Sobre o poder de um ensinamento!
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2015 às 21:54 | Atualizado há 11 anosQuando Jávier acordou de manhã não ouviu o assovio melódico de seu guia. Foi à cozinha, ao jardim, observou se o velho estava varrendo em baixo das árvores – nada. O moço entra novamente na cabana e vai ao quarto. Álih está embrulhado por várias cobertas e treme de frio. “Acho que estou morrendo, filho”, diz com voz fraca e trêmula. “Corra até a cidade, procure ajuda, compre algum remédio, qualquer coisa.” Jávier contesta. “Não posso deixá-lo aqui sozinho. Pode morrer. Além do mais”, continua, “o senhor me ensinou que jamais devemos abandonar um companheiro nestas condições”. O velho se irrita. “Esqueça o que ensinei e faça o que estou mandando. Se você ficar aqui eu irei morrer do mesmo jeito.” Jávier fica indeciso. Se ficar e o velho morrer pensará que poderia ter ido buscar ajuda e salvo sua vida. Se for até a cidade e quando chegar o velho estiver morto se culpará para sempre por tê-lo deixado só. Neste momento ele pega o velho na cama e joga em seus ombros. “Iremos juntos procurar ajuda”, diz. No caminho, quando já atravessavam as montanhas, Jávier percebe que a voz de Álih já não parece tão trêmula e debilitada. “Engraçado”, pensa, “ele conta histórias e sorri enquanto eu o carrego. Será que não está doente e só queria ver meu comportamento? Isso não importa agora, vou levá-lo em meus ombros e cumprir a minha missão”. Neste instante o velho já apontava o dedo alegre em direção às montanhas explicando o nome de cada uma delas. Se ele estava ou não doente, Jávier nunca soube, mas foi aí que aprendeu que um ensinamento vale mais que uma ordem.
(Thiago Mendes, escritor e apresenta o programa Ciranda da Cidade na Rádio Bandeirantes 820 AM das 16 às 17h)