Brasil

“Pensamentos que tenho quando não estou pensando”

Redação DM

Publicado em 23 de junho de 2017 às 21:11 | Atualizado há 9 anos

O que se segue é um relato de agora e posso precisar que tudo que sinto neste momento, e vou escrever, sinto e acontece agora. Não ontem, nem hoje de manhã… Agora.

Agora eu adoraria ser útil ao mundo como foram Grahan Bell ou Antonio Meucci; Santos do Dumont ou irmãos Wright – na imensurável luta pela patente de seus inventos… Todavia sou tão somente a madrasta criadora de meus sentimentos escritos e embora saiba que a patente jamais será minha, porque tais espasmos habitam em todos os que fazem da escrita seu carma dissoluto e se chafurdam no lodo das baixezas de um personagem. Eu mal consigo controlar a minha necessidade das orgias semióticas e do gozo em catarse de um texto na folha branca… branca e pura… Tão pura que me fascina e eu, assim atabalhoadamente, a defloro.

Por isso, neste momento, tentarei reproduzir uma escrita nascida enquanto eu ‘despresto’ atenção das coisas. Porque é quando eu não estou pensando em coisa alguma é que penso nisso e aí surge pelo “ladrão” do texto a voz da minha escrita que vida própria tem.

Não sei por que criei esse eu a quem chamo de escrita emocional e que vez ou outra livra-me do hermetismo. Será que a minha escrita emocional seria bonita se eu acrescentasse aqui palavras difíceis? Não, eu não mancharia com hermetismo a vida parca de minha escrita emocional, porque ela é como um fio de cabelo na sopa–intolerável. Quando eu penso que eu poderia ser ela… Estremeço.

Mas a minha escrita não sabe que eu existo. Se soubesse teria para quem rezar. Eu seria o seu Deus e meus ouvidos cansariam de ouvir suas queixas e talvez eu fosse por alguns instantes benevolente e tiraria a minha escrita emocional da gravidez crônica de si mesma. É isso. Minha escrita emocional é crônica! E nem eu, sendo seu Deus, poderia ser-lhe obstetra.

Agora, nada leio para não contaminar com luxuosas palavras a simplicidade de seu romantismo barroco. Hei de fazer apenas alguns malabarismos de entonação, obrigando assim o leitor a respirar a linguagem do texto.

Por que gosto tanto dessa coisa frouxa e rasa se tudo que desejo é escrever sonetos alexandrinos? É que a minha escrita emocional tem um sussurro que me impressiona. Ela sempre, todos os dias, se olha através de mim por um espelho que emoldura os meus cabelos e isso combina muito com sua vida desarranjada. Mas ela não sabe o que ela é, assim como uma parede não sabe que é uma parede.

A culpa é minha, eu sei. Eu tenho ciência de tê-la deixado assim e de ser por meio dela que demonstro o meu horror por certas coisas. Ela com sua aparência assexuada, com seu dia-a-dia em passos lentos, como uma preguiça comendo brotos nas árvores, sem nunca se importar com a realidade. A realidade não diz coisa alguma à minha escrita emocional. Nem a mim, oh, Deus!

Ela precisa de mim para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos labirintos que há em sua vida seca. Seca como um pacote de biscoitos esfarelados. Quando eu penso que eu poderia ter nascido ela – arrepio.

Estou passando por um pequeno inferno com esta crônica e queira Deus que eu nunca descreva Ló, senão viro uma estátua de sal. Sou, na verdade, apaixonada por minha escrita emocional, pela sua feiura e anonimato. Por esse seu ninguém que é a minha referência. Por ela ser supersônica de doidices e por viver, por minha causa, como um girassol num túmulo. Culpa minha, total e máxima culpa, por desejar que ela adormeça para eu dormir também. Melhor seria se eu a matasse, mas morrer é um instante – passa logo!

(“Pensamentos que penso quando não estou pensando”–é o título de um livro do mestre Rubem Alves)

 

(Clara Dawn, romancista e produtora de conteúdo do Portal Raízes–portalraizes.com)


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