Brasil

Qual Consciência? Qual negro?

Redação DM

Publicado em 23 de novembro de 2020 às 11:42 | Atualizado há 6 anos


Por Marcela Iossi Nogueira

As pessoas insistem em invisibilizar anos de escravidão, tortura, marginalização e preconceito com frases clichês. No início da semana, quando pensava em um tema para escrever, me veio à mente o livro “the help”, que já se transformou em um grande sucesso nas telas do cinema sob o nome de “histórias cruzadas”. O livro, ou filme, o que você preferir, conta a história de uma empregada doméstica que, a partir da provocação (no bom sentido) de uma jornalista, começa a escrever histórias sobre aquilo que viveu enquanto mulher negra que é.

Ela cruza histórias de todas as outras amigas negras na mesma posição, para revelar os absurdos sofridos por cada uma em razão de serem negras e de serem as “ajudantes” em casas de pessoas brancas ricas. Em momento algum sugiro que pessoas brancas e ricas têm necessariamente que ser preconceituosas, o que o próprio livro frisa através de personagens queridíssimas que pregam igualdade, mesmo na condição de hegemonia em que se encontram.

Bom, a ideia ecoou em razão de estarmos na semana da consciência negra e, foi tomando forma a cada dia quando ouvia um “é preciso ter um dia da consciência humana”, ou um “vidas negras importam, mas é melhor dizer vidas humanas importam”. Vejamos senhores e senhoras, sabemos que vidas brancas importam, sabemos que seres humanos de maneira geral fazem jus à direito fundamentais que lhes garantam uma vida digna.

Mas qual branco já teve que usar um banheiro separado da casa em razão de sua cor da pele? Qual branco não pode se sentar em uma mesa com seus iguais em razão de sua raça? Qual branco teve suas práticas religiosas questionadas em um tribunal superior? Qual branco já viu pessoas se levantarem quando entrava em um determinado lugar e sair ao som de “não sou obrigado a viver com gente desse tipo?” Qual branco??? pergunto eu…

E o tema, já pronto, ia tomando forma em minha mente quando no dia de refletir sobre essas questões, o dia já marcado pela morte de Zumbi dos Palmares, outro fato nos chama atenção. João Alberto, homem, negro, cheio de culpas que agora lhes são atribuidas em razão de justificar um aperto em torno do pescoço que lhe faria faltar o ar até que seu coração deixasse de bater. João Alberto, deitado no chão após ser covardemente atacado por “vigilantes” de um supermercado. João Alberto, morto, depois de pedir socorro!Agora pairam as frases “mas ele era fichado”… “mas ele deu um soco antes”… “mas…”. E diante disso me pergunto, MAS QUAL BRANCO…?

Se faz pungente a necessidade de questionar o tal Estado Democrático de Direito em que vivemos, se democrático deveria ir de encontro aos preceitos de toda a sociedade, sem ignorar a ninguém; se de Direito deveria seguir regras, garantir liberdades fundamentais e a igualdade postulada em uma Constituição que deveria se erguer por cada um de nós e contra cada um de nós em razão de se fazer cumprir.

A tal igualdade, pela Constituição Federal pregada, já lá vai esquecida em meio a tantas palavras e expressões que se grifam em sua páginas, clamando por ser vista, clamando por ser ouvida, mas já asfixiada, gritando por socorro, já quase sem ar, sussurrando … “qual negro?”

Marcela Iossi Nogueira – Advogada, pós graduada e mestre em Direito pelo Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora na área de direito das minorias e direito penal. Professora de Direito Constitucional e Penal.


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