Brasil

Relembrar para prevenir

Redação DM

Publicado em 18 de novembro de 2015 às 00:00 | Atualizado há 11 anos

Atualmente observa-se a tendência muito comum em uma sociedade imediatista: a indiferença à sua história, como se os acontecimentos do passado fossem algo dispensável, objeto de interesse apenas para os estudiosos. Não se reconhece que os fatos históricos ajudam na compreensão do homem, enquanto ser que constrói seu tempo. A história serve de alerta à condição humana e de agente transformador do mundo.

Vinte e sete anos após a ocorrência do acidente radiológico com césio 137 em Goiânia, o ente estatal criado para ser centro de referência na assistência às vítimas do acidente, bem como, em ensino e pesquisa, luta para subsistir porque diversas são as ações ou inações do poder público que se convergem no sentido de enfraquecê-la. Mesmo assim, remando contra a maré de fragilidades, deverá ir subsistindo, ainda que seja por imposição judicial.

Críticas à parte, não se deve deixar de registrar que as vítimas dispõem hoje de um bom espaço físico recentemente reformado, denominado Centro de Assistência aos Radioacidentados e conta com um grupo multiprofissional formado por médicos, odontólogos, psicólogos, assistentes sociais, farmacêutico, equipe de enfermagem para o pronto atendimento e monitoração dos efeitos da radiação, além de veículos oficiais para transportá-las na realização de consultas médicas e exames. A maioria delas utiliza o plano de assistência médica estadual do Ipasgo Saúde com isenção total da contribuição. Situação bem distinta daqueles que precisam aguardar as intermináveis listas de espera para se verem atendidos pelo Sistema Único de Saúde. Foram ainda beneficiadas por pensão especial vitalícia prevista por lei estadual e federal.

Nos anos áureos da instituição, empreendeu-se uma forte política de incentivos ao ensino e pesquisa. O governo estadual em parcerias e convênios firmados inclusive com entidades internacionais, ofertou capacitação às equipes e fomentou a pesquisa. Produziu-se muito.  Grandes saltos foram dados em relação aos protocolos médicos nos cuidados com vítimas de acidente, no controle do emprego da radiação na indústria e na segurança do trabalho com radiação no Brasil.

Ainda há muito que se ensinar sobre o acidente: a atitude de abandono da máquina de radioterapia pelos proprietários de uma clínica de radiologia, a falta de controle dos órgãos estatais, somada à absoluta falta de conhecimento dos catadores de papel que, indiferentes ao sinal indicativo da presença de material radioativo, subtraíram o cabeçote da peça abandonada que continha o césio 137 e com o rompimento da cápsula houve a dispersão do metal radioativo no ambiente desencadeando o processo de radiação que causou a morte quase imediata de quatro pessoas e danos a tantas outras, contaminou animais e o solo. O acidente poderia ter se tornado uma verdadeira tragédia coletiva.

O erro ocorrido não deve ser enaltecido tampouco banalizado. Deve ser utilizado como ferramenta de mudança, de crescimento, de aprendizado. O acidente não deve cair no esquecimento de um povo sem memória. O legado histórico do acidente com césio 137 deve ser levado ao conhecimento de todos, relembrado como forma de prevenção de novos acidentes desse tipo e de outras naturezas. As novas gerações necessitam conhecer as causas do acidente e quais as lições e aprendizados foram adquiridos. A pauta do assunto, acidente com césio 137, não se esgotou, apenas deve-se mudar o foco da informação a ser ofertada à comunidade.

Nesse sentido, o poder público deveria incentivar, por exemplo, o acesso de jovens em idade escolar a projetos que têm por objeto a prevenção de acidentes, ressaltando as questões que envolveram o acidente radiológico.

 

(Glauciene Esteves, advogada especialista, servidora pública lotada no Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos Leide das Neves Ferreira/SES-GO)

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