Youtubês: Fenômeno é prejudicial ao desenvolvimento da comunicação e interação infantil
Redação DM
Publicado em 10 de maio de 2021 às 14:37 | Atualizado há 2 anos
O Youtubês é o formato de fala realizado pelos youtubers nos canais da rede social. Segundo a fonoaudióloga, Daniella Sales Brom, “eles têm uma forma de falar para atingir um público maior e com entonação para incentivar as pessoas a prestarem atenção neles e com alguns comandos como “Curte aí” etc. E as pessoas começam a fazer isso no dia a dia”, conta Daniella.
De acordo com a fonoaudióloga, os casos mais comuns são quando a criança começa a falar como se tivesse no canal do Youtube. Ela usa jargões como “Um beijo galerinha, curte meu canal”.
“Tenho recebido crianças que conversam como youtubers e usam expressões como ‘Oi galerinha!’, mesmo na avaliação onde estamos apenas nós. Como os vídeos são apenas narrados, sem a imagem da pessoa que está falando, a ‘interação’ fica prejudicada. Quando direciono a comunicação da criança, ela simplesmente age como se eu não estivesse ali e continua ‘narrando’ seu vídeo como fazem as personalidades no Youtube”, conta Daniella.

Foto: Arquivo pessoal.
A fonoaudióloga afirma que, esse comportamento é prejudicial porque as crianças estão com dificuldades de iniciar e manter diálogos com uma pessoa real, devido ao consumo excessivo desse formato de conteúdo nas telas. “Do nada a criança começa a falar exatamente como nos vídeos, como se fosse uma ecolalia, que é o comportamento de repetição da fala que não tem função comunicativa, apenas de reprodução”, explica a fonoaudióloga. Além do uso de expressões diferentes e sotaques regionais com os quais a criança não teve contato.
Segundo o psicólogo, mestre em educação, Paulo Veras, o que está acontecendo é a interação com o meio em que a criança está inserida, “A criança foi privada de ir pra escola, ela perdeu um pouco dessa interação que ela tinha com os colegas, com o professor e aí fruto disso a mãe, a família, acabou deixando que essa criança ficasse envolvida com a internet, nesse caso com o youtube, seja assistindo jogos, seja jogando, seja vendo os filmes, seja interagindo. Na verdade houve uma substituição do que essa criança fazia para o que ela está fazendo hoje, afirma.
De acordo com Paulo Veras, nesse caso a família precisa rever que tipo de interação ela está fazendo e deve por exemplo, “fazer mais leituras, brincar com essa criança, fazer atividades que interaja essa criança com os pais, fazer com que essa criança se sinta interagida dentro do ambiente que ela está inserida”, afirma.
Para Daniella Sales, em alguns casos o youtubês não é tão prejudicial. “Mas nos casos em que a criança começa a ficar muito tempo com essas falas, aí sim se torna prejudicial. O grande problema é o excesso, quando a criança começa com essa repetição frequente no dia a dia”, explica.
Paulo Veras afirma que esse é um fenômeno que tem acontecido não só com as crianças mas, também com os adultos. “Na medida que eu perco o processo de me socializar lá fora, eu preciso reinventar outra coisa, alguns se deprimem, alguns entraram em um quadro de ansiedade, outros se isolam. O certo é que que nós fomos buscando alternativas e uma das mais fáceis que as famílias têm encontrado é jogar a criança pra TV, filme“.
Segundo Daniella Sales, os pais devem conversar com os filhos, explicar para a criança que aquela fala é de um personagem e que ela pode ter um pouco disso, mas precisa desenvolver sua identidade. “O principal cuidado é não deixar as crianças e adolescentes expostos às telas por tempo demais e estimular outras atividades, afirma.
De acordo com Paulo Veras, “é preciso rever que tipo de interação estou fazendo, existem “Ns” brincadeiras que podem ser feita para interagir com a criança, “Ns” atividades, leituras que eu tiro a criança desse universo virtual e coloco ela num universo muito mais físico”, finaliza.