Brasil

Profetas e direitos humanos

Redação DM

Publicado em 20 de dezembro de 2016 às 01:44 | Atualizado há 10 anos

No final do século 18, Thomas Jefferson escreveu, no Preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos, que todas as pessoas nascem livres e devem viver a sua vida em liberdade, sendo a liberdade um direito constitutivo da dignidade da pessoa. Este foi um passo importante, que só se realizaria, formalmente, muito tempo depois, por exemplo, com a Declaração dos Direitos Humanos, em 1949. As suas palavras e o seu engajamento, tanto na revolução americana quanto na revolução francesa, marcaram o início da era das declarações: o tempo das declarações que afirmam a dignidade da pessoa humana com direitos inalienáveis. Como fazendeiro e dono de escravos, Jefferson se expressou em um contexto que não conseguia acomodar, naquele momento, as palavras declarativas da liberdade das pessoas. Neste sentido, suas palavras foram proféticas.

Os profetas, desde os tempos bíblicos, são personagens que, com suas ações e palavras, transcendem o seu tempo, vislumbrando algo novo no horizonte, que espera por sua realização. Aquelas figuras eternizadas pelo artista Aleijadinho, em vários lugares de Minas, foram portadoras de palavras e ações simbólicas que anteciparam no tempo os vislumbres de que as pessoas mais vulneráveis devem ser referência para as ações no campo social e político. São figuras com nomes inscritos no imaginário ocidental, tais como Amós, Miqueias, Isaías, Jeremias, Sofonias, Ezequiel, Miriã e João Batista. Jesus, que na tradição cristã é celebrado como o redentor, também figura entre os profetas, sendo como tal celebrado pela tradição islâmica. Todos esses personagens proféticos apresentaram suas palavras militantes em defesa da dignidade das pessoas, denunciando no mesmo compasso as atrocidades de poderosos e governantes que, com suas arquitetadas ações, atentam contra a vida e a dignidade dos mais pobres. No caso desses profetas bíblicos, as mensagens são tecidas em palavras de revelação, dando a conhecer que Deus se coloca ao lado dos humildes para, junto a eles, transformar a história, na busca pela realização de vida plena. Eles afirmaram, assim, o direito dos pobres. Com o recurso à revelação divina, os profetas realizam um empoderamento dos fracos, indicando que, como depois afirmou o apóstolo Paulo, é na fraqueza que as pessoas se tornam fortes.

A história contemporânea apresentou várias figuras proféticas que fizeram emergir novos direitos e novas perspectivas. Prontamente me ocorre a figura de Mahatma Gandhi, que, em toda a sua fragilidade, obteve êxito, por meio de sua filosofia da não violência e da libertação da Índia (e do Paquistão) em relação à dominação colonial inglesa. Martelar a consciência dos fortes foi uma de suas palavras de ordem, enquanto exercitava a resistência ativa não violenta. Na mesma senda se inscreve o norte-americano Martin Luther King e sua perseverante luta em prol do direito de voto para os negros nos Estados Unidos. Nelson Mandela, na colonial África do Sul e sua política de apartheid, realizou ao longo de seus 27 anos de prisão um caminho mental da luta armada para a não violência. No horizonte de suas palavras e ações estava a visão de que brancos e negros poderiam conviver num mesmo país com direitos iguais.

Na história brasileira se pode encontrar muitos personagens que podemos chamar de profetas. Um deles, por sinal, leva o título de “Profeta Gentileza”, uma figura que ainda conheci pessoalmente nas ruas do Rio de Janeiro. Trajado com seu manto branco, pregava, inscrevia e vivia a sua filosofia de que “gentileza gera gentileza”. E, claro, sem demérito de tantos outros, em tantas lutas importantes, deve-se fazer referência a Betinho, o qual, em sua frágil constituição física, conseguiu agregar milhares de pessoas em torno de sua campanha “Natal sem fome”. Num país que tinha (e ainda tem) tantas pessoas que não têm o que comer, mas o qual também é, contraditoriamente, um campeão do desperdício de comida, mobilizar pessoas, comunidades e até governantes em prol da satisfação do direito humano básico à alimentação, foi um gesto profético. Programas governamentais procuram dar seguimento àquelas ações simbólicas, com tantas e tantas histórias comoventes de sucesso. Infelizmente, a ganância e a falta de sentimento humanitário e pátrio acabaram desvirtuando vários programas em seus processos de aplicação.

Figuras proféticas são caras à história da humanidade. Muitas vezes são trajetórias marcadas por sofrimento, que, contudo, no andar contraditório da história, descortinam novos horizontes, que podem se efetivar de forma diferente nos processos de recepção. Em todo caso, cabe uma postura de abertura para o outro e por busca de discernimento.

 

(Haroldo Reimer, professor e reitor da UEG; graduado em Teologia, Filosofia e Direito; pós-doutor em História pela Unicamp; bolsista de produtividade em pesquisa pelo CNPq/MCTIC. E-mail: [email protected].)

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