Programas na TV e rádio são a última esperança de reação de Zé Eliton e Daniel
Redação DM
Publicado em 22 de agosto de 2018 às 23:34 | Atualizado há 8 anos
Os programas de televisão e rádio do horário eleitoral gratuito vão começar no dia 31 próximo, uma sexta-feira (aziaga, pois se invertermos o 31 teremos um 13), e se encerrarão no dia quatro de outubro, que cairá numa quinta-feira, a três dias da data da eleição em 1º turno. As emissoras de rádio e TVs reservarão 25 minutos, em dois períodos do dia, por volta de 13 horas e depois às 20h30, para propaganda em bloco dos candidatos, sendo que os postulantes ao cargo de governador (nove minutos), deputados estaduais (nove minutos) e senadores (sete minutos) veicularão propaganda às segundas, quartas e sextas. Acrescentem-se as pílulas de 30 segundos esparramadas pela programação diária, em número proporcional ao tempo que cada candidato terá.
Para Goiás, em especial, interessam os nove minutos e as pílulas que serão divididos entre os candidatos a governador. Mais especialmente ainda, a maioria de minutos e segundos que tocarão a Ronaldo Caiado, Zé Eliton e Daniel Vilela. Eles repartirão um tempo razoavelmente equilibrado, depois que a coligação liderada pelo PSDB perdeu cinco partidos e se reduziu quase à metade do seu tamanho, vendo esvair-se pelos dedos uma preciosa fatia da duração dos programas – preço alto demais a pagar pela inabilidade e falta de liderança política, já que Zé Eliton é um candidato que sempre pontuou muito mal nas pesquisas e necessitava da maior exposição possível para tentar o improvável, que é reverter a eleição a seu favor.
Como só faltam oito dias para o início do horário eleitoral, Caiado, Zé (é estratégia do marketing palaciano chamá-lo assim, acreditando que facilita a identificação popular do seu nome) e Daniel já estão gastando parte das suas agendas com a gravação das suas participações. Caiado enfrentará o desafio de manter a sua liderança, hoje em torno de 30 pontos ou 1.000.000 de votos de frente sobre os adversários e o conforto da perspectiva de vencer no 1º turno. Zé e Daniel correrão atrás de um milagre, um buscando se descolar do outro, pois, como se sabe, estão empatados no 2º lugar nas pesquisas. Não vai ser fácil.
De cara, o que os telespectadores já enfastiados com a política vão ter na telinha é uma fragmentação que nunca houve antes. Em nove minutos, sete candidatos aparecerão para a suas mensagens. Compactados nesse curto espaço de tempo, cada um (e alguns terão menos de 10 segundos para isso) terá que se virar para se comunicar da maneira mais eficaz para se apresentar, expor suas propostas, de alguma maneira criticar os concorrentes e mais o que julgar importante para a conquista do voto. É uma tarefa para gigantes do marketing político.
20 ANOS DE PODER
Zé carrega um peso adicional nas costas: o fardo dos 20 anos de poder do Tempo Novo, que o obrigará a apresentar nos programas um relatório do que já foi feito, sob pena de desagradar seu tutor Marconi Perillo. Não à toa, o escopo do seu plano de governo é a continuidade dos Vapt Vupt, Renda Cidadã, Cheque Moradia, Bolsa Universitária e tudo o mais que se tornou a marca das duas décadas de governos marconistas. Não falar nisso seria considerado uma traição inaceitável. O “legado”, assim, irá consumir segundos e minutos preciosos que Zé poderia otimizar com assuntos mais produtivos eleitoralmente, como a sua visão de futuro para Goiás e os goianos, por exemplo – eleições não são plebiscitos para aprovar o que já foi, o que já era.
A vantagem de Caiado, no rádio e na TV, é que não terá de falar de passado. O posicionamento da sua candidatura é o mais fácil de todos e se resume é uma palavra, porém a de maior peso em qualquer eleição, em qualquer lugar: mudança. É muito simples. Não é preciso ser um João Santana ou um Duda Mendonça ou um mago qualquer da comunicação para vender esse peixe. O eleitor compreende essa proposta com total clareza. Isso significa que os programas de Caiado, para não atingir o seu público e levá-lo a perder votos, teriam que ser muito, mas muito ruins. Se forem medianos, estarão em boa medida. Ótimos, melhor ainda.
No caso de Zé e de Daniel, a necessidade é outra. Seus programas terão que ser de qualidade elevadíssima, tanto na forma quanto no conteúdo, com um padrão de criatividade que não os torne complexos e de difícil absorção. Ou exagerados demais, erro em que a fartura de recursos do governismo tem chance de incorrer. De cada 10 espectadores que estarão a assistir, seis são eleitores de Caiado, um de Zé, um de Daniel e os dois restantes ou indecisos ou votando branco ou nulo. Não estão incluídos aí os que se ausentarão das urnas. É essa a conta que salta do resultado médio de todas as pesquisas de credibilidade publicadas até agora.
TV NUNCA
INFLUENCIOU
Mas a pergunta que se faz é uma só: os programas de rádio e TV irão influenciar o eleitor? Se sim, terão capacidade para inverter o resultado desenhado até agora e em que proporção, fazendo com que Zé e Daniel ou um ou outro tirem votos de Caiado e provoquem um 2º turno? (Zé roubar votos de Daniel e vice-versa não vai adiantar de nada). Ou o eleitor enfastiado e desiludido com a classe política receberá com apatia esses programas, assim como está reagindo friamente às carreatas, e fará questão de colocar um ponto final nessa corrida desinteressante e azucrinante logo no 1º turno? O que, realmente, podemos esperar da temporada eleitoral no rádio e na televisão?
Tenho as minhas respostas a essas perguntas. Os programas de rádio e TV, pelo menos em Goiás, influenciam muito pouco o eleitor. Quando há mudanças no cenário, como em 1998, quando Marconi saiu de índices ínfimos nas pesquisas para no final vencer Iris Rezende, a comoção que permitiu esse resultado começou nas ruas e apenas se refletiu no que foi dito e mostrado no palanque eletrônico. Da mesma forma, na eleição de Alcides Rodrigues, que também se constituiu em uma reviravolta espetacular sobre Maguito Vilela, o que produziu esse fenômeno foi a extraordinária capacidade de impulsionamento exibida por Marconi, naquela época, depois de sair do governo com mais de 80% de aprovação e se apresentar como candidato ao Senado com 77% de intenções de voto.
CAIADO LEVA
VANTAGEM
Os programas de rádio e TV foram coadjuvantes, não motivadores. Complementaram uma situação, não a criaram. Na atual eleição, como das ruas não virá nenhuma novidade, com os candidatos se equivalendo em seus atos de campanha, enfrentando um público gelado e arredio, não há espaço para uma súbita transformação do horário eleitoral em elemento decisório do que virá das urnas. Nem Caiado nem Zé nem Daniel, em princípio, são líderes tão carismáticos ou tão competentes que meras falas e imagens suas poderiam levar a um processo de entusiasmada adesão em massa. Não mesmo. Caiado é melhor, nesse quesito, mas não demais.
O que se deve esperar da nova etapa de campanha que se iniciará no dia 31 de agosto é quase nada. Na última pesquisa Serpes, apenas 13% dos entrevistados admitiram considerar na sua decisão de voto os programas no rádio e na TV. A formação do que o eleitor vai decidir ao teclar na urna eletrônica é compartilhada com outros meios de informação, como a internet, a imprensa, a opinião da família e até conversas com os amigos, em um ranking onde o horário eleitoral fica em 5º lugar por ordem de importância.
Zé e Daniel precisam de um milagre. Um aconteceu em 1998, mas é preciso reconhecer que a conjuntura do Estado, naquela ocasião, oferecia condicionantes e fundamentos para a derrocada do irismo (que tinha o mesmo discurso do Tempo Novo hoje, isto é, a exigência do voto de gratidão pelo que foi feito, pelo passado). No presente momento, não há nada parecido. Se há um candidato que tem a sua eleição justificada pelo giro da roda da história, em pleno 2018, é Caiado.
(José Luiz Bittencourt, jornalista e autor do Blog do JLB – blogdojlb.com.br)