Brasil

Reformas…

Redação DM

Publicado em 5 de março de 2017 às 01:29 | Atualizado há 9 anos

Esta palavra nunca sai de moda: Reforma!

E é interessante notar que muitas vezes vem no plural.

Queremos sempre mais de uma reforma: sempre estamos insatisfeitos não apenas com uma, mas com várias coisas, de modo que buscamos, queremos e clamamos por mais de uma reforma, para corrigir isto, aquilo e aquilo outro no meio que nos cerca, sejam as pessoas ou as coisas.

No meio político, então, esta palavra ressoa e navega pelos ambientes palacianos, em meio às Assembleias, no burburinho das confidências e acordos de conveniências.

Eu era ainda muito jovem quando ecoou o grito da reforma agrária. Escreveu-se um estatuto da terra, sobreveio a reforma do regime político, vieram novos governos e, mais de cinco décadas depois, ainda temos o mesmo problema: poucos senhores de grandes extensões de terras, milhares de sem terra, movimento de caráter democrático transformado em instrumento de manobra política, quebra do regime legal, um grito de paz transformado em grito de guerra etc

Hoje, descoberta a imensa cratera vulcânica em que se encontra o país onde Deus teve o cuidado de não depositar vulcões, consciente dos estragos que fazem e também de nossa capacidade  de produzi-los sem a presença deste poderoso elemento da natureza, alardeiam bandeiras reformistas.

É reforma tributária ( somos sem dúvida um dos países do mundo de mais pesada carga tributária sobre o povo e de menor retorno em benefícios ), reforma política [ algumas dezenas de partidos (? ) políticos sem cartas que os definam  eficazmente quanto aos seus objetivos programáticos ou sua estrutura ideológica, sua sustentação sócio-política, número absurdo e sabidamente desnecessário de parlamentares em todos os níveis  e  excessivo acúmulo de força e influência de um poder sobre os demais outros poderes do governo], reforma da previdência (previdência que nunca atendeu. De verdade,  as necessidades dos que para ela contribuem, sempre dando um jeito de diminuir os benefícios a eles destinados, sempre desatendendo a assistência que lhes é devida e sempre transferindo para eles a total responsabilidade de desfazer o lixão em que a transformaram os seus administradores, tornando-a eficaz, à custa de novos e maiores sacrifícios deles, contribuintes e beneficiários, ainda que isto lhes custe a própria vida )…

Como se diz na linguagem corrente do povo: bate um desespero danado, por não termos horizontes ou por eles serem demasiadamente escuros, de modo a não nos mostrarem qualquer perspectiva de uma alvorada de luz, enquanto os cordões do seu comando estiverem nas mãos dos mesmos políticos que os controlam nas últimas décadas.

Aí o cidadão de bem, trabalhador, cumpridor das leis, fica se perguntando: quando tudo isto vai mudar, se a mudança depende das leis e estas são feitas exatamente por aqueles que se beneficiaram e beneficiam desta situação?

Não me recordo bem se na de Malba Tahan ou na obra de outra grande alma li esta ilustração: um homem, certa vez, passando em algum lugar, viu um senhor a trabalhar. Aproximou-se, entabularam uma pequena conversa, e logo o homem revelou seus anseios. Trabalhava duro, atendia a sua família, mas havia uma razão maior para isto tudo. Ele sabia que era preciso reformar as pessoas,  reformar o mundo…

No ano seguinte, encontrou o viajante o mesmo senhor e lhe pediu notícias sua pretendida reforma, ao que ele respondeu: continuo querendo a reforma e trabalho por ela, mas acho que devo me conformar em reformar o meu país…o mundo é muito difícil…

No ano seguinte, o mesmo encontro e o mesmo diálogo, mas a reforma já se resumia à região em que vivia o trabalhador, e o âmbito foi diminuindo para a cidade, o bairro, a rua onde morava…

Até que, uma vez, passados alguns anos, o viajor encontrou o mesmo senhor, agora já idoso, mas ainda trabalhando, e indagou: E a reforma, como vai indo?

A resposta veio pronta: Amigo, vi que ambicionei muito, no princípio.

Agora, com todo respeito, trabalho única e exclusivamente, por uma reforma, apenas: a reforma de mim mesmo!

Ah, quem dera cada um se conscientizasse disto e se dispusesse a esta única e essencial reforma…

O mundo seria bem outro.

 

(Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro da Associação Nacional dos Escritores e da Academia Goiana de Letras E-mail: [email protected])


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