Política ou economia?
Redação DM
Publicado em 4 de junho de 2016 às 02:53 | Atualizado há 10 anosNinguém pode negar que as questões econômicas são importantes para um país, mas não é menos verdade, também, que elas estão sufocando e destruindo o sentido próprio da política.
Se analisarmos atentamente aquilo que está sendo denominado de cenário político mundial, principalmente o modo como ele se apresenta atualmente, não teremos outra alternativa senão denunciá-lo veemente. Afinal, o que se chama de “política” hoje, não passa, na verdade, do sufocamento do seu verdadeiro sentido através da invasão gananciosa e dominadora dos interesses privados sobre os interesses públicos. Utiliza-se a máscara da política para se obter ganhos materiais e privados, ou seja, o nome da política serve hoje apenas como um disfarce para que os interesses econômicos privados e de um determinado grupo se impõe definitivamente sobre os interesses públicos. Para dizer de outro modo, o cenário caótico no qual vivemos hoje, nem se quer deveria ser chamado , por exemplo, de uma época de crise do sentido da política, mas da total ausência dessa prática inventada pelos gregos antigos. A frequente utilização da palavra política hoje, não tem absolutamente nada a ver com a defesa do bem comum de todos, mas serve apenas como uma máscara descarada utilizada por aqueles que insistem em falar em nome da política apenas para conseguir resolver os próprios interesses, ou seja, eles utilizam o discurso do bem comum como disfarce para defender os interesses econômicos privados, seja pessoal, do grupo ou do partido; nesse sentido, por todos os lados, por mais que se fale em questões políticas e interesses públicos, o que se quer defender, na verdade, são as questões econômicas privadas, e quando isso acontece não se pode mais falar em política, pois ela já está reduzida à economia e, consequentemente, não existe mais.
A política não é vista atualmente como o campo de participação efetiva dos cidadãos e nem como espaço onde o bem comum de todos é prioridade, mas um palanque para propagar discursos inflamados sobre questões econômicas que, infelizmente, apenas beneficiam aqueles que discursam e os grupos a eles ligados. Por isso, o que se vê atualmente é que a política, no seu verdadeiro sentido, além de estar totalmente ausente, uma vez que aqueles que participam dela são uma minoria abastada ou que pretendem adquirir o máximo possível de ganhos materiais, também não é mais sequer servida pela economia; a situação se inverteu há muito tempo, apesar da insistência de muitos em dizer o contrário, ou quem sabe, em esconder a verdade deliberadamente; hoje, qua ndo se fala em “política”, não é para tratá-la como uma atividade livre cujo objetivo é o interesse comum dos iguais, mas simplesmente para utilizá-la como serva da economia e dos interesses privados de uma minoria; se para os antigos falar em termos políticos significava falar de ética, virtude e bem comum, hoje significa difamação e ataques pessoais, mas significa também uma defesa vigorosa dos interesses econômicos próprios como se a coisa pública fosse uma máquina de ganhar dinheiro destinada ao indivíduo escolhido para administrá-la para o bem de todos. Não existe hoje, portanto, nenhuma atividade capaz de ser denominada de atividade verdadeiramente política, mas estamos abarrotados de atividades econômicas e de defesas de interesses próprios que, em termos gerais, não medem esforço para conseguir seus objetivos, ainda que para isso seja necessário submeter um povo inteiro à miséria, à mentira, à humilhação e ao sofrimento.
(José João Neves Barbosa, filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e editor da Griot: Revista de Filosofia)