A vítima inocente do acerto de contas
Redação DM
Publicado em 3 de março de 2017 às 01:51 | Atualizado há 9 anos
A adolescente Andressa Cristina Marçal Souza, 16, encontrada morta nesta quinta-feira, 1/3, em Goiânia, ao lado do namorado, Uenio Leite da Silva, 25, pode ser o exemplo de um crime bastante comum no Brasil e difícil de combater por ser derivado de outro. Sem nenhuma passagem, Boletim de Ocorrência, cumprimento de medida socioeducativa ou acusação contra a garota, ela foi mais uma a tombar numa possível guerra entre usuários e traficantes de drogas. Ou mesmo disputas de gangues.
A mãe Mara Sandra Marçal Rodrigues garante que a jovem era inocente. Com 16 anos, a adolescente deixa uma filha de um ano e oito meses para seus pais cuidarem. Andressa Cristina Marçal Souza foi encontrada assassinada com um tiro no peito na residência do namorado, no Setor Chácaras Retiro. O mesmo peito que dava para a filha se alimentar.
É mais um drama característico e que se repete: se apaixonou por um suspeito de estar envolvido com o tráfico de drogas. Na Polícia Civil, a ficha de Uenio teria muitos preenchimentos: posse de drogas, disparo de arma de fogo, lesão corporal e roubo. Existe a suspeita de que possa ter se envolvido com traficantes, o que o fez jurado de morte.
A Polícia Civil trabalhará com esta premissa durante as investigações. O inquérito já foi aberto e agora resta procurar indícios, como gravações e provas testemunhais que possam relatar os envolvimentos de Uenio.
PEITO
Diante do passado da adolescente, suspeita-se que ela foi mais uma que morreu durante um acerto de contas. Mas sem culpa. Nestes casos, diz um integrante da corporação ao DM, o assassino já é “escolado”, com vários crimes e não interessa quem mata ao lado do seu alvo. Um crime a mais não faz diferença. Daí a escolha de Andressa ter sido a pior numa situação de vulnerabilidade: o namorado estaria no alvo de algum desafeto.
Ontem, durante o velório da adolescente, familiares repetiram inúmeras vezes para os pais não deixarem os filhos se envolverem com suspeitos e pessoas que tenham um passado criminoso. Hoje, o martírio se repete, quando adolescente será enterrada.
JUVENTUDE
Em sua rede social, o ex-vereador e estudante de direito Djalma Araújo disse que conhecia a garota desde a barriga da mãe. E que a “juventude está perdida”. Djalma relatou que falta segurança pública e ações afirmativas do poder público, que deixa os jovens soltos nas ruas, sem condições de vida, educação e outras alternativas ao crime. O ex-vereador diz que não é justo os que julgam a adolescente. “A juventude está perdida, mas o poder público é que é o responsável. Nessa proporção, um crime como este não ocorre em país civilizado. Aqui é comum. Basta abrir os jornais na semana que vem”.
A ativista Eva Rocha, da ONG “A Paz que eu Quero”, estudante de psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-GO), relata que existem estudos que tratam de violência urbana cuja matriz é o tráfico de drogas: “O combate ao tráfico reduz o acerto de contas. Agora, liberar o uso de drogas é outra questão, mais complexa e não sabemos se resolveria casos como esse, já que ninguém garante que ao liberar as drogas o traficante deixará de existir”.