Roleta-russa
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2015 às 00:16 | Atualizado há 11 anosConta-me o amigo Geraldo Siqueira que, em Anápolis, há muito tempo, um tal de Benedito, funcionário do Sr. Baltazar, tendo se agastado com este, comprou uma única bala e a colocou num revólver velho e imprestável que ficava pelos cantos da oficina onde trabalhava, a fim de usá-lo no primeiro desentendimento que pudesse ter com o patrão.
… Naquela ocasião, diariamente, seis a sete meninos passavam pela oficina do Sr. Baltazar, sentavam-se enfileirados num banco comprido que havia ali, e ficavam a esperar o filho do dono da casa, a fim de seguirem juntos para a escola. O Sr. Baltazar, que gostava de brincar com as crianças, e que apreciava muito vê-las, todas, sentadinhas ali, resolveu distrair-se um pouco com elas: pegou o revólver que, muitas vezes testado, nunca detonara, uma velharia comprovadamente sem perigo, utilizado na oficina até como martelo e objeto para brincadeiras, e não sabendo que continha uma bala, portanto nunca passaria pela cabeça de ninguém, naquele recinto de trabalho, usar seriamente uma coisa tão inútil, apontou-a para os meninos e caminhava, de cá para lá e vice-versa, apertando o gatilho toda hora que a colocava no peito de uma das crianças; todos riam, festivamente; os pequenos estavam adorando a brincadeira. Mas inesperadamente a bala detona e uma das crianças – perde a vida.
Não precisamos relatar aqui, a extensão do drama que envolveu toda aquela gente e, principalmente, o coração do Sr. Baltazar, que nunca mais se utilizou de certos expedientes para brincar com os outros e, muito menos, com crianças; consumiu para sempre a arma velha que todos supunham imprestável e despediu o Benedito, seu funcionário que, com um propósito sombrio, alcançou, sem o querer, um desfecho que jamais esperava.
Os homens de bom senso estão trabalhando, hoje em dia, pelo desarmamento infantil querem tirar das crianças os brinquedos bélicos, o que todos os pais já deviam ter feito há muito tempo. Mas, pelo visto, o desarmamento infantil deve abranger, também, os adultos.
“Tudo aquilo que não presta, – dizia Emmanuel – não presta mesmo”.
Brinquemos com as crianças aproveitando o ensejo para educá-las, torná-las afáveis e susceptíveis a todas as virtudes, para que, quando se tornarem adultos, sejam criaturas menos rancorosas e com mais dosagem de amor, no coração.
Às crianças falemos de tudo o que seja bom, correto, nobre, justo e belo, porque tudo isso é semente boa que estaremos plantando na terra fértil do coração infantil; e tudo o que nesse terreno bom semearmos estejamos seguros, haverá de germinar; no entanto a melhor maneira de educarmos bem a infância é “pregarmos, exemplificando, essa caridade ativa, infatigável, que Jesus nos ensinou”.
Vivamos e nos comportemos de tal modo que a criança possa adquirir, em cada gesto nosso, em cada manifestação nossa, em cada palavra nossa e em cada atitude da nossa parte, um exemplo nobre que possa levar, em seu coração, ao futuro que a espera, pois o que ela for amanhã será um recado nosso à humanidade que há de vir, será um atestado do presente ao porvir, uma herança nossa aos homens que agora nascem, assim como nós, os adultos de hoje, somos o reflexo do que foi a humanidade de ontem; e que o nosso recado ao mundo de amanhã, seja uma herança de bondade, esperança, trabalho, amor e caridade.
Mesmo as brincadeiras sem maldade, mas de teor deprimente e negativo, gravam-se na mente da criança como fator indução; mais tarde, quando adulta, num momento de precipitação, a criatura poderá executar a primeira sugestão que lhe advir à mente subjetiva, e se essa sugestão inconsciente for um dos péssimos exemplos que lhe demos, quando ela era criança, então resultará em consequências bem desagradáveis…
“Tudo o que se grava na mente infantil, se cristaliza, como num cristal, e não se apaga mais”, diz Guerra Junqueiro; nesse caso, procuremos incutir na personalidade da criança somente o que for bom para o seu progresso espiritual.
(Iron Junqueira, escritor)