Brasil

Socialismo nos EUA?

Redação DM

Publicado em 1 de março de 2016 às 23:51 | Atualizado há 10 anos

Não sei se científico, cristão, marxista, utópico ou que tendência político-ideológica seria. O certo é que as próximas eleições nos Estados Unidos da América estão incentivando o surgimento do socialismo, mais precisamente a partir da candidatura do senador filiado ao partido democrata, Bernie Sanders, do Estado de Vermont, que colocou seu nome na disputa presidencial contra Hillary Clinton, pela nominação dos Democratas, visando disputar em desfavor do candidato republicano que ninguém tem certeza quem seria.  Segundo reportagem do jornalista Helvécio Cardoso, do dia 23 de fevereiro findo, deste bravo diário, intitulada “O Tio Sam está ficando vermelho!”, a grande imprensa americana encarou a pretensão de Sanders “como uma dessas coisas pitorescas que de vez em quando acontecem no país”, acrescentando que “ninguém o levou a sério”. Mas ele vem comendo pelas beiradas. “Vem ganhando prévias em estados importantes. Já tem possibilidades reais de vencer a convenção democrata. Se vencer a convenção, poderá, também, ser o próximo presidente dos EUA. Um socialista na presidência dos EUA: será possível? Quais as consequências disso?”

É realmente surpreendente a candidatura de Bernie Sanders! Sua campanha, consoante jornalista citado, “recolocou a palavra ‘socialismo’ bem posicionada no debate político dos EUA. Chega a ameaçar o favoritismo de madame Hilary Clinton, despertando em faixas largas da opinião pública americana um interesse nunca visto pelo socialismo”, mostrando que uma pesquisa de opinião pública apontou que mais de 40% dos americanos, com idade abaixo de 30 anos, “tem simpatia pelo socialismo”, chegando a formular a seguinte indagação: “Será que o advento da ‘nova economia’ poderá transformar a maior nação capitalista do mundo em um país socialista mais rápido do que todos pensam?” Recorda no início da interessante reportagem, que em 1970, o grande economista liberal John Kenneth Galbraith declarou que “o Partido Democrata deveria, daqui em diante, usar a palavra ‘socialismo’; ela descreve o que é necessário”.

Dentre outras fontes dignas de nota, Helvécio vale-se de pesquisa da exemplar revista semanal The Nation americana, com 150 anos de existência, reconhecendo a forte simpatia de jovens entrevistados pelo socialismo. Foi nela que nos anos 60 do século passado, surgiu o chamado “new jornalism”, um novo conceito de jornalismo que mudou radicalmente os paradigmas da imprensa em todo mundo.  A revista chama a atenção ainda para a atual e crescente concentração de renda, piorada com a exploração política da riqueza, desigualdade crescente, pobreza, insegurança econômica, guerra perpétua, a degradação e a violência crescente verificada nas comunidades negras, o que não é novidade no Brasil, onde os índices ou dados estatísticos continuam mostrando que a maior vítima da criminalidade é o segmento étnico negro.

No dia seguinte à reportagem mencionada, Helvécio preocupou-se em dar maior abrangência e profundidade à temática, assim escrevendo a oportuna reportagem “Melenchon: a nova cara da esquerda francesa”, seguida de interessante entrevista com o jornalista e escritor Jean Luc Mélenchon, combativo político da esquerda francesa, intransigente defensor de um novo socialismo naquele país, autor, dentre outros livros importantes, do recente “A era do povo”. Para Jean Luc, o pensamento de esquerda se estiolou “num marxismo escolástico ou num socialismo cada vez mais liberal e cada vez menos socialista”. Vale dizer: o neoliberalismo, quer dominar o mundo com pensamento único. Além de manter e preservar várias modalidades de escravidões, como a “de fato”, a “indireta” e outras, assunto já conhecido e estudado, tudo faz para descaracterizar o socialismo, seja clássico ou não, no intuito de deixar a impressão de que nem existe, teria desaparecido nos finais do século findo, como vem insistentemente noticiando a mídia xenófoba, conservadora e racista, que nada tem a ver com a mais importante das verdades, que é a última delas.

Decerto os ideais básicos do socialismo, pouco importando suas tendências político-ideológicas ou programáticas, nunca desapareceram, estando aí bem visíveis para quem desejar assimilá-las e lutar por elas, dependendo somente da performance ou talento dos seus protagonistas, visando efetivá-las de acordo com as exigências do século 21, onde todos os absurdos e injustos anacronismo do passado já deveriam ter desaparecido. Notem que já somos mais de sete bilhões de habitantes no Universo, onde as desigualdades criadas e preservadas, sobretudo pelo conservadorismo de direita, são as mais absurdas, sendo uma delas, certamente a mais emblemática, pra não dizer injusta, a divisão das riquezas, informando este jornal (23/01/2015), que “o 1% mais rico do mundo já detém tanta riqueza quanto o resto dos habitantes do planeta”, onde ditos privilegiados são somente 62 pessoas, entre as quais somente dois brasileiros fazendo parte da lista, que não é negra, decerto por falta dos reais objetivos do socialismo onde, algum dia, ainda teremos uma sociedade sem classes, menos cínica, mais justa.

 

(Martiniano J. Silva é escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, UBEGO, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM, [email protected])


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