Brasil

Renzi reprovado sem perdão

Redação DM

Publicado em 14 de dezembro de 2016 às 00:30 | Atualizado há 1 ano

Até parece que a Itália acaba de prestar sua contribuição à meteorologia acidentada do mundo ocidental. Não é bem assim. A vitória esmagadora do “não” no referendo convocado pelo primeiro-ministro Matteo Renzi para avalizar algumas modificações à Constituição, por 59% a 41%, prova apenas a vitalidade da democracia no país regido por uma Carta impecável, cujo primeiro artigo proclama ser a Itália uma “república baseada no trabalho”.

E onde, é bom sublinhar, o Estado do Bem-Estar Social ainda funciona e a Justiça em todas as suas instâncias, da Suprema Corte aos tribunais provincianos, não faz política.

As alterações propostas pelo governo de centro-esquerda justificam objeções, mas a questão capital tornou-se outra: passou a representar a avaliação popular do próprio premier, reprovado inexoravelmente em um referendum que levou às urnas cerca de 70% dos eleitores, com uma participação muito superior à registrada nos últimos anos em toda a Europa.

Disseram “sim” os bairros elegantes de Roma, o centro histórico e o Parioli, onde medra a fina flor. Disseram “sim”, embora por margem escassa, as províncias de maior bem-estar, como Emilia-Romagna e Toscana, onde Renzi nasceu. Disseram “sim”, em geral, os eleitores mais avançados em anos, de 60 para cima.

Quem reprova o governo são, antes de mais nada, os jovens, atingidos por taxas de desemprego elevadíssimas, e as regiões sulistas, nas quais o desequilíbrio social se acentua. E disse “não” boa parte dos berlusconianos, bem como, compactamente, filiados e simpatizantes do Cinque Stelle e da Lega Nord.

A peculiaridade está na obediência aos ditames dos partidos, em um momento em que no Ocidente as dúvidas se apinham em relação à validade dos partidos tradicionais nos dias de hoje. Vale dizer que Forza Italia, de Berlusconi, é a direita retrógrada, a Lega e os Cinque Stelle são, cada qual a seu modo, francamente subversivos.

De todo modo, o movimento do ex-showman Beppe Grillo representa um fenômeno à parte, a justificar uma análise mais aprofundada. Acolhe queixosos, insatisfeitos, desiludidos, à direita e à esquerda. Entre seus militantes não faltam operários e intelectuais e mesmo ex-comunistas de carteirinha.

As fraturas se dão dentro do Partido Democrático, que detém a maioria parlamentar, conquanto relativa, de sorte a obrigá-lo à aliança com agremiações menores à sua direita. Dentro do PD há tempo grassa a surda revolta dos numerosos egressos do antigo PCI, entre eles figurões como Massimo D’Alema e Pier Luigi Bersani, e estes, ao longo da campanha para o referendum, não hesitaram em anunciar seu “não”.

Algo é certo: ganhasse o “sim”, sairiam em bloco do PD para formar um novo partido, de esquerda sem disfarces. A vitória do “não” os obriga a definir a estratégia mais cautelosa.

Renzi cuidou de cumprir a promessa e, derrotado, demitiu-se. Em vão, de imediato. O presidente da República, Sergio Mattarella, sábia personagem do enredo, digno sucessor de Giorgio Napolitano, e árbitro da conjuntura de acordo com as regras do regime parlamentar, foi peremptório com Renzi: nada disso, você deve ficar porque lhe cabe ainda assinar a Lei do Balanço.

Consta que o presidente não apreciou a reação do primeiro-ministro à derrota, ao assumir tons de vingança, algo assim como a advertência shakespeariana do fantasma que assola o pesadelo de Brutus, a vaticinar o encontro fatal com Marco Antônio em Filippi.

Bravata irresponsável, tanto mais porque reforçada pela súbita ideia, desfraldada por Renzi, de eleições já. Felizmente para ele, seu partido e o país, voltou logo atrás. É óbvio que o pleito, marcado para abril de 2018, agora não convém em primeiro lugar ao PD. Trata-se, além do mais, de substituir a velha lei eleitoral, batizada de porcellum, porco em latim, e o nome diz tudo.

O governo há algum tempo aviou outra lei, chamada pomposamente italicum, do agrado de poucos e submetida à aprovação da Corte Constitucional, que se pronunciará em janeiro. Mesmo aprovada, percebe-se a necessidade de preparar as eleições, sem excluir a possibilidade de antecipá-las, o que poderia ocorrer em um prazo mínimo de oito meses.

Cabe ao presidente da República conduzir as negociações para a formação do novo governo, a contar com a maioria do PD para alavancar um período de transição até a realização do pleito. A preocupação de Mattarella envolve as questões essenciais da estabilidade e da confiança internacional, a partir do relacionamento com os países da União Europeia.

Para este governo, definido como “de responsabilidade”, dois nomes já são formulados nos círculos políticos: o do presidente do Senado, Pietro Grasso, e do ministro da Fazenda, Pier Carlo Padoan. Figuras respeitáveis, mas não está claro até que ponto seriam aceitos por todos os grupos que se digladiam dentro do PD.

Um aspecto interessante da problemática italiana é a crise bancária, das mais preocupantes em uma Europa de juros negativos, conforme a exigência do BC da UE, comandado pelo italiano Mario Draghi, indômito adversário do ministro da Fazenda e do presidente do BC da Alemanha da senhora Merkel.

Algo a acentuar em relação à calamitosa situação brasileira: a Itália não é o paraíso dos rentistas e jamais um juizeco provinciano se riria em companhia de um candidato a chefe de governo ao longo de uma grotesca cerimônia que premia um presidente ilegítimo guindado a Homem do Ano.

 

(Mino Carta, diretor de redação, fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital e criou o Jornal da Tarde – Texto originalmente publicado na CartaCapital)


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