A conta alta dos compulsivos
Redação DM
Publicado em 17 de março de 2022 às 13:47 | Atualizado há 1 ano
Todos os dias uma avalanche de propagandas usam de diversos artifícios para despertar o desejo do consumidor. O marketing está em qualquer lugar: nas TVs, internet, outdoors e até neste jornal. E tá tudo bem. Porém, há pessoas que não precisam de muito – ou nenhum estímulo para sentirem a enorme necessidade de adquirir. Para os consumistas compulsivos, as compras, muitas vezes são feitas em excesso, sem necessidade e geram transtornos para o doente e família. Essa doença tem nome e trata-se da oniomania.
Para quem possui a doença, não importa se o momento é de crise financeira mundial e se tem recursos para arcar com a dívida: o importante é saciar a vontade voraz de possuir tal objeto. Mas depois de obter o produto desejado, vem o arrependimento e a culpa.
“Geralmente, ao se fazer compras, a pessoa que não sofre a oniomania se sente feliz e realizado com o produto. Por outro lado, quem tem esse tipo de compulsão sente-se eufórico na hora de comprar, porém depois insatisfeito”, explica a psicóloga Jéssika Rodrigues.
Segundo a psicóloga, a oniomania é mais comum entre mulheres e tem se tornando mais frequente devido à associação do consumismo com o bem-estar. Porém, também diz muito da forma como a pessoa lida com a emoção. Ou melhor, como foi ensinada a encarar os seus sentimentos.

Isso porque, conforme a profissional, o processo de incentivo ao consumismo pode começar na infância, quando os pais não querem frustrar os filhos. Logo, começam a dar coisas para compensar a ausência, o cansaço, a falta de tempo ou a falta de paciência.
“Para compensar o que não estão conseguindo dar, substituem o afeto por coisas e tudo se inicia aí. Associar coisas, objetos e ganhos a sentimentos, a afeto, emoção e, ao próprio amor, faz a criança entender que amor é dar ou receber algo. Quando estou triste posso comprar algo, fico feliz ou quando faço algo ruim para alguém posso presenteá-lo e vai estar resolvido”, explica.
Dependência
Ainda de acordo com a psicóloga, quem possui este transtorno, no momento da compra é liberado hormônios, como a serotonina, que possibilitam a sensação de prazer. Sendo assim, quando o compulsivo se vê impedido de fazer compras, – seja por endividamentos, reprimendas ou por autocontrole –, pode apresentar reações de abstinência parecidas com as de quem é dependente químico.
“Ao se ver impedida de consumir, a pessoa pode ficar agressiva, triste e ter crise de ansiedade. Muitas vezes, são capazes de mentir e enganar. Todos os tipos de compulsão geram esses comportamentos, que são parecidos com quem tem dependência química”, esclarece.
Superação
A boa notícia é que a oniomania pode ser vencida através de terapia cognitiva comportamental e tratamento psiquiátrico. Um exemplo conhecido de consumista compulsivo que deu a volta por cima é a cantora Preta Gil. Em entrevistas, contou que o problema teve seu ápice há mais de 20 anos, época em que comprava três pares de sapatos iguais, com medo de estragar, e três bolsas grife de R$ 20 mil, de uma vez só.
Por conta dos excessos, até a cantora, que é bem-sucedida, se viu endividada. Chegou a perder um apartamento. “Fiquei devendo muito ao cartão de crédito. Lembro até hoje do meu pai me dizendo: ‘Você tem um apartamento, então venda. Eu não vou te ajudar, você deixou isso acontecer’. Naquela época, ninguém achava que aquilo era doença, até hoje é um problema visto com preconceito, mas é, sim, uma doença da alma”, relembrou a cantora.
Com terapia e conselhos de amigos, a artista superou a oniomania e, desde 2007 organiza eventos para consumo consciente, como o Bazar da Preta, brechó de luxo que conta com doações de amigos e celebridades.