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PF aponta braço de intimidação e infiltração no Estado em esquema atribuído a Vorcaro

DM Online

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 19:16 | Atualizado há 60 minutos

Vorcaro está preso e tenta firmar acordo de delação premiada em meio às investigações sobre supostas fraudes bilionárias ligadas ao Banco Master | Foto: Agência O Globo
Vorcaro está preso e tenta firmar acordo de delação premiada em meio às investigações sobre supostas fraudes bilionárias ligadas ao Banco Master | Foto: Agência O Globo

Documentos sustentam que suspeitas inicialmente concentradas em operações financeiras bilionárias evoluíram para a identificação de uma estrutura que, segundo os investigadores, teria sido usada para obter informações protegidas, influenciar servidores públicos, constranger críticos, interferir no ambiente informacional e antecipar movimentos das autoridades.

A peça, datada de 27 de fevereiro de 2026 e dirigida ao ministro André Mendonça, reúne elementos relacionados aos inquéritos 5026 e 5035 e a outras petições que tramitam no Supremo. A PF representa por prisões preventivas, afastamento de função pública, medidas cautelares diversas da prisão e suspensão de atividades econômicas.

As afirmações são da Polícia Federal e fazem parte de uma investigação. A representação não equivale a uma condenação, e as pessoas citadas devem ser consideradas inocentes até eventual decisão judicial definitiva. O documento analisado não reúne, de maneira sistemática, as manifestações das defesas de todos os mencionados.

O ponto de partida é a investigação sobre crimes contra o Sistema Financeiro Nacional relacionados à gestão do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. A PF afirma que a instituição captava dinheiro oferecendo CDBs com remuneração de 120% do CDI ou mais e direcionava recursos para fundos de maior risco e ativos de baixa liquidez. Em meio à crise de liquidez, o banco também teria recorrido a recursos de regimes próprios de previdência.

Mas é a conexão com o BRB (Banco de Brasília) que dá dimensão bilionária a uma das frentes do caso.

Segundo a PF, o BRB aportou cerca de R$ 12 bilhões no Master por meio da aquisição de carteiras de empréstimos consignados que os investigadores classificam como de “origem altamente duvidosa” e que teriam se revelado, ao menos parcialmente, inexistentes ou inadimplentes. A investigação menciona ainda a Tirreno, empresa recém-criada que teria participado da cadeia de cessão dos direitos creditórios. Após questionamentos e auditoria do Banco Central, os créditos teriam sido substituídos por outros ativos cuja valoração também foi questionada.

Outra frente tenta descobrir para onde foi o dinheiro captado pelo Master. A PF afirma ter encontrado indícios de recursos direcionados a FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), alguns deles com o próprio banco como cotista único. Por meio de cadeias de fundos, o dinheiro teria financiado a compra de ativos classificados pelos investigadores como “podres”, ligados a empresas indiretamente relacionadas a familiares de Vorcaro.

É a partir da análise dos aparelhos e demais materiais apreendidos na Operação Compliance Zero, porém, que a investigação assume outro contorno.

PF aponta suposta infiltração no Banco Central

Uma das acusações mais sensíveis da representação envolve dois servidores que ocupavam posições relevantes no Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central: Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Desup, e Belline Santana, então chefe do departamento.

Segundo a PF, mensagens encontradas no telefone de Vorcaro indicariam que os dois mantinham uma relação incompatível com a distância esperada entre fiscalizador e fiscalizado.

No caso de Paulo Sérgio, a investigação afirma que o contato documentado remonta a outubro de 2023. O servidor teria enviado orientações sobre assuntos que deveriam ser destacados por Vorcaro em reuniões, discutido negócios do conglomerado e revisado documentos.

Em um dos episódios descritos, a PF afirma que Paulo Sérgio teria atuado para tentar reverter um posicionamento relacionado à aquisição do Will Bank. Em outro, teria revisado documentos elaborados pelo próprio Master — inclusive minutas destinadas ao departamento em que trabalhava.

A representação também registra que, em fevereiro de 2025, o servidor teria alertado Vorcaro sobre uma movimentação de centenas de milhões de reais que havia sido capturada por um filtro de monitoramento.

Para a PF, a relação ultrapassava o contato institucional.

Em conversa com o cunhado Fabiano Zettel reproduzida na representação, Vorcaro teria resumido a ajuda recebida de Paulo Sérgio dizendo que o servidor estava sendo “um anjo na vida”.

A relação com Belline Santana também teria começado em 2023. Segundo a PF, ele revisava documentos estratégicos do Master, participava de conversas sobre os interesses da instituição e teria se reunido com Vorcaro inclusive na residência do banqueiro.

Em outubro de 2025, afirma a investigação, Belline criou um grupo de WhatsApp chamado “Master”, formado por ele, Paulo Sérgio e Vorcaro. A PF interpreta as conversas como indício de atuação conjunta em benefício do banco.

A representação diz ainda ter encontrado indícios de vantagens econômicas relacionadas aos servidores.

No resumo apresentado pela PF aparecem pagamentos supostamente dissimulados por contratos fictícios e empresas intermediárias, organização de viagem à França, custeio de viagem à Disney e uma aquisição considerada atípica de imóvel rural de Paulo Sérgio. Os investigadores citam Fabiano Zettel, Leonardo Palhares e Ana Claudia Queiroz de Paiva entre os operadores da engrenagem financeira que teria sido utilizada nesses repasses.

Nas conclusões sobre as cautelares, a PF afirma ter encontrado “graves indícios” de vantagens indevidas mensais e aponta a Varajo Consultoria como uma empresa cujas contas teriam funcionado como passagem de dinheiro. A representação atribui pagamentos a Zettel e Ana Claudia, sob ordens de Vorcaro.

O Banco Central, segundo a própria representação, já havia afastado administrativamente os dois servidores de suas funções de confiança. A PF, contudo, pede medida mais ampla: suspensão do exercício da função pública, proibição de acesso às instalações do BC e bloqueio dos acessos físicos e digitais aos sistemas da instituição.

O homem chamado de “Sicário”

O segundo eixo da investigação é ainda mais grave.

A PF afirma que Vorcaro mantinha uma relação de prestação de serviços com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado na peça de Felipe Mourão e identificado nas conversas pelo apelido de “Sicário”.

Segundo a investigação, Mourão recebia R$ 1 milhão por mês, com pagamentos viabilizados por empresas relacionadas a Fabiano Zettel e Ana Claudia Queiroz de Paiva. Parte dos recursos seria retida por Mourão e outra parte distribuída às pessoas que trabalhavam para ele.

O que a PF atribui ao grupo vai muito além de segurança privada.

A representação diz ter encontrado indícios de consultas e extrações ilegais de dados de sistemas internos do Ministério Público Federal, da Senasp e da própria Polícia Federal, inclusive informações referentes a procedimentos sigilosos ou submetidos a segredo de Justiça.

Os acessos, segundo os investigadores, teriam sido realizados com credenciais funcionais de terceiros, inclusive servidores públicos na ativa.

A PF afirma ainda que documentos e endereços institucionais teriam sido empregados para acionar canais reservados a autoridades em plataformas digitais, simulando solicitações oficiais para obter informações ou retirar perfis do ar.

A descrição da estrutura ganha caráter de coerção física em outro conjunto de mensagens.

Segundo a representação, há conversas sobre ordens para “ir para cima” de desafetos, referências ao emprego de policiais ou milícias, planejamento de agressões, acompanhamento presencial e coleta de informações pessoais de jornalistas, ex-funcionários e empresários.

A PF chama esse núcleo de “Turma”.

Um dos nomes apontados como integrante de destaque é Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado em 2022. De acordo com a representação, ele aparece em diálogos como responsável por conduzir a “Turma” no cumprimento de tarefas transmitidas por Mourão.

Em um episódio, o grupo teria sido mobilizado para descobrir quem operava um drone nas proximidades da residência de Vorcaro, em Minas Gerais. A PF reproduz mensagens e áudios segundo os quais Roseno estava no local e buscava identificar pessoas envolvidas.

Reportagens, perfis e reputação

Há ainda um terceiro braço descrito pela investigação: a tentativa de controlar o ambiente informacional em torno de Vorcaro e do Master.

A PF afirma que o material apreendido registra remoção de conteúdos jornalísticos e perfis, comentários positivos coordenados, elevação artificial de avaliações de aplicativos e negociações financeiras com profissionais e veículos para produzir material favorável ou reduzir o impacto de notícias negativas.

Um diálogo de setembro de 2024 reproduzido pela PF tornou-se peça central dessa tese.

Vorcaro havia enviado a Mourão uma reportagem do site Diário do Centro do Mundo sobre um processo na CVM envolvendo o dono do Master e seu pai.

Segundo a transcrição da PF, o banqueiro reclama da reportagem e cobra providências. Em seguida, afirma:

“Tem que derrubar urgente.”

A representação registra que Mourão posteriormente enviou uma imagem indicando que a publicação já não estava disponível e informou que seria tentada a criação de um filtro interno para impedir novas publicações com referências ao Master.

É importante ressaltar que a documentação apresentada pela PF contém a interpretação dos investigadores sobre essas conversas. A existência de uma mensagem, isoladamente, não comprova todos os nexos ou crimes que a autoridade policial atribui ao episódio.

Influenciadores e o “Projeto DV”

A ofensiva reputacional teria prosseguido depois da liquidação do banco.

A PF abriu o inquérito 5035 para investigar suspeitas de que influenciadores digitais teriam sido procurados para criticar autoridades responsáveis pela fiscalização e pela liquidação do Master.

Segundo a representação, a Febraban identificou ataques ao Banco Central nas redes sociais que aparentavam constituir uma ação coordenada. A peça também registra relatos de ofertas que teriam chegado a R$ 2 milhões para produção de conteúdos favoráveis ao Master.

Um dos relatos citados é o do vereador Rony Gabriel. Conforme a representação, um representante da empresa UNLTD teria procurado seu assessor em dezembro de 2025 para oferecer um trabalho de gerenciamento de reputação e crise.

Antes de saber quem seria o cliente, o potencial contratado teria de assinar acordo de confidencialidade com multa de R$ 800 mil.

Depois da assinatura, segundo o relato incorporado pela PF, teria sido revelado que o objetivo era produzir vídeos com a tese de que o Banco Master fora vítima de uma liquidação indevida promovida pelo Banco Central.

O projeto teria sido chamado de “Projeto DV”, numa referência que a investigação associa às iniciais de Daniel Vorcaro.

Para a PF, esses episódios não seriam ações isoladas de relações públicas. Os investigadores procuram vinculá-los ao mesmo sistema de financiamento e operadores que aparece nos outros núcleos da investigação.

PF diz que operação vazou antes de ser deflagrada

Outra parte da representação tenta responder a uma pergunta particularmente delicada: Vorcaro sabia que seria alvo da Polícia Federal antes da operação?

A conclusão dos investigadores é afirmativa.

A primeira fase da Compliance Zero foi deflagrada em 18 de novembro de 2025. Segundo a PF, a análise dos aparelhos apreendidos revelou movimentações de Vorcaro nos dois dias anteriores que seriam compatíveis com conhecimento antecipado da operação.

Na noite de 17 de novembro, o banqueiro foi interceptado no aeroporto de Guarulhos, quando, de acordo com a representação, estava prestes a embarcar em um jato particular cujo destino final seriam os Emirados Árabes Unidos.

A PF afirma que Vorcaro tomou conhecimento antecipadamente da operação “por meios ilícitos” e menciona duas possíveis fontes: servidores do Banco Central ou um contato proveniente de Walfrido Warde.

Segundo a cronologia apresentada pelos investigadores, no próprio dia 17 houve articulação de uma reunião com o BC. Horas depois, Vorcaro foi interceptado no aeroporto. A operação seria oficialmente deflagrada no dia seguinte.

Há, contudo, uma circunstância relevante para a defesa registrada no próprio documento.

Ao revogar anteriormente uma prisão preventiva, uma decisão judicial considerou, entre outros elementos, documento segundo o qual Vorcaro havia comunicado ao Banco Central, em reunião por videoconferência no dia 17, que viajaria naquele mesmo dia a Dubai para assinar a venda do banco.

A nova representação tenta justamente modificar a leitura daquele episódio à luz das evidências encontradas posteriormente.

PF fala em risco à integridade de investigadores

Nas páginas finais, a Polícia Federal eleva o tom.

Os investigadores dizem que a estrutura atribuída ao grupo representaria risco concreto não apenas à coleta das provas, mas à integridade física de agentes públicos responsáveis pelo caso.

A PF identifica Vorcaro como comandante, Zettel como responsável por um braço financeiro, Mourão como “sicário” e a “Turma”, liderada segundo a investigação pelo policial federal aposentado Marilson Roseno, como núcleo operacional.

É também nessa parte da representação que aparece uma cifra de outra ordem de grandeza.

A PF afirma que Vorcaro e outros investigados ocupam posição central no episódio que descreve como “a maior fraude bancária da história brasileira” e cita prejuízo estimado em aproximadamente R$ 52 bilhões apenas para o Fundo Garantidor de Créditos. Trata-se de uma estimativa registrada pela autoridade policial na representação, e não de valor estabelecido por sentença judicial.

A argumentação é utilizada para justificar a adoção de novas prisões preventivas.

Segundo a PF, fatos relacionados a influenciadores e ao chamado Projeto DV indicariam que determinadas ações continuaram mesmo depois da prisão de Vorcaro e de sua posterior soltura pelo TRF-1, em 28 de novembro de 2025.

Uma investigação que mudou de dimensão

A tese da Polícia Federal é que teria se formado ao redor de Vorcaro uma estrutura com diferentes funções: operadores financeiros para movimentar dinheiro; servidores públicos capazes de oferecer informação e influência; pessoas com acesso a bases sigilosas; um grupo utilizado para vigilância e intimidação; e agentes voltados à administração da reputação pública do banqueiro e do Master.

Segundo a PF, os pagamentos suspeitos a servidores do Banco Central e os repasses para a “Turma” teriam inclusive utilizado estruturas financeiras semelhantes. Na parte dedicada às cautelares, os investigadores citam Super Empreendimentos, King Participações, King Motors e Varajo Consultoria entre as pessoas jurídicas que teriam sido usadas para movimentar recursos.

Por isso, a PF não pede apenas prisões.

Para Paulo Sérgio, Belline e outros investigados que não são colocados no núcleo armado, a representação sustenta medidas como proibição de contato, restrições de deslocamento e monitoramento eletrônico. Para empresas apontadas como instrumentos da movimentação financeira, pede suspensão das atividades econômicas ou financeiras.

A lista final inclui, entre outras, Varajo Consultoria, Moriah Asset, Super Empreendimentos, King Participações Imobiliárias e King Motors.

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