Análise: Comissão, mas não de inquérito
Redação DM
Publicado em 20 de outubro de 2015 às 05:09 | Atualizado há 11 anosRIO, 19 (AG) – CPI ainda é sigla de Comissão Parlamentar de Inquérito, mas já vai longe o tempo em que as três letras eram sinônimo de que uma crise política estava prestes a explodir. O ocaso da comissão criada para investigar os desvios de recursos da Petrobras parece insistir que hoje ali só existem as duas iniciais: C. e P. No relatório final que deve ser votado ainda esta semana o I. de Inquérito desapareceu.
Durante os quase sete meses de atividade, a CPI que tinha potencial para ser uma reedição da comissão parlamentar do Orçamento – aquela que em 1993 acabou provocando até a queda do então presidente da Câmara Ibsen Pinheiro – preferiu evitar que colegas virassem alvo preferencial. O atual presidente da Casa, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que se apressou a prestar depoimento ainda no início dos trabalhos sairá ileso. Uma contradição com a montanha de documentos que aportaram da Suíça e levaram o deputado a ser investigado por lavagem de dinheiro e corrupção.
Em 1992, a CPI do PC ajudou a tirar o presidente da República do cargo depois que ficou claro que Fernando Collor, o mesmo que bloqueou poupanças, tinha despesas familiares pagas por cheques fantasmas. Na Era Lula, ainda em 2005, a CPI conseguiu arrancar a confissão do marqueteiro do presidente, o publicitário Duda Mendonça, de que, pelo serviço para o PT, ele recebeu, e não declarou, dinheiro em conta no exterior.
Mas à reboque das apurações da turma da Lava-Jato em Curitiba e Brasília, a CPI da Petrobras não conseguiu sequer aprofundar investigações sobre os contratos superfaturados da Petrobras e suas subsidiárias. Mesmo quando ouviu delatores do esquema de corrupção, produziu no máximo cenas de constrangimento político. Descoberta de fato novo, ficou devendo.
No período em que deveria ter atuado, a comissão se reuniu 56 vezes em Brasília. Houve tempo até para uma escapada a Londres onde um grupo de parlamentares foi ouvir um ex-funcionário da SBM. O que colheu lá já era de conhecimento público.
Nas sessões públicas, troca de acusações entre governistas e oposição. Algumas perguntas duras, seguidas de respostas no mesmo tom. Um reduzido grupo de parlamentares ainda tentou usar a comissão para apresentar requerimentos de interesse estranho com intenção de incluir na lista dos investigados quem nem suspeito era.
A CPI da Petrobras entra para os anais como aquela que violou o bordão político de que se sabe como uma comissão parlamentar começa, mas não como termina. Na edição 2015 da CPI que quis investigar desmandos na Petrobras prevaleceu outra máxima: de onde não espera nada, é dali que não sai nada mesmo.