Uma análise sistemática e psicológica sobre a sexualidade humana: inconsciente coletivo e os arquétipos
Redação DM
Publicado em 10 de outubro de 2015 às 22:40 | Atualizado há 11 anosNossa intenção primeira do artigo in loco é trazer ao público um assunto que sempre foi tabu em nossas vidas e, talvez, por esse motivo ainda é motivo de controvérsias, discussões, muitas vezes, infundadas e falácias do gênero. A espécie humana, desde o seu aparecimento no planeta, há cerca de cem mil anos, vem apresentando uma característica peculiar, em termos de exercício da sexualidade. Ao contrário do observado em outras espécies, a nossa exibe sutis diferenças anatômicas e funcionais que permitem às fêmeas serem receptivas às manifestações da sexualidade de seus parceiros, independentemente de estarem ou não em seus períodos férteis. Assim, ao lado de um componente orgânico básico, nossa sexualidade passou a ser fortemente condicionada por fatores psicológicos e sociais.
Do ponto de vista psicológico, na medida em que foi surgindo nos hominídeos a consciência do “self”, foram-se também elaborando parâmetros para auto avaliação de desempenho, consciência de aceitação, sensação de adequação ao meio etc. Esses aspectos intrapsíquicos, tão valorizados que passaram a ser medida da própria existência (“penso, logo existo”), – os arquetípicos sobre a influência do inconsciente coletivo (Carl Gustav Jung) – possuem grande papel no exercício da sexualidade, ao lado do componente social.
A sexualidade, entendida a partir de um enfoque amplo e abrangente, manifesta-se em todas as fases da vida de um ser humano e, ao contrário da conceituação vulgar, tem na genitalidade (órgãos genitais) apenas um de seus aspectos, talvez nem mesmo o mais importante. Dentro de um contexto mais amplo, pode-se considerar que a influência da sexualidade permeia todas as manifestações humanas, do nascimento até a morte.
No entanto, durante a maior parte da história da humanidade essa influência foi negada, em especial entre os povos ligados às tradições judaicas e cristãs, atualmente representadas pela assim denominada “civilização cristã ocidental”. As civilizações denominadas “orientais”, por terem relativamente pouca visível influência sobre a nossa, ao menos até recentemente, não serão incluídas no presente texto, tendo em vista a necessidade de concisão.
Segundo Gênesis (1:27), “E criou Deus o Homem à sua imagem: fê-lo à imagem de Deus, e criou-os macho e fêmea”. Aliás, em hebraico, os nomes que o Homem e a Mulher receberam foi “Ish e “Ishsha”, talvez para nos lembrar a semelhança e complementação entre ambos – homem e mulher.
O curioso desse evento é que na tradição bíblica mais antiga que conhecemos, a tradição javista (aproximadamente 950 a.C.), não existe nenhum desprezo pela natureza sexual do homem. De fato, a leitura do “Gênesis” permite a interpretação de estar a sexualidade ali exposta apenas como mais um aspecto da vida, nem inferiorizado nem enaltecido em relação a qualquer outro. Utilizando do nosso livre arbítrio e de acordo com nossas escolhas para se adequar a um grupo e satisfazer nosso “ego”, sem contudo tentar persuadir ou impor ao outro as nossas escolhas. Uma vez que ao impor, estou automaticamente, agredindo e discriminando a escolha do outro. Assim, a exegese mais isenta apresenta como motivação divina para a criação da mulher apenas a atenuação da angústia da solidão vital do homem. A interpretação patrística da Bíblia, porém, que há tantos séculos vem influenciando nossa cultura – arquétipos – considera o sexo como um mal necessário, admissível apenas por ser indispensável à reprodução da espécie. Inaugurou-se, partir dessa interpretação, a confusão entre sexualidade – tão bem estudado pelo pai da Psicanálise – Sigmund Freud – e genitalidade – estudado pela biologia humana – que perdura até nossos dias.
Os judeus tinham, necessariamente, que incentivar a diferenciação entre seu povo e os outros, para poder estabelecer a consciência de uma “nacionalidade”. Os outros povos da época e da região (cananeus, filisteus etc.) eram todos politeístas, com uma enorme multiplicidade de deuses e deusas, todos eles altamente sexuados. Segundo a mitologia da maioria desses povos, o universo teria se originado de uma união (leia-se “coito”) entre dois deuses, quase sempre irmãos.
Além disso, pelas suas características expansionistas e guerreiras, Israel necessitava de muitos soldados. Como a mortalidade infantil era muito alta, a solução encontrada foi estimular o aumento da natalidade, devendo todos praticar apenas o “sexo-reprodução”. O “sexo-prazer”, assim, passou a ser malvisto e a esterilidade considerada a maior das maldições. A anticoncepção, em qualquer modalidade, passou a ser uma ofensa aos conterrâneos e a religião, sendo Onã (Gênesis, 38:8) fulminado por Javé por haver usado de subterfúgios anticonceptivos. A masturbação e a homossexualidade masculina eram abominações terríveis, enquanto a homossexualidade feminina era um crime tão horrível que nem sequer era cogitado – novamente os arquétipos romperam o tempo e persiste aos dias de hoje.
Seguindo essa linha de pensamento, os pensadores judeus (seguidos mais tarde pelos cristãos) deram até mesmo uma nova interpretação às causas da queda do Homem. Uma leitura um pouco mais atenta do Velho Testamento nos permite observar que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso apenas por não terem obedecido às ordens de Jeová, que os proibiu de comer dos frutos da Árvore da Ciência do Bem e do Mal (Gênesis, 2:17). Fica explícito, no texto, que a expulsão do paraíso se deveu à desobediência em si, e não ao fato de terem eles tido relações sexuais (Gênesis, 3:22). Registra-se, no mesmo versículo, o receio divino de que o Homem, tendo já condições de conhecer o Bem e o Mal, por ter provado do fruto da Árvore, continuasse a ser desobediente e provasse também dos frutos da Árvore da Vida, passando assim a ser também imortal. No claro intuito de reprimir as manifestações da sexualidade, no entanto, o texto foi reinterpretado, sendo apresentada como causa da queda a experiência sexual que Adão e Eva tiveram.
A sexualidade foi, seguindo esse caminho, deixando de ser fonte de prazer, passando a ser apenas mais uma das “obrigações” que os bons patriotas judeus deveriam cultivar. Esse comportamento anti-sexual foi cristalizado em todo um ritual de purificação das mulheres durante e após as menstruações. Consideradas “impuras” nesses períodos, deviam – as ortodoxas ainda devem – se submeter a todo um processo de purificação que, por durar vários dias, termina próximo ao período ovulatório seguinte, levando como consequência a um aumento das taxas de reprodução.
No geral, entretanto, podemos dizer que a cultura judaica é sexualmente repressora, machista e sexista.
Com o surgir do cristianismo as coisas se mantiveram nos mesmos moldes, ou talvez até piores, sob certos aspectos. Os cristãos dos primeiros séculos, como os primitivos israelitas, eram minoritários e tinham que se esforçar para diferenciar-se das outras religiões vigentes no Império Romano. Mesmo os sacerdotes cristãos, nos primeiros séculos, casavam-se regularmente e mantinham vida sexual ativa. Embora a obrigatoriedade do celibato sacerdotal fosse discutida desde o Concílio de Ancisa, em 314 d.C. (e essa discussão foi cheia de marchas e contramarchas que duraram vários séculos), foi só a partir da determinação expressa do Papa Gregório VII, em 1075, que o matrimônio passou a ser proibido para os sacerdotes da Igreja católica Apostólica Romana. Infelizmente, hoje temos visto as consequências desta proibição daquilo que faz parte da condição de todos seres vivos na terra: a sexualidade.
Assim, repetiram os cristãos o mesmo modelo repressor da sexualidade herdado dos judeus. No entanto, embora as igrejas cristãs (especialmente a Católica) sejam no geral bastante repressoras em termos de sexualidade, vale a pena lembrar que não existe registro, em todo o Novo Testamento, de qualquer ato ou palavra repressora que possa ser atribuída ao próprio Jesus. Pelo contrário, em alguns episódios (o referente à mulher adúltera, por exemplo, em João, 8:7), suas palavras demonstram uma tolerância e uma compreensão das fraquezas e dos desejos humanos absolutamente incompatíveis com a ferocidade com que seus seguidores reprimiram (e alguns ainda reprimem) as manifestações da sexualidade. Aliás, cite-se como um registro curioso que Aristóteles, o grande Aristóteles tão querido de alguns dos teóricos medievais da Igreja Católica, expressava sérias dúvidas sobre se a mulher teria ou não uma alma. Veja continuação na parte II)
(Dr. José Geraldo Rabelo. Psicólogo holístico. Psicoterapeuta. Parapsicólogo. Filósofo clínico. Prof. Educação Física. Artista plástico. Especialista em depressão, dependência química e alcoolismo. Escritor e Palestrante)