Retratos da vida
Redação DM
Publicado em 7 de março de 2016 às 23:33 | Atualizado há 10 anosIbraim era conhecido comerciante, de estranho hábito, que gostava de aproveitar de mocinhas pobres e abusava sexualmente das crianças. Amigos que o conheciam o advertiam, constantemente, quanto a seu terrível hábito constituinte de crimes hediondos; em sua loja, facilitava pagamentos para seduzir suas vítimas. Um dia Suellen lá chegou e logo percebeu ele as insinuações da moça e, esta, sabendo-se linda, fazia deste seu dote um meio de explorar seus simpatizantes, inclusive Sandro, policial militar de índole violenta, mas que fazia o pior, para agradá-la. Foi então que Suellen comprou um tapete na loja de Ibraim…
Rubinaldo e Rafael, dois jovens desocupados, roubaram uma moto e a modificaram — e foram viver de assaltos. Pararam uma caminhoneta na saída da cidade, desceram da moto e tentaram render o motorista Geraldo, mas não foram de sorte porque o carro era blindado e o homem da Camioneta deu uma ré e avançou o veículo contra a moto enquanto os jovens tentavam fugir nela, no entanto foram atingidos pelo carro e prensados contra um muro, tendo os dois sofrido fratura, um nas pernas, Rubinaldo; Rafael no braço direito…
Um dia o policial Sandro que gostava de exibir sua força e abusar de seu cargo, sempre envaidecido por sua amante Suellen, recebe um telefonema da namorada e chegando à loja do Sr. Ibraim o espanca a socos e pontapés violentos, desfechados por ele que ainda o levou detido. Chegando à delegacia o comerciante foi reconhecido pelos registros policiais, como sendo perigoso molestador de mulheres e crianças. Como o Distrito Policial não tinha provas nem evidências deram-lhe advertência, ameaças e fizeram uma ficha, embora no caso de Suellen a quem vendera o tapete, ele não tivera culpa, pois o caso se tratava de malandragem da moça que abusava da parvoíce brutal do namorado e da sedução que exerceu sobre o iraniano, e o soltaram…
Passado algum tempo, Ibraim não conteve seus impulsos inferiores e cometeu um crime hediondo; foi flagrado estuprando uma criança e foi pego pelas pessoas vizinhas à casa da menina violentada, e então o eliminaram com pauladas na cabeça e linchado pela turba violenta que fazia justiça a seu modo.
O tempo passou como uma roda por onde escoam as águas da vida. Esses personagens todos foram morrendo cada qual conforme seu destino, consoante o seu carma. E permaneceram em sofrimento segundo seus méritos, nas regiões de regeneração, cada qual no seu clima individual, onde gemiam, gritavam, pediam por socorro; e aos poucos, passados tempos de arrependimentos consoantes seus atos, iam se restabelecendo, apelando para Deus e, aos poucos, após longo prazo sendo libertados dos Umbrais pelos seus guias e mentores maiores, os chamados Anjos da Guarda, os responsáveis pela regeneração deles, os levaram para uma cidade no Plano Espiritual, onde seriam orientados, nas comunidades instrutivas e com recursos de iluminação espiritual, nos habituais templos para aulas, palestras, exibições e um completo impulso de evolução moral e melhoramentos pessoais.
Um dia, conforme foram se adaptando e obtendo regeneração, eram convidados a comparecerem ao Departamento da Reencarnação, no sentido de darem continuidade aos seus progressos individuais. Então frequentavam uma sala de instrução e em anexo, outra, para avaliação e planejamento.
Certa vez, estavam presentes neste pequeno espaço à espera dos demais convidados, especialmente de um dos trabalhadores da Causa da Evolução dos Seres na Terra. Eram aqueles que tiveram experiências e destinos cruzados nas paragens dos homens, na mesma cidade. Só que o tempo os separou e cada um teve seu desfecho de existência sem saber um do outro na cidade astral.
Na Colônia Espiritual onde estavam passaram a ouvir um ao outro, mas como estavam sempre acompanhados não se reconheceram ou às vezes sim, conversaram rapidamente. Somente ali naquela sala é que foram recobrando lembrança e a conversa entre eles começava:
— Estou reconhecendo você de algum lugar…
— Talvez. Sou Ibraim, vendedor de tapete. Estou desfigurado, pois venho de dura experiência, de um mar de excremento, aqui no Vale das Sombras, onde, coberto dessa grossa camada, eu não enxergava os parceiros de local nem tinha voz para falar. Só instante direto para sofrer.
— Eu também passei por tal massa grudenta e de péssimo odor, só pude chorar, gritar, até que, no ápice do sofrer, pedi a Deus socorro e apareceu um anjo que me ajudou.
Dois rapazes se aproximam e interferem na conversa de ambos:
— O que estamos fazendo nesta sala?
— Esperando um dos responsáveis por este Departamento pra começar a reunião. Respondeu uma moça pálida e em recuperação lenta.
— Parece que a conheço…
Com a espera e chegada de outros colegas foram se identificando reciprocamente.
— Meus colegas, — disse Rubinaldo, um espírito de quem fora desencarnado jovem ainda, — comunico que está chegando o venerável Inspetor do Departamento da Reencarnação, nosso irmão Geraldo, a quem muito considero e vocês também, até poder chama-los de irmãos, pois há novatos aqui na Colônia que ainda não aceitam esse tratamento por motivos vários, de raciocínio e interpretação.
O Inspetor Geraldo chega, toma assento à cabeceira de uma longa mesa e põe-se a falar abrindo um livro de registros onde constava tudo de todos ali presentes:
— Tudo o que vou revelar aqui será apenas sugestão e irá depender do acordo e decisão ou não de vocês. Começo pela irmã Suellen que morava em São Paulo, na última encarnação, com o mesmo nome de agora. Aliás, quero dizer que usarei os nomes que tivemos na nossa última jornada terrena. Começo por me apresentar e pela minha história:
— Sou o paciente desta Colônia, de nome Geraldo. Também vivi no mesmo país de vocês, só que numa cidade do interior de São Paulo, era vendedor, representava uma firma cujos produtos eu oferecia aos clientes de várias cidades. Ali pelos 51/53 anos de idade física, fui abordado por dois assaltantes montados na mesma moto. Perceberam que eu estava lento devido a um trecho na saída da pequena cidade de Três Lagoas, onde havia pequeno córrego em cujas margens havia pedras antes de chegar à estreita ponte. Quase parando minha caminhonete vi que os motoqueiros reaproximaram, de capacetes, e um deles tirou a arma e veio em minha direção, percebendo o perigo não parei como pedia o indivíduo, fiz uma manobra brusca no carro para tomar impulso engatando uma ré quando o assaltante deixou cair a arma e a procurava e com ela em mãos, procurou a garupa do amigo que estava na moto a ponto de sair em disparada. Enquanto eles se viravam deu tempo de eu dar uma ré no veículo e acelerá-lo contra os dois, o que o fiz com raiva e vontade, tentaram atirar por uma vez ao menos, mas eu já estava com meu carro prensando-os com a moto de encontro a um muro, tendo acertado os dois que tiveram seus membros quebrados.
Bem… o principal foi isto.
— Senhor! Com licença… — disse um dos rapazes, que se identificou como Rafael… Quero lhes dizer que eu fui um dos assaltantes, o que estava com a arma; e o meu comparsa era o Rubinaldo, este aqui ao meu lado. Sofri fratura grave no braço direito e tive a perna esquerda quebrada; meu colega aqui sofreu o que foi dito pelo Senhor Inspetor…
Rubinaldo se apresentou levantando-se e dizendo que “depois da refrega e após o tratamento deixei a vida errada e fui aprender uma profissão, especializei-me em consertos de motos. Desencarnei idoso, assim como me apresento agora”…
Era um senhor de uns setenta anos.
— Jamais, porém, cuidei de me vigiar. Meu colega aqui presente, pelo que me contou na Colônia, fez melhor: terminou os estudos, obteve bom emprego e desencarnou logo que se aposentou. Eu tive esposa e dois filhos, na condição de Rubinaldo, e Rafael teve esposa e uma filha…
— Muito bem. Está sendo produtiva a nossa reunião. Conforme os registros constantes neste livro, temos a verdade sobre três amigos: o policial Sandro, o comerciante Ibraim, e a que fora companheira de Sandro.
— Eu, Suellen, apresentou-se uma mulher, erguendo a mão.
— Algum de vocês sentir-se-á aliviado de falar algum trecho da última experiência?
— Eu deixo a minha parte para Suellen contar. Aquiesceu Sandro, o policial truculento, emendando: confesso que não tenho condição suficiente para falar sem me alterar de alguma forma.
Suellen então contou a história do tapete que comprou do Ibraim, que ia confirmando todo trecho do que fora real relatado pela mulher de Sandro, que expunha:
— Sim, eu queria um dinheiro, a mais, para os meus caprichos e usei dos dois homens para consegui-lo. O Sr. Ibraim não era fácil de convencer com os meus métodos irresponsáveis, então quis forçar a situação e chamei meu namorado que era apaixonado por mim. Fazia tudo o que eu queria.
Mas como nosso adversário era teimoso demais e não cedia à brutalidade do policial, este pediu reforço a seus colegas de trabalho que o levaram preso, depois de muito espancá-lo…
— Dai pra diante, conto eu, disse senhor Ibraim, um tanto lacrimoso.
— Sim, eu era teimoso e, sobretudo, retentor de um orgulho que só serve até hoje para me complicar. Depois do incidente do tapete que a “filha” quis me devolver e receber de volta o que pagou, e após a agressão sofrida, o destino quis que eu fosse levado à delegacia de Polícia onde descobriram registros sobre “minha pessoa”. Depois de gastar muito dinheiro com advogado, e meu adversário também, patrocinando defesas de toda forma, nos livramos dessa encrenca…
— Sim, e depois?
— Mudei de cidade e fui para outra, longe, na capital de Goiás, onde é grande a colônia de imigrantes árabes, sírios, iranianos… Por lá, voltei a abusar da liberdade que melhor posso chamar de libertinagem, pois fui flagrado molestando uma menina… e a população do bairro me linchou sem dó nem piedade. Conforme, lógico, o que mereci.
Assim desencarnei e até algum tempo, que não sei definir o quanto, paguei nas furnas de fogo e abismos, num vácuo aonde eu ia caindo, caindo sem chegar a ponto nenhum. Devo ter sofrido esta prova por um século, aqui não há como medir o tempo, pois meu sofrimento atroz, ¬¬um minuto de dor soma a extensão de cem anos que não passam nunca; agora mesmo, ao recordar o que digo, tenho a impressão de que ainda estou caindo, caindo…
Preciso me redimir; mas não sei como.
— Comece por aceitar uma prova numa próxima reencarnação.
— Nós todos! Sugeriu o Inspetor Geraldo. Tenho pressa em saldar minhas dívidas com a Justiça do Alto. Por isso, quero sugerir o que a Comissão Redentora sugeriu: o destino da próxima encarnação de cada um de nós. Pedi aos meus mentores que me apresentassem sugestões de uma nova vida no Plano Físico: queria eu voltar numa existência modesta, formar minha família casando-me com Angelina (minha alma favorita) e recebendo, como filhos, os a quem prejudiquei a saúde jogando meu carro sobre eles; é verdade que, de início, eles foram os culpados porque estavam na marginalidade. Foram me assaltar e, nervoso, não só quis defender minha vida, como também vingar-me deles. Devido ao meu ódio compliquei uma situação que podia ter tido conclusão melhor, se eu tivesse agido com Amor. Estaria confiando a Deus, que nos daria uma solução diferente para o incidente que nos envolveu. Então para incentivar o amor ao próximo começando pelo perdão, pedi ao Alto receber meus algozes como filhos, para educa-los na ordem, no respeito ao semelhante e na transformação interior.
Os rapazes ficaram emocionados, enquanto ouviam do futuro pai que teriam na próxima existência: — Vocês não estavam com ódio de mim; estavam envoltos por entidades sombrias que exploram a ingenuidade dos jovens e tentam lhes prejudicar qualquer tentativa de uma existência mais digna, depois de excelente esforço nos estudos e no trabalho. Proponho-me, pela ausência de rancor deles, compensar-lhes a virtude da tolerância e corrigir as dores que lhes causei.
Rafael e Rubinaldo foram até onde estava o amigo Geraldo e o abraçaram contendo a emoção com silêncio e olhar coberto de pranto.
— Nossa gratidão, Sr. Geraldo. O erro foi todo meu. Disse Rafael. Nem tanto do Rubinaldo, que também errou, mas convencido por mim. Aceitamos sim, voltaremos como seus filhos porque sabemos que teremos um excelente pai.
Depois de alguns minutos de silêncio, Sandro não segurou mais sua inquietação e falou:
— Não posso esperar! Eu queria que o Sr. Inspetor lesse o que a Comissão Libertadora sugeriu para o meu caso. Sei que errei demais. Preciso reparar meus sentimentos! Como será a minha trajetória terrena, próxima?
— Está aqui Sandro, o seu relatório emitido pelo Departamento Redentor…
Na condição de policial, forte, saúde invejável, um cargo de poder, você abusou de suas vantagens físicas e não valorizou as chances de estudos buscando novas manhãs de entendimento maior; malbaratou seus dons e chances de evoluir, tendo despencado sua existência para os abusos com vícios de todo jaez, para os desregramentos físicos e morais em parceria com Suellen, que o manipulava, ambos perderam tempo na vida, dedicando-se a espancar pessoas de toda idade ou condição, auferindo prazeres e proveitos sobre todos e tudo. Irá estudar juntamente com Suellen a possibilidade se uma experiência difícil.
O casal prorrompeu-se em choro e desespero, mesmo diante do que lhes falou o calmo e sereno irmão Geraldo: mas isto é se vocês quiserem. Há mil outras formas de quitarem tantos erros e mazelas. Podem pensar definir e optar depois, quando quiserem…
— Está bem. Mas dê-nos licença…
E o casal saiu da sala em profunda meditação e dúvidas. Ia estudar na Casa de Hóspedes tudo o que lhe fora entregue por escrito.
Já esses personagens, reencarnados, vejam como ficaram todos. Suellen agora é Gabrielle, retornou na condição de moça simples sem preparo para uma profissão superior, casara-se com modesto rapaz de nome Miguel, que fora seu antigo parceiro Sandro na época em que fora o violento policial e abusara de seu cargo para espancar e se impor diante dos outros; era, agora, ajudante de seu pai, que trabalhava como caminhoneiro e ele era quem fazia carga e descarga no veículo e aprendera com ele a dirigir nas estradas e nos centros urbanos, tendo que estar atento e calmo diante do ofício, que pedia muita atenção, porquanto não tinha paciência em ter que enfrentar as abordagens de fiscais e policias rodoviárias com quem ele evitava discutir. Sabia que se não tivesse tolerância, poderia entrar facilmente em conflito com os policiais ou demais condutores de veículos, ocasiões em que deixava por conta do pai, o senhor Pedro, essa questão de resolver tais problemas que os levariam a possíveis entreveros com outros, no que, obviamente, sairia perdendo. No entanto, graças à calma do senhor Pedro, Miguel se acalmava e aprendia, com ele, ter mais tolerância.
Um dia, chegando de viagem, deixara o caminhão e o pai na casa deste, e chegara em casa. ¬¬¬Sua esposa Gabrielle o abraçara feliz e ele também. Em seguida fora ele até o quarto do filho Henrique. Era um menino lindo, simpático, de 12 anos, que o recebeu sorrindo efusivamente e o abraçando. Um abraço amoroso de filho bom e especial, com acentuado sintoma da Síndrome de Down. Era este o que fora o Sr. Ibraim, ora Henrique, na condição de quem dependia de total assistência dos pais que foram os seus opressores. Ela o explorara e fora quem o ligou ao violento policial que o prejudicara. E ele próprio, o especial detentor da Síndrome de Down, responsável pelos graves erros anteriormente relatados.
Os três no mesmo cenário de reparação e reajuste, cada qual com o seu quinhão de experiência a recolher nessa atual existência. Ao leitor caberá entender como será a lida de cada um desses personagens. Cada qual cumprindo o seu destino. Foi assim e será assim. Esta é a Lei.
(Iron Junqueira é escritor)