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Uma análise sistemática sobre a psicologia da adolescência

Redação DM

Publicado em 19 de maio de 2016 às 01:49 | Atualizado há 10 anos

Devemos compreender que a adolescência é marcada, de modo geral, como época da transformação, pois ela é a ponte que liga e separa o ser infantil do ser adulto. O núcleo essencial da transformação da puberdade parece ser a ruptura e a modificação da imagem do mundo, que, como percebo no consultório, tem até então, uma certa fixidez. Em consequência, modifica-se também a atitude estável diante do mundo, que correspondia àquela imagem.

Cada vez a exigência do mundo se torna maior e mais “assustadora” aos olhos da adolescência. Assustados buscam a qualquer modo dar um sentido à vida e objetivar-se como pessoa.

Nessa época, tem lugar um processo que se poderia chamar de “descoberta do eu real ou da própria realidade dentro e fora”. Portanto, tal designação, não deve ser compreendida como um primeiro aparecimento do eu (que é absurdo), mas uma tomada especial de posição do eu, primeiro, em relação a si mesmo. Antes de ter sido realizada essa tomada de posição (enquanto – metáfora – o eu é procurado, ou se procura, mas não foi ainda encontrado) a situação geral só pode ser altamente problemática. Ela será, de novo, uma situação de insegurança, porque se trata, como nos primeiros anos da infância, de atingir uma posição, que não está ainda claramente definida, nem se acha distintamente delineada aos olhos do adolescente. E todos os caminhos para fins ainda incertos são caminhos de perigo e aventura.

Como em muitas situações semelhantes, aparece, também aqui, um círculo vicioso. A incerteza resultante das alterações da consciência vital aumenta a inadaptabilidade dos jovens, seu desajeitamento e seu abespinhamento. Mas os efeitos dessa atitude e a consciência delas fazem, novamente, aumentar a incerteza e sua insegurança perante a si mesmo e ao mundo que o cerca cheio de cobranças.

A educação, nesses anos, exige, portanto, um carinho, um tato e um altruísmo por parte dos Pais (‘educação vem de berço’), maiores, do que nos estágios anteriores. A palavra “altruísmo” deve ser compreendida em sentido primitivo, isto é, ao influenciar o adolescente, os pais devem considerar, antes de tudo, a pessoa e as exigências do “outro” (filho) e não as suas próprias. Os pais não devem projetar nos filhos seus desejos não realizados enquanto adolescentes – narcisismo secundário, oriundo do egoísmo dos pais em relação aos filhos.

Não se deve esquecer que, nesse processo de descoberta do eu, existe, não só uma ocasião para insegurança e problemática atormentadora, como também um motivo, que pode fortalecer consideravelmente o sentimento de dignidade própria. Quando o jovem encontra pela primeira vez a si mesmo, por essa época, experimenta, na maioria dos casos (salvos os em que já existe um profundo desencorajamento) a impressão de ser, em si mesmo, um valor permanente. Esse fortalecimento do sentimento de dignidade pessoal leva a exigir uma prova para tudo o que fora, antes, simplesmente aceito e a nada mais reconhecer pela fé e confiança, mas fazer depender todos os valores da própria afirmação pessoal. Tudo isso deriva de uma segunda fonte: a própria insegurança que reina em todas as disposições dessa época, embora muitas vezes oculta ou mostrado pelo adolescente através da rebeldia e comportamentos ditos como ‘estranhos’.

Em detrimento de tudo isso ocorre, quase sempre, os primeiros atritos mais declarados em relação aos pais. A rebeldia, antes disfarçada, torna-se declarada e as fungas surgem de todas as formas: álcool, drogas, sexo, preguiça, revolta, computador, etc. Os conflitos internos entre o ego e o self tornam-se fator de preocupações sobre o que se é e o que pode vir a ser, montados num circulo entre o passado – construído sob os ideais, muitas vezes fantasiosos, a serem construídos para satisfação dos pais e de si mesmo – o presente que se torna real, porém assustador e oscilante e, o futuro que parece nunca chegar, pois é visto pela ótica do que os adultos já são ou pensam que são. Construindo na personalidade um ser paradoxal.

Pelo que vimos, compreende-se precisamente que o conceito de autoridade – principalmente ele – deve ser problemático para os jovens. Acentua-se, mais uma vez, que a autoridade outorgada não pode levar a nada de bom, nem produzir um resultado duradouro. São necessários um amor, uma paciência e uma dedicação especiais, para que a necessária relação para com a autoridade possa ser reinstaurada na juventude. O mesmo pode dizer em relação à sociedade. Sabe-se que a tendência ao isolamento, a dirigir-se a si mesmo, etc., não é rara entre esses jovens, principalmente hoje, através da fuga nos meios de comunicação eletrônica. Quando cultivam a sociedade, preferem a de seus iguais, mal querendo saber de qualquer outra – para os jovens somente eles se entendem, pois os adultos são ‘caretas’, ultrapassados, radicais, etc. Aqui também, a última palavra é dada pela nova consciência do valor próprio, surgida, imediata ou ‘mediantemente’, da compensação. De fato a pessoa descobre agora o eu e o descobre (como não poderia deixar de ser) como um possível portador de valores. Existe, então, uma possibilidade de se formar uma consciência do valor próprio, mesmo das pessoas que não tinham ainda formado.

A juventude tem tendência a teorizar: constroem-se sistemas do mundo, que são, logo depois, derrubados; arrolam-se e discutem-se problemas, que são, logo depois, postos de lado. Uma grande inconstância sempre foi considerada como característica desses anos de evolução.

Finalmente podemos dizer que apesar de toda evolução de técnicas conceitos Psicológicos o adolescente é imprevisível em suas mais diversas reações internas. Por outro lado ele se deixa ser muito previsível em suas projeções no mundo externo, mesmo porque, como já dissemos que eles preferem seus iguais. Grupos que tentam falar a mesma língua embora não saibam ao certo o que elas significam, a não ser que estão atingindo seus objetivos: se rebelar contra os pais e ignorar os conceitos estipulados e estimulados pela sociedade.

Todo esse emaranhado dentro do adolescente repercute direto ou indiretamente no comportamento amedrontado dos pais que, muitas vezes, não sabe o que fazer e se misturam na culpa por pensar que está falhando na criação de seus filhos e, pelo medo de falhar acabam por comprometer a relação.

Não raro, a maioria dos que me procuram vivem os mesmos conflitos: ansiedade, medo, insegurança, rebeldia acentuada em relação a um dos pais; complexo de inferioridade, isolamento que levam a fugas diversas “disfarçadas” nos vícios de toda ordem.

É importante lembrarmos que cada filho ou cada pessoa é individual e ainda não podemos almejar a perfeição nem dos pais e nem dos filhos, pois somos seres em evolução e não seres evoluídos. Estamos no caminho; mas ainda falta muito para chegarmos ao nosso verdadeiro destino.

 

(Dr. José Geraldo Rabelo, psicólogo holístico, psicoterapeuta espiritualista, parapsicólogo, filósofo clínico, especialista em família, depressão, dependência química e alcoolismo, escritor e palestrante. Emails:  [email protected] e/ou [email protected])

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