Sobre alimentar o espírito!
Redação DM
Publicado em 2 de junho de 2016 às 02:32 | Atualizado há 10 anosÁlih, o guia, está de malas prontas. Irá passar um mês na cidade e durante todo este tempo Jávier, seu aprendiz, terá que cuidar de tudo sozinho. “Preste atenção nos detalhes”, recomenda o velho quando está saindo. “Antes de se lembrar que é preciso alimentar os animais”, disse ainda, “não se esqueça que é preciso alimentar o seu espírito todos os dias. Se o seu espírito estiver alimentado, todas as demais tarefas se tornarão mais fáceis”. O velho foi caminhando com a sacola na mão até sumir entre as montanhas. No primeiro dia Jávier ficou eufórico. Cuidaria de tudo perfeitamente: deixaria a cabana sempre bem arrumada, alimentaria os bichos, cortaria lenha, molharia a horta duas vezes ao dia e, claro, no final das tardes pescaria alguns peixes no rio Allipén para o jantar. Com os dias, Jávier vai percebendo que o que está fazendo é apenas ocupar o lugar de um velho solitário que, apesar de sábio, resolveu covardemente esconder-se atrás das montanhas. “E se ele nunca mais voltar? E se estiver usando-me apenas para fugir das responsabilidades que são dele?” O trabalho que era feito com alegria se transforma em uma rotina torturante: alimentar animais sempre famintos, varrer um quintal que não se cansa de se encher de folhas, molhar uma horta sempre seca e no final do dia ter que pescar peixes que nunca aprendem a velha lição que diz: “Se é fácil demais, desconfie.” Jávier pensa várias coisas: em fechar a cabana e partir, soltar os animais, esperar o velho chegar – se é que ele chegará algum dia – e abrir o jogo sobre sua desilusão com aquela vida. Faltam apenas dois dias para a chegada do guia e o aprendiz percebe que fracassou. Está tudo desordenado. Ele se lembra do que Álih disse antes de partir: “Se o seu espírito estiver alimentado, todas as demais tarefas se tornarão mais fáceis.” Ele parece ouvir a voz doce do velho repetindo as mesmas palavras. Esqueceu-se do principal. Ele se ajoelha, medita em tudo que já aprendeu até aqui, lê os textos sagrados, e descobre que do lado de fora tudo continua do mesmo jeito, o problema é que não alimentou o seu espírito e acabou por perder-se. Ele volta ao trabalho e enquanto molha a horta no final da tarde, enxerga o guia aproximando-se ainda longe e já ouve a melodia suave de seu assovio. Ele quase fracassou, mas descobriu que o segredo para realizar bem as nossas tarefas nem sempre está na habilidade, mas sim, em um espírito bem alimentado.
(Thiago Mendes, escritor)