Viver é morar
Redação DM
Publicado em 6 de novembro de 2015 às 23:53 | Atualizado há 11 anosO indivíduo não tem onde morar ou mora a partir de um aluguel de custo escorchante; de favores; em moradias precárias; insalubres e de alto risco. O “homem sem casa” trabalha durante todo o dia em um ofício que não lhe apraz, que não lhe dá alegria ou qualquer forma de gozo e ao fim de longa e extenuante jornada percebe que definitivamente, não pode ser livre porque não pode assumir o seu “ser” na totalidade que sua natureza propõe, provoca e inspira. Não pode porque não tem o direito de recostar seu corpo cansado, sua cabeça fragmentada e desconexa e sabe que está em risco.
Risco? Risco da chuva, do desabamento, do calor impenitente ou das chuvas bravias e que punem vigorosamente os mais pobres. Mas também o risco do roubo, da violência que corre solta e livre em qualquer parte desse país e sabe, mesmo inconscientemente sabe, que viver sob tais condições é estar imerso em toda sorte de riscos. E teme enfim, o pior risco, o risco que representa sendo o que lastimosamente é e sob tais condições.
Sabe que é, em si e para si, risco eminente. Que suas certezas se perdem a cada lance de vida, a cada dia consumido, a cada instante vivido. Não há deus, povo, estado ou sociedade que lhe poupe do imenso drama de ser o que jamais sonhou ou quis ser: um “homem sem casa”. Este tipo humano é, em si, o retorno para uma relação original com a própria natureza.
Não tem casa, portanto, não tem casas, sobretudo, casas interiores e que envolve espírito, saberes, inspirações e a multiplicidade de sonhos que lhe tomam o ser. Não mora em si, mas na incerteza. Essa condição lhe rouba a integridade do ser, lhe emascula como força viva e ativa no mundo.
Toda essa ruína existencial porque não mora e quem não mora, não vive. Quando se mora, se afirma, firma valores e crenças pessoais, se estabiliza e transcende. Desta maneira, um homem/mulher que não transcende, que é prisioneiro do “aqui e agora”, dos imediatos da vida cotidiana é homem/mulher sem horizonte, sem brilho e sem mistérios. E todos sabemos, não se pode viver sem mistérios. Não casualmente, o cancioneiro popular nos ensina que “todas as coisas são mistérios”. Somos movidos por mistérios ou nos estacionamos no tempo/espaço.
A casa seria seu refúgio, seu domínio, seu lugar. Lugar porque lhe seria familiar, pessoal, próximo, identificável, sentimentalmente identificável. Diferentemente do que se pensa, a casa é mais interna do que externa. A casa em que moramos habita em nós como o sangue que corre em nossas veias, nos transmite segurança, nos faz seguros porque nos resguarda do dia, da noite e dos fenômenos naturais. É muito importante porque nos acolhe, acolhendo nossa natureza e permitindo que ela se aperfeiçoe, se amplie e se humanize em belezas, delicadezas e sensibilidades.
Não casualmente, o magistral Vinícius de Moraes (1913-1980) irá exaltar a casa, o lócus da moradia, a principal possibilidade de estabilização social e política de um povo em sua obra de maior luminosidade social “O operário em construção” (1959) quando já em seu começo, cita:
“Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.”
A arte ensina como a vida ensina e a estupidez humana é crer que não há sabedoria nas simplicidades do cotidiano. O poeta reinventa o saber e as sensibilidades sociais quando liricamente conta da casa “que brota da mão”; da casa como templo, portanto, como espaço da transcendência e; como o topos do binarismo liberdade/escravidão.
Casa é tempo, é liberdade e é escravidão porque morar é vida ou não há vida e, finalmente, a casa é vida porque permite o movimento, as dinâmicas que fazem e perfazem a vida e, de outro modo, nada é tão dinâmico quanto uma casa fixa em bases bem postas. Por quê? Porque nos traduzimos, replicamos e nos expandimos para o mundo a partir do porto seguro da casa.
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)