileira. A expressão “somos todos Cunha”, em uma acepção propedêutica e semântica, significa que impera, na sociedade brasileira, a malandragem, a esperteza, a patifaria generalizada e o deputado Eduardo Cunha é o símbolo, a representação personificada desse cinismo coletivo. Os manifestantes, mais notadamente os propagadores de discursos de ódio e intolerância, são a perfeita tradução de uma característica da sociedade brasileira atual. São os adeptos da máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, onde toda a repreensão moral, o discurso de “justiça”, “fora corrupção”, etc., vale apenas para o outro, mais enfaticamente para aquele que pertence a um segmento social “diferenciado”. É o grito dos hipócritas que elegem uma moral seletiva.

Quando houve a burrada da articulação política do governo federal que possibilitou a eleição de Eduardo Cunha para presidir a Câmara dos Deputados, a primeira pergunta que me ocorreu foi “como isso foi possível”? Em seguida me veio a segunda pergunta: “quando irá cair”? O histórico político e os visíveis sinais do típico carioca malandro deixaram bem claro que era iminente o defenestramento do cargo. A questão não era “se”, mas “quando”. Passado algum tempo, provado e comprovado que Cunha não passa de um bandido da pior estirpe, a sociedade brasileira, do pedestal de sua hipocrisia e cinismo, finge que não sabe de nada e, às vezes, insinua que ele é só mais uma “vítima” das perseguições de uma “política bolivariana”. Incrivelmente, uma parcela significativa da população defende Eduardo Cunha por ele ser um aliado na obsessiva tentativa de golpe contra a presidente da República. A tolerância e, por vezes, o alinhamento político e ideológico, é o reflexo de uma mentalidade imperante na sociedade brasileira. O comportamento apático diante dos gravíssimos e vergonhosos casos de corrupção praticados por Cunha revela uma moral seletiva e o predomínio de cumplicidade com criminosos, desde que pertencentes ou representantes da mesma classe social. Não há um repúdio ao crime em si, há, sim, uma rivalidade entre e um antagonismo social. O discurso da corrupção é, em verdade, a luta de uma classe imbuída em subjugar outra. Os que defendem o impeachment de Dilma Rousseff não são contra a corrupção, mas são contra um partido, contra a presidente, ainda que o país e a grande maioria do povo brasileiro sofram com a paralisia política. Os manifestantes em sua grande maioria são impulsionados por sentimentos de ódio, contrários à vontade expressada nas urnas. Essa sociedade acoberta Eduardo Cunho, esse grande bandido, cínico, dissimulado, que paralisa o país, mantém-se no cargo através da utilização de chantagens, declarando que possui informações que comprometem outros políticos e que, caso seja cassado, levará outros com ele.

Ora, isso é de um absurdo sem precedentes na história política brasileira. O indivíduo mantém-se no cargo de presidente de um dos Poderes da República não porque possui méritos nem por visar aos interesses do país, mas por ser um criminoso assumido e ameaçar levar consigo quem o prejudicar. O Congresso está transformado em uma pandilha onde predominam os interesses pessoais, ainda que flagrantemente criminosos e repugnantes. A elite social brasileira, nesse episódio, escancara a sua cultura de ser estruturalmente delinqüente. A sociedade brasileira não é contra o crime, não é contra a corrupção, não é contra a imoralidade. Ela é contra determinados segmentos sociais, contra pensamentos e idéias que destoem de suas ideologias ou que possam ameaçar de romper com o “status quo”. Nunca si viu tanto ódio dissimulado de “patriotismo” como o que se destila atualmente, desde que as eleições foram decididas através do voto da população menos favorecida economicamente. Há uma ira contra a ascensão econômica e social de parcela do povo brasileiro historicamente espoliado e explorado. Há uma revolta incontida em razão da diminuição da mão de obra barata, da dificuldade e onerosidade de manter-se uma semiescrava em casa, para os serviços incômodos às madames. Afinal, essa história de política social inclusiva rompe com um compromisso histórico que permitiu o simbólico gesto político de abolição da escravidão no Brasil. A oligarquia brasileira, senhores de escravos, transmutada, modernamente, para terminologias eufemísticas como “elite” ou “classe média”, somente aceitou os termos da abolição da escravidão negra desde que as políticas nacionais permitissem conservar na miséria, como “exército de reserva”, um grande contingente de pessoas, desta vez, independentemente da cor da pele, doravante identificados não mais como escravos, mas como os “semi” ou “sub”. Semialfabetizados, subnutridos, semiassalariados, subcidadãos. Essa gente odiosa deve pagar o preço do atrevimento de ter rompido os limites sociais a si estabelecidos. Para tanto, uma legião de estúpidos e retardados mentais pressionam pelo golpe contra uma presidente que, até o momento, nada há contra si que macule a sua honra e honestidade, ao mesmo tempo em que acobertam o que há de pior na política brasileira em termo de falência moral, de delinquência, de saque contra a população brasileira e o país em si. O alinhamento da elite com bandidos da estirpe de Eduardo Cunha é parte do plano de vingança, obstinadamente dirigida a alijar do poder uma presidente legitimamente eleita, porém, indesejada e intolerável politicamente por representar a vontade cívica da maioria do povo brasileiro, os considerados párias sociais. Um elite que sobrevive da delinquência cotidiana, através dos mínimos atos de corrupção que, de tão assimilados, são considerados “normais”, não tem moral para falar de moralidade a um preço tão caro, como o de sobrepujar a vontade expressada nas urnas da grande maioria do povo brasileiro.

 

(Manoel L. Bezerra Rocha é advogado criminalista. [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia