Vale do Paranã: as mudanças culturais
Redação DM
Publicado em 2 de novembro de 2015 às 22:05 | Atualizado há 11 anosAo longo da evolução cultural, o homem foi perdendo a relação com a natureza – seu mundo original – em face da nova relação estabelecida com a máquina, que o substitui em suas funções laborativas. O advento da tecnologia, por um lado facilita as condições de trabalho, por outro lado representa uma perda do potencial criativo dos indivíduos portadores da cultura artesanal, que deixam de ser sujeitos do seu fazer cotidiano para serem consumidores do que é feito segundo um padrão de consumo estabelecido.
O progresso é alvissareiro, mas não vem de forma igualitária para todos. O problema é que a inovação tecnológica chegou sem a necessária evolução cultural, desprezando o saber popular e as experiências acumuladas de uma comunidade que antes vivia segundo sua capacidade própria. As bruscas mudanças culturais, que desarmam os indivíduos de seus próprios meios de agir, geram, de conseqüência, maior dependência das classes menos favorecidas, que ficam marginalizadas das benesses do próprio progresso.
Um caso concreto é dos pequenos proprietários rurais que não dispõem de meios técnicos para a produção mecanizada. Só contam com a eventual ajuda de seus vizinhos, na forma dos tradicionais mutirões, quando da execução de seu trabalho braçal no amanho da terra, em épocas de plantio ou colheita. Esse é um fato cultural marcado pelo valor humano da solidariedade que não subsiste entre os grandes proprietários, que dispõem de meios técnicos mas agem de forma competitiva e não se ajudam entre si. Com o fim dos tradicionais mutirões, sucumbe também uma forma de cultura folk ligada aos ritos de convivência fraternal do homem do campo e inspiradora do seu repertório lúdico (por exemplo, as cantigas, as brincadeiras, as danças típicas).
A inteligência regional
No contexto regional, a cultura artesanal vigente é ainda a forma de saber mais segura e bem sedimentada da maneira de pensar e agir do homem localizado nesse espaço da intersecção Goiás-Bahia. O homem dessa região é dotado de uma inteligência criativa que parece estimulada por dois fatores preponderantes: 1) a própria convivência social calcada ainda num modelo tribal, em que cada um aprende com o outro e assim se constrói a experiência coletiva, e 2) a relação íntima com os entes da natureza – desde o canto do grilo ao silêncio das estrelas – que parecem aguçar a percepção das criaturas que vivem em perfeita sintonia com o seu universo original. Vi certa vez um garoto de São Paulo em visita a uma fazenda em Posse que quis ver como se fazia a ordenha de vacas. Ele que só conhecia leite pasteurizado contido em embalagens plásticas, ficou estupefato ao ver de onde saía o produto in natura. Nem acreditou que era leite. Fico a imaginar que seria mais fácil a uma criança do sertão aprender as complicadas leis de trânsito e circular entre automóveis nas ruas de São Paulo, do que uma criança da metrópole conhecer as leis da natureza e circular entre animais no meio de uma floresta.
Parece que o homem do sertão torna-se mais perceptivo ao conviver com a multiplicidade do mundo natural, do que o homem urbano que se torna fossilizado ante o contato repetitivo com o mundo mecanizado. Na era da cibernética, enquanto o citadino navega no mundo virtual e parece abstrair-se do real circundante, o sertanejo incursiona no universo contemplativo e decifra até os sinais dos fenômenos invisíveis.
A cultura dos enlatados
Na era tecnológica, até as crianças que antes inventavam seus próprios brinquedos interagindo com o mundo, tornaram-se meros consumidores de objetos industrializados, que atiçam seus desejos em função de mero entretenimento, sem proveito para a inteligência. Os inocentes brinquedos infantis (criações do folclore, como tira-roda, bacondê, boca-de-forno, direito-está-vago e outros), que serviam para sociabilizar as crianças e situá-las em harmonia com a natureza, já foram substituídos pelos atuais jogos em rede (criações da indústria de brinquedos) que lamentavelmente chegam a estimular a agressividade como forma de diversão. Os próprios heróis da ficção infantil, já migraram das revistas em quadrinhos (que pelo menos incentivavam a leitura) para o mundo virtual, sugerindo formas de comportamento que parecem programadas para levar as crianças a inconseqüentes aventuras.
No mundo globalizado, o processo de mudanças parece irreversível e as culturas primitivas tendem a desaparecer ou apenas se tornarão objeto de exploração turística. Aos poucos a criação artesanal avulsa vai cedendo lugar para a produção industrial em série. Tudo muda com a mudança dos hábitos sociais, desde a habitação ao mobiliário, desde a vestimenta à cozinha típica. Os homens já não produzem utensílios domésticos e as mulheres já não fabricam mais suas próprias vestimentas. É como diz a cantiga folclórica: Minha roupa nova / qu´eu mandei fazê / do modelo novo, / oi iaiá, vem vê.
No campo do cancioneiro popular, a música eletrônica tornou-se uma concorrente desleal da instrumentística regional e a indústria da pirataria musical (que explora do sertanejo ao funk), deformou a sensibilidade dos compositores nativos expulsando, de resto, a inocência das almas das crianças, que já deixam os brinquedos de roda interativos para frequentarem as alienantes rodas de caraoquês. Nesta região, os mortos são ainda velados em casa e ainda se ouvem cantos de incelências nos rituais fúnebres. É a solidariedade que marcou a vida, também presente na fronteira da morte.
O folclore surgente
O folclore, na sua dinâmica, já reflete as mudanças que se processam dentro da nova realidade cultural surgente. Formas outras já surgem de expressão da cultura popular através de novos rituais simbólicos. O folclore surgente resultará de novas combinações do modo de agir, pensar e sentir regional, com a visão de mundo trazida pelos meios de comunicação de massa, promovendo certamente novas criações populares.
No plano dos valores espirituais, as pessoas já perderam seu lado angélico e estão liberando os monstros que simbolizavam as deformações humanas (lobisomem, bruxa, mula-sem-cabeça), que se escondem no subconsciente coletivo. Saímos da época do culto do espírito para a época do culto do corpo, saímos do mundo da contemplação para a ação, do eterno para o efêmero, do transcendente para o imanente. Estamos na época dos apetites, dos instintos, do grotesco, do lado avesso do ser humano, que por séculos passou camuflado.
No contexto regional, talvez se esteja chegando ao declínio das manifestações folclóricas regionais ligadas à religiosidade popular sob a influência histórica do catolicismo, e agora sob a influência histérica de novo paganismo. Daqui para frente tudo tende a mudar inclusive no plano dos costumes e hábitos sociais, sob o efeito transformador das novas mídias culturais, e no plano espiritual, por força da presença massiva de novas correntes evangélicas.
Há cidades na região, como Mambaí, em que a quantidade de católicos e de protestantes, como dizem, já está pau a pau. Em outros lugares, como em Posse, antigos devotos (e até imperadores do Divino) mudaram de religião e, consequentemente, deixaram de participar de rituais paralitúrgicos, como das tradicionais folias e cavalhadas associadas à festa de Pentecostes. A tendência da cavalhada é transformar-se mais num espetáculo turístico do que numa manifestação pararreligiosa.
Atualmente os festejos ligados à pecuária e aos rodeios que são referências regionais, dividem as datas do calendário com as festas religiosas tradicionais. Entre o público masculino, já se perde a magia dos papéis evocativos de reis e imperadores, enquanto despontam as exibições de peões e campeões das vaquejadas. Entre o público feminino, as crianças ainda se vestem de anjos (como para a primeira comunhão) e as debutantes e noivas deslumbram ainda com seu vestido branco simbolizando pureza. Mas as novas musas da massificação já trocam a coroa de princesa da cavalhada pelo chapéu e bota de rainha do rodeio.
Assim como os mitos clássicos cederam lugar para os mitos populares, na medida em que foram se regionalizando, os velhos mitos do folclore perdem espaço para os atuais mitos massificados, ídolos dos esportes, das competições, dos símbolos sexuais, que ocupam hoje o palco das telas. Se antes os mitos pareciam distantes e invisíveis, agora fazem parte do cotidiano das pessoas nas quais se encarnam em constantes metamorfoses. Se antes os humanos viravam monstros por suas deformações, agora os monstros se transformam em humanos como se estes fizessem parte de seu imaginário.
As lendas que movimentavam os mitos na imaginação popular foram substituídas pelas tramas das telenovelas, e os símbolos representados, que mobilizam o povo, nunca tiveram tanta força como têm hoje através do vídeo. Por sua vez, as práticas religiosas se transferem para as crenças populares, as tradições regionais já se transformam em turismo e o folclore agora faz parte da indústria cultural.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])